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terça-feira, 28 de março de 2017

Post hoc ergo, propter hoc

Mentoris - Gustavo Brandão

Há algum tempo conversava com uma jovem, que vivia uma imensa dor. Seu pai acabara de falecer. Na noite anterior haviam discutido e ela fora dormir com as últimas palavras ditas para ele, “-quero que você suma da minha vida!”
No dia seguinte ele seguiu para o trabalho bem cedo, como de costume. No caminho um bêbado avançou o sinal e atingiu seu carro, matando-o na hora. Agora ela desabafava. Cada lembrança de seu pai era agora consumida por suas últimas palavras, ditas num momento de raiva e frustração. 
Além da dor e do luto, a culpa a dominava.
“Depois disso, portando por causa disso”,...  ela imaginava que seu desejo havia sentenciado seu pai.
“Depois disso, portando por causa disso”, presumimos muitas vezes.
Existe uma lógica falaciosa por conta de eventos que ocorrem sequencialmente que muitas vezes nos aprisionam e nos fazem sofrer, sermos injustos ou mesmo cair em ilusões. Tendemos a imaginar que se algo acontece logo após certo evento, numa linha do tempo, a causa do segundo foi necessariamente o primeiro. Damos o nome de ‘correlação coincidente’ a este raciocínio, muitas vezes ardiloso.
O erro pode estar em desconsiderar outros fatores no desejo de encontrar rapidamente explicações ou responsáveis por determinada situação ter acontecido ou não. Se feito de maneira errada, o resultado poderá trazer falsos sentimentos (bons ou ruins) e não amadureceremos em nossa jornada. Ou iremos responsabilizar levianamente alguém ou alguma coisa. Ou ainda, satisfará um desejo oculto de nosso coração que nem sempre condiz com a verdade, porém, satisfaz nossos padrões de pensamento.
Por exemplo, numa demanda trabalhista o trabalhador culpa a empresa por sua saúde ter-se deteriorado depois que ele começou a trabalhar, desejando estabelecer um nexo causal. Porém, uma análise ou investigação pode apontar outros fatores em outras áreas da vida do profissional, que nada tinham a ver com o ambiente de trabalho, mas que podem ter levado aos seus problemas de saúde.
Nossas experiências passadas muitas vezes são alinhadas com eventos do presente e tendemos a raciocinar apenas numa relação de curto espaço de tempo de “causa-efeito.” Se fui traído por um determinado profissional ou pessoa, posso ser tentado a afirmar que ‘nenhum deles presta’ e assim passar a viver com uma premissa que vai me levar a um medo genérico ou preconceito em relação àquela profissão ou pessoa. Posso até acabar sabotando minhas relações presentes para poder dizer ao final, melancolicamente, algo como “eu já sabia”, reforçando ciclicamente minhas crenças.
Na vida e em nossas Redes somos pessoas com boas e más experiências, com diferentes bagagens. Buscamos construir um coletivo onde as oportunidades de cooperação e colaboração são o desejo de todos. Eventualmente, trazemos nossos aprendizados pessoais como contribuição para poder avançar em determinados assuntos ou para alertar sobre situações e contextos já vivenciados. Em todas as situações, o diálogo deve nos orientar.
Somos uma unidade orgânica e sistêmica. Isso quer dizer que temos uma alta complexidade no que diz respeito às expectativas, desejos, sonhos, tecitura de projetos, parcerias e mesmo amizades e relacionamentos. Acima de todas as coisas, formamos um ambiente de aprendizagem continuada, de troca e de contribuições, com humildade e respeito. Damos inclusive o direito do outro não ser como eu sou, dentro dos limites éticos que devem nortear nossa caminhada.
Com isso, em primeiro lugar acolhemos o outro buscando seguir o exemplo universal do Mestre. É na caminhada que conhecemos as pessoas e é no caminho que discípulos tornam-se mestres.
Em tempo: aquela jovem com quem conversava entendeu que a vida muitas vezes é assim, inexplicavelmente trágica e imprecisa. O amor de seu pai estava muito além daquele desentendimento.
Coisas ruins e boas acontecem com pessoas boas e ruins. O controle é uma ilusão, o determinismo é uma armadilha. Coisas ruins acontecem, mas não significam que tenhamos responsabilidade nem definem quem somos. Da mesma forma, quando acontecem coisas boas precisamos igualmente colocar tudo em perspectiva.

A jovem conseguiu se perdoar, entender e descansar nas boas lembranças e nas oportunidades que teve de compartilhar do amor de seu pai. Prosseguiu seu caminho em paz.
A vida não é uma linha reta, viver não é preciso.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Trabalho, vocação e aposentadoria.
Mentoris - Gustavo Brandão
Enquanto nosso paradigma e modelo de trabalho derivar do conceito de “maldição”, fruto de uma interpretação teológica equivocada da tradição cristã, o teremos como sendo o cumprimento de uma pena: o homem foi ‘condenado’ a trabalhar.
Assim, no imaginário popular o que se puder fazer para burlar esta sentença, será feito. Até mesmo dar ‘jeitinhos’, pagar santos ou políticos ou empreiteiros ou religiosos e suas mandingas pra ‘facilitar’ as coisas neste plano existencial ou em outro, trocando promessas por favores. Esta cultura de toma-lá-dá-cá é a base da corrupção. Nesse contexto, o trabalho é coisa para otários.
Porém a verdadeira maldição não é o trabalho em si, mas o trabalho sem propósito ou com o desígnio errado. O propósito correto e transcendente é chamado de vocação, ou “beruf”, nas palavras de Max Weber em sua obra ‘A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’. Desta forma, o exercício de uma vocação é muito mais do que uma profissão ou ocupação, mas exatamente o trabalho revestido de significado.
Por mais importante que seja, não é o trabalho que dignifica o homem. Apenas o homem livre pode dar significado e dignidade ao que faz, seja lá o que for. Isso não é tarefa do patrão nem do governo. Quem transfere a dignidade do que faz a um diploma, um cargo ou a algum condicionamento cultural torna-se escravo do fazer para ter alguma coisa, desde bens materiais até reconhecimento de algum grupo.
À igreja, pensando em nossa sociedade ocidental cristã, interessa muitas vezes passar o conceito de ‘maldição’ com um objetivo apenas: a de pretender redimir o homem fazendo-o contribuir com o suor de seu rosto para alcançar o lar celestial e domesticar ao mesmo tempo o ser social. Desta forma, os tributos ou indulgências eclesiásticos visam sustentar a máquina religiosa em troca da salvação ou pacificação do espírito do contribuinte duplo: do estado e da igreja. Eles sempre cooperam para objetivos comuns.
Dentro do contexto histórico, muitas coisas permitiram que as sociedades modificassem a essência de suas relações, sendo que o fim dos laços de solidariedade que determinavam o equilíbrio entre as diversas formas sociais foram sendo desfeitos e favorecendo, insidiosamente, grupos que se viram amparados por ideologias e, consequentemente, suas teorias econômicas. Assim o conceito de homem e de sociedade migrou do homem cordial para o de homem econômico. Isso trouxe consequências.
O ser humano é um ser social antes de ser econômico, por mais que se tente medir o ser pelo ter. Durante boa parte de sua existência a humanidade procurou viver em sociedade, fazendo das relações humanas a base de todas as coisas – inclusive dos conflitos e da busca de soluções para as tensões existenciais de sempre. Os arranjos aconteciam buscando resguardar a integridade das diversas culturas, cada uma mantendo suas características em maior ou menor escala. Quando os aspectos culturais eram destruídos, isso era devido a um conflito aberto, dramático, na típica relação de conquistadores para conquistados.
Insidiosamente, entretanto, novas formas de relações sociais foram tomando conta dos grupos, povos e sociedades. Novas atitudes, novas práticas comerciais, novas ideologias, novas teologias, foram construindo a complexa rede de relações que transformaram o homem cordial em um ser moldado e regulado basicamente pelo Mercado, enquanto sistema econômico moderno. Uma nova visão de mundo aconteceu e passou a controlar e determinar as ações e relações humanas (Karl Polanyi, “A Grande Transformação: as origens da nossa época.” 1944).

Destas novas relações surgiram três grandes mercadorias: o trabalho, terra e dinheiro.

A base de uma economia de mercado é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido apenas por mercados. A ordem de produção e distribuição de bens é confiada a esse mecanismo autorregulável. Autorregulação significa que toda produção é para a venda no mercado. O que está à venda?
“Todos os rendimentos derivam de tais vendas. Por conseguinte, há mercado para todos os componentes da indústria, não apenas para os bens (sempre incluindo serviços), mas também para o trabalho, a terra e o dinheiro, sendo seus preços chamados respectivamente, preços de mercadorias, salários, aluguel e juros. Os próprios termos indicam que os preços formam rendas: juro é o preço para o uso do dinheiro e constitui a renda daqueles que estão à disposição de fornecê-lo. Aluguel é o preço para o uso da terra e constitui a renda daqueles que a fornecem. Salários são os preços para o uso da força de trabalho, que constitui a renda daqueles que a vendem.” (Polanyi)
Isso trouxe sérias consequências para as relações humanas, que passaram a ser cada vez mais utilitaristas, frias e precificadas. O homem tornou-se cada vez mais apenas um objeto empregado para gerar dinheiro para o governo e outros homens que exploram seu tempo.
Quem trabalha apenas trocando seu tempo por salário é realmente um maldito empregado. E todo amaldiçoado é um escravo.
Lembro bem quando surgiram os computadores: agora as pessoas poderão fazer mais rapidamente seu trabalho, podendo ter mais tempo para si, diziam. Porém, a velocidade para obtenção de resultados financeiros foi o que passou a determinar a produção. O que se produzia em uma semana passou a ser produzido em um dia e a pressão só aumentou. Para que?
Por outro lado, quem exerce uma vocação é livre para dar a dimensão e o propósito que desejar para sua vida e para o que faz, seja lá o que for. Uma vida mais simples, com qualidade, sem ser definida pelo ter mas sendo senhora de seu tempo e de sua produção.
Somente quem é livre consegue estabelecer os limites que separam a sua vocação da escravidão. O conceito de ‘aposentadoria’ está atrelado a uma qualidade de vida de “merecido descanso.” Mas se a vida é com qualidade antes, para que se desejar um depois, quando o corpo e a saúde já não permitem a mobilidade de outrora?
Sacrificamos a juventude, o tempo, a saúde, ...,  para conquistar bens para usufruir quando não tivermos mais juventude, saúde e tempo. Não tem sentido, é a mentira do mercado nos bancos escolares para servir os deuses que queimam gerações em suas máquinas de guerra e exploração.
Percebe-se com isso que a discussão da 'aposentadoria' nada mais é do que a discussão entre os senhores do mercado e seus escravos. E escravo, todos sabem, não tem poder de decisão, apenas de revolta.
Dizem que um novo mundo, um novo ser, uma nova vida seja possível.
Acredito que sim, mas você saberia como?