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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Saci Noel está chegando!

A alucinada temporada natalina ganhou um tremendo impulso com a popularização em escala global da “Black-Friday”. Este dia foi estrategicamente colocado entre o Dia de Ações de Graça (um feriado nos Estados Unidos), e o primeiro domingo do Advento, criando definitivamente outro sentimento para o que deveria ser um período de paz e preparação para o Natal. Estamos perdidos.

Mesmo sendo coisa de três anos no Brasil, a Black Friday existe há muito tempo na terra do Tio Sam. Foi por volta da metade da década de 1970 que realmente se popularizou, marcando o início da temporada de caça aos presentes de natal.

A terra do Tio Sam é realmente pródiga em transformar boas ideias em produtos de consumo. Tudo está venda e a discussão passa a ser apenas o preço. Desta forma, aproveitando o clima sentimental entre o dia de ações de graça e o natal, a Black Friday inaugura a temporada de correrias para as compras de natal. A expectativa foi invertida. Mais do que nunca, gratidão e o amor tornaram-se produtos precificados conforme a culpa de cada pessoa, sendo que as grandes questões da humanidade – ou pelo menos as do indivíduo - ficam resolvidas com quinquilharias.

Da sexta-feira negra até o Natal, serão dias de correria, consumo e verdadeira ansiedade, mesmo para quem não comemora o Natal cristão, seja lá por que motivo for. Nos Estados Unidos, a chatíssima era do politicamente correto faz muitas pessoas desejarem umas às outras “Happy Holidays”, em vez do tradicional “Merry Christmas”. Mal sabem elas que acabam desejando literalmente um “feliz dia santo”, e o tiro sai pela culatra pela ignorância pagã.

De qualquer forma, mesmo o tradicional ‘feliz Natal’ já não tem o seu sentido original, pois o que era para ser a celebração de um período foi reduzido a comes & bebes com alguns presentes em um dia apenas.
Tudo deve estar comprado, empacotado, embrulhado e pronto para ser entregue e engolido até o dia 25 de dezembro. À medida que passam os dias e se aproxima o clímax natalino, o prazo final, cresce a ansiedade e o stress. Papais-noéis materializados nas fachadas, pulando a cerca, saltando de paraquedas, pendurados no teto, apenas aumentam a pressão: compras! Sonhos e desejos de consumo substituem um sentimento que deveria ser de paz, reconciliação e alegria.

Historicamente, o natal nunca foi o foco do cristianismo e apenas vários séculos depois do nascimento de Cristo as coisas começaram a mudar. A Páscoa sempre foi a festa central por séculos, onde a Ressurreição do Filho de Deus era o verdadeiro motivo de celebração. Afinal, todas as religiões têm o seu natalício, mas apenas o Cristianismo veio com a proposta da ressurreição, algo que a própria Bíblia reconhece que é uma mensagem louca para quem não crê.

Vale a pena dizer que não tenho nada contra todos os símbolos tradicionais do Natal, inclusive o bom velhinho, o pinheirinho e a neve nos trópicos, muito pelo contrário: em minha família, estas tradições contribuíram muito para fazer a alegria da criançada. E hoje, netos e netas se deliciam com um natal de arregalar os olhos, lamber os beiços e sorrir de alegria! Imagens, sons e cheiros que foram eternizados em meio à leitura bíblica do nascimento de Cristo. Os símbolos do Natal, devidamente colocados, contribuem para a magia desta época, para o encantando da criança que temos em nós e da criançada de todos os tempos.

Porém, poemas, canções, enfeites, estratégias de marketing, tudo aos poucos foi sendo usado para criar o “clima” artificial de Natal que, na verdade, tornou-se basicamente comercial. Um dos ícones do Natal, o fofo e rechonchudo Bom Velhinho da Coca-Cola, foi a melhor campanha de todos os tempos para colar o Natal à sedução do mercado. Mas tudo isso passou da conta, está se tornando insuportável.

Cada vez mais me sinto como o peru escolhido para a ceia, dia a dia forçado a engolir, via marketing de gosto duvidoso, todo tipo de produtos, sendo lentamente preparado para o abate no altar do deus mercado que, na Bíblia, foi identificado como Mamom. A seu respeito o menino da manjedoura que se tornou o Cristo exortou: ninguém pode servir a dois senhores. Mas parece que no Natal tudo pode, assim como no carnaval. Estas duas festas possuem hoje muito mais pontos em comum do que imaginamos.

Até mesmo as igrejas cristãs, salvo as exceções da regra, entraram e competem comercialmente com a sociedade, amortizando a culpa através das indulgências modernas: exploração do dízimo, das ofertas e de mão de obra, chamando seus funcionários de “missionários”, que devem sofrer muito por Cristo e vender a placa da igreja com seu sangue. Ao final, escravizam ainda mais o crente usando artifícios que o marketing usa: a salvação, a prosperidade e a felicidade são alcançadas através de suaves prestações. Mas ninguém deseja prestar atenção nos juros embutidos nestes produtos, neste caso, uma teologia focada na grana do fiel e não no seu caráter.

Desta forma, assim como o Natal perdeu para Papai Noel, o Papai Noel de outrora também parece ter perdido sua força. O que nos resta? 

No Brasil imaginei o provável sucessor do Papai Noel: para simbolizar o Natal brasileiro, o Saci-Pererê com seu indefectível shorts e gorrinho vermelho, surrupiados do bom velhinho que se aposentou definitivamente após cumprir sua missão. E o Saci ainda tem um apelo, já que é um molequinho: pode também substituir o menino Jesus, já que ele não sai da manjedoura e se recusa a ocupar os corações dos homens o resto do ano.

Viva o Saci Noel!

Esta figura mítica é brincalhona, bem humorada e encarna bem o ideal do “eu sou brasileiro, não desisto nunca”. Afrodescendente e deficiente, saiu do anonimato para a história. Foi imortalizado por Monteiro Lobato. Conseguiu superar obstáculos com maestria e criatividade, encontrando seu espaço em um país onde importado é sinônimo de qualidade, mesmo que seja uma porcaria.


Porém, a grande marca de sua personalidade é seu espírito irreverente, sendo por muitos considerado o típico símbolo do “brasileiro malandro”, mais do que o importado (viu só?) José Carioca, o papagaio de olhos azuis que tipificou a malandragem.

O brasileiro é geralmente assim e cada dia parece reforçar o estereótipo: se tem muvuca em algum lugar, pode contar, lá estão eles (todos nós) no meio da fuzarca! Quem viaja para o exterior sabe, quando encontram em qualquer lugar representantes da pátria amada, idolatrada, salve, salve, fica fácil de identificar a nacionalidade dos brazucas. Nesses momentos, os antes desconhecidos se enturmam tornando-se íntimos de uma hora para outra, em meio a fortes abraços e beijos, como se a distância da pátria criasse vínculos mágicos.

O gringo que eventualmente está acompanhando alguém da turma pergunta, admirado, se são velhos amigos. E fica mais perplexo ainda quando ouve a resposta, não, nos conhecemos agora! Assim somos, como um grupo de araras que se encontra, fazendo a alegria de uns e a vergonha de outros, mais dados à empáfia anglo-saxônica.

O Saci é o brasileiro sem freios. Atazana a vida de peões no campo ou de velhas cozinheiras em seu dia a dia. Em casa, esconde utensílios, roupas, acessórios e ferramentas: cadê o martelo? Sumiu o par da meia? Foi o Saci, e ele sai correndo dando risadas. Sua carapuça vermelha é a fonte de seu poder mágico e dissimulação. Coisa difícil é pegar um Saci, mas o Tio Barnabé ensinou direitinho para o Pedrinho e Narizinho:

- Pega uma peneira cruzeta, daquelas que tem duas tiras mais grossas de palha cruzadas no fundo, espera um dia de vento e quando vir um redemoinho jogue a peneira em cima. O Saci ficará preso. Em seguida, coloca com cuidado uma garrafa escura debaixo da peneira e espera um minutinho, ele vai se esconder dentro da garrafa! Com cuidado, tire rapidamente a garrafa e fecha com uma rolha que tenha uma cruz riscada, que é para ele não sair. E, muito importante, tira o capuz do Saci! Sem a carapuça, ele perde seu poder.

Cruz na rolha, capuz escondido, ele fica sob controle. Mas alguma coisa acontece no final de ano. Saci é Saci e de alguma forma ele se livra da garrafa ou alguém deliberadamente solta o danado, que parece estar ocupar todos os espaços ao mesmo tempo! Lá vai ele, fazendo suas artes, enganando, aprontando e encarnando em muitas pessoas.

O espírito do natal foi substituído pelo espírito do Saci.

Ele vai fazendo todo mundo de bobo: ilude com a ideia de que “presentes simbolizam amor”, some com o dinheirinho extra do décimo terceiro salário (deveria ser usado para quitar ou amortizar dívidas?), engana devedores oferecendo mais crédito na praça, depois os credores que deram o crédito levam o calote, transforma o já difícil trânsito num inferno, gera sentimento de culpa por mais uma vez ter torrado o dinheiro, lota igrejas e teatros tropicais com espetáculos de inverno, irrita a não poder mais os pedestres com musiquinhas de natal, delen dendén, delen dendén, delen dendén, dendénnnnn.... insuportáveis harpas!

E o Saci continua suas peraltices, faz pessoas beberem além da conta, traveste cidadãos sisudos em ridículos papais-noéis bonachões de barrigas caídas, aumenta os preços e depois oferece descontos imperdíveis para tudo aquilo que na verdade ninguém realmente precisa, invade as cidades com decorações exageradas ou sem sentido, que se tornam símbolo de ostentação para muitos, faz as pessoas prometerem coisas que jamais cumprirão e tantas outras coisas que parece que o poder de sua carapuça não tem fim.

Em meio a tudo isso o verdadeiro espírito do Natal passa quase despercebido. É cada vez mais substituído pelo consumismo numa época que era para ser de reflexão e harmonia na intimidade do lar. Tornou, afinal, a data em um espetáculo circense, onde a lona desce sobre cidades inteiras tomadas pelo sentimento de consumo e desperdício.
Diante desta realidade, algumas coisas podem ser feitas. Começando com o maior apelo em nossa sociedade, o econômico:

Não se deixe levar pela pressão antes do natal. Poupe seu dinheiro, programe-se com a família para fazer suas compras depois do dia 25! Deseja comprar presentes? OK, sem problemas, mas pensa comigo: se o comércio entra em liquidação após o dia 25 de dezembro, com descontos muito bons, que tal comprar muito mais pelo custo que você teria se gastasse antes do natal? Faz sentido? E com uma vantagem muito boa: sem aquele tumulto todo nas ruas, shoppings, lojas. Aproveita para passear com a família gastando bem menos!

Mas temos outros bons motivos também.

Você pode começar a preparar algumas coisas feitas em casa, com sua família, nos dias que antecedem o natal. Biscoitos, bolos, rosquinhas, doces, artesanatos, são tantas as possibilidades que você vai se surpreender. E o melhor, vocês terão momentos que serão recordados por toda vida. Comecem uma tradição de mansinho, mas com firmeza!

Uma vez que o verdadeiro Natal não é apenas um dia (25 de dezembro), mas se estende até dia 06 de janeiro, vocês terão duas semanas para fazerem e viverem um Natal de paz, tranquilidade e reflexão. O Deus mercado e seus santos (inclusive muitas igrejas) nos empurram a data-limite de 25 de dezembro goela abaixo, para criar este sentimento de pressa, urgência, ansiedade, onde as pessoas, tomadas pelo espírito do Saci, deixam de pensar, abandonando o raciocínio crítico e se deixam levar por apelos bobos, agindo como loucas.

Resista, subverta a ordem das coisas: sobreviva ao caos, celebre o Natal!

E caso esteja sem ideia, comece pelo básico, como diria o amigo Cláudio: plante uma árvore.


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