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terça-feira, 2 de maio de 2017

Greve enquanto houver governo

I
Com licença, mas já vou dizendo que sou um vagabundo e marginal: eu apoio o direito de fazer greve, eu apoio greves. Vivo na periferia das ideias alheias, como um marginal do pensamento.
Igualmente discordo da ação de piquetes, bloqueios e qualquer outra forma de cercear a liberdade de ir e vir. Já fiz isso em outros tempos, confesso, mas mudei de perspectiva. Descobri alternativas. Não gosto da força ou da violência física ou verbal como argumento. Mas isso também me coloca na margem de outros que desejam impor sua greve sem se importar com direitos alheios.
Se nem o amor deve ser imposto, imagina o resto. Venha em liberdade, fique à vontade, saia quando desejar. É válida a lei da semeadura, colhemos o que plantamos.
É uma visão a partir de um ponto e, como existem muitos outros pontos em nossa matriz social, posso dizer apenas que é diferente. Não ouso dizer que esteja certa, isso soaria arrogância diante de quem pensa diferente por um simples motivo: eu teria que assumir que eles estão errados. Sinceramente, cansei de ficar pretendendo ser juiz de ideias alheias, ou de tentar convencer alguém fazendo piquetes retóricos.
Mais do que a liberdade de ir e vir tenho gostado da liberdade de aceitar e, se convidado, ficar. Que loucura essa, tentar habitar a realidade do próximo sem ser um invasor!
II
Há alguns anos conheci o José. Ele coleta lixo reciclável aqui no bairro. Quase toda semana conversamos um pouco e fui acompanhando suas fases até a sobriedade atual. Teve uma vez que ele quebrou um pé, mas toda semana ele aparecia, mancando e puxando seu carrinho. Isso deixou sequelas, pois até hoje ele arrasta aquela perna.
Sua conversa é sempre animada, olha pra mim com um sorriso e já vai gritando, .... e daí, gente booooaaa..., com sua voz que é muito parecida com a daquele cantor-comediante brega, o Falcão das roupas extravagantes e girassol na lapela. O óculos escuro só reforça o estilo. É claro que eu o chamo de Falcão, e ele ri o tempo todo. Mesmo quando sai de mãos abanando, dizendo, “ - fica pra próooooxima! Suas palavras finais sempre arrastam como sua perna.
Geralmente nosso papo gira rapidamente sobre as dificuldades do dia. Minha vizinha da frente, caridosa, quase sempre dá pra ele uma boa comida. Mas hoje estiquei o papo e arrisquei:
- Zé, me diz, o que é que você está achando da greve?
Ele me olhou, pensou um pouquinho e respondeu:
- Não faz a mínima diferença. Eu “tô fudido” de qualquer jeito. Eles tão no direito deles, mas eu preciso trabalhar. Meu único compromisso é tirar um dinheiro pra viver e pagar os 70 contos de aluguel, toda semana, do meu barraco.
Fiquei com cara de idiota, eu acho, enquanto fazia as contas; ele precisa tirar em média dez Reais por dia só para o aluguel. Ele deve ter percebido minha cara e num gesto de “não se sinta culpado”, sei lá, apoiou sua mão de leve no meu ombro esquerdo. Eu tentava encarnar em seu mundo, ele tentava me consolar do meu.
Resolvi arriscar uma segunda pergunta. Outras surpresas desagradáveis estavam por vir, mas eu não sabia. Seu carrinho estava vazio, mas sua carga era muito grande. Comecei a entender porque ele sempre andava no mesmo passo, independente do volume que puxava.
III
Posso tirar uma foto? - Claaaarooo! Nossa, fiquei bonito, disse quando viu.
Então, posso fazer outra pergunta?

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