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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O verdadeiro poder é poder servir


Por volta de 930 a.C. os filósofos chineses da Dinastia Zhou introduziram a doutrina do “mandato do céu” para explicar por que Zhou teve o direito de remover o poder do regime anterior, declarando que o Imperador estava correto em suas ações, pois possuía um missão divina: ouvir e servir seu povo. Porém, um imperador injusto poderia ser deposto até mesmo por uma revolta ou golpe.
O conceito ‘pegou’ e se disseminou através dos séculos. Na Europa surgiu como o conceito de ‘direito divino’ do rei ou imperador: o culto a Cesar (Império Romano), o Rei-Sol (Luís XIV na França Medieval), são exemplos históricos. Com uma diferença: o rei ou imperador era a divindade incontestável em suas ações, acima de qualquer poder temporal, mesmo agindo de forma arrogante, patriarcal e despótica. Qualquer contestação ao seu poder era uma revolta contra o próprio Deus.
Nas religiões os deuses não devem ser contestados, assim como seus representantes na Terra. Sua ira ou vontade necessita ser acalmada através de sistemas sacrificiais muitas vezes cruéis e sem sentido, mas sob controle de uma classe sacerdotal aliada ao poder temporal. Pagar pedágio para os sacerdotes era (ainda é?) uma imposição para manter o poder.
No Ocidente, Constantino desenvolveu o conceito católico do Papado a partir desses princípios. Os Califados árabes surgiram com as mesmas prerrogativas, ambos perdurando até hoje. A Reforma Protestante (500 anos em outubro!) não mudou muita coisa. Houve uma reforma teológica, mas que passou ao largo da necessária reforma eclesial. Ela fragmentou o poder religioso central, mas favoreceu o surgimento de diversos feudos religiosos com seus papinhas. Resumidamente, a Reforma apenas disse que o líder deveria ser ‘um servo de Deus’, conforme os ritos da própria instituição que o ‘consagrava’.
No Brasil, cerca de três mil anos depois do Imperador  Zhou, outros imperadores e reis na forma de líderes políticos e religiosos continuam seguindo os mesmos princípios. O discurso Republicano é apenas isso – um discurso com aparência de democracia. Na verdade a autoridade jamais admite ser contestada, pois todos se acham chamados não pelo desafio de servir, mas pelo desejo do poder. O poder econômico, político, jurídico e religioso continua sendo a motivação de falsos líderes, que se embaralham de maneira promíscua para defenderem seus próprios interesses.
As castas do poder queimam o mesmo incenso diante do mesmo altar.  Assumem que seu mandato é um chamado divino, incorporando a figura do ‘messias’ ou ‘salvador da pátria’.  Declaram guerra contra a pobreza, contra o analfabetismo, contra a corrupção, contra a inflação, contra o déficit público, contra a fome, dentro de um imaginário medieval: cruzadas contra o mal que nada mais é do que a incompetência de governantes ou sacerdotes anteriores que fizeram diferente. Desprezam a história e seus conselheiros. Justificam suas facções. Toleram outros males “por um bem maior”. Rezam sua doutrina ideológica sobre palanques e púlpitos. Exploram e usam seu povo.
Na verdade, tornaram-se marionetes do mal e de suas próprias vaidades, engordando seu ego com amigos profissionais e igualmente interesseiros. Dizem que sua maior “virtude” é não ouvir as pessoas que não pensam como eles. Alegram-se queimando seus adversários no altar e excomungando seus opositores.
O caminho para sair desta situação? Existem várias possibilidades, mas uma é fundamental e bem conhecida: o serviço ao próximo como missão pública.
O verdadeiro poder é poder servir.

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