Seguidores

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Duas toneladas


Duas toneladas

1.    Certa vez, um homem saiu a caminhar pela cidade. Caminhava cantando canções que aqueciam o coração e servindo o povo com alegria.  Proclamava um reino de paz e justiça e todos gostavam dele. Ele falava o que fazia e fazia o que falava.

2.    Enquanto caminhava, dois amigos passaram a seguir seus passos. Porém, estes amigos o seguiram com objetivos diferentes.

3.    Assim, para cada gesto de amor oferecido pelo homem, duas pessoas eram discriminadas por seus amigos. Para cada dinheiro doado, duas pessoas eram espoliadas. Para cada bênção ministrada, duas pessoas eram amaldiçoadas. Para cada palavra de consolo, duas ameaças eram feitas. Para cada flor plantada, duas eram pisadas. Para cada criança abraçada, duas eram abusadas. Para cada alma perdoada e acolhida, duas eram discriminadas e excluídas. Para cada mão estendida, duas pessoas eram empurradas para fora.

4.    Para cada gesto de paz e justiça, duas vezes mais ações de discórdia e exploração eram praticadas. Para cada quilo de alimento doado, dois quilos de lixo eram jogados nas ruas.

5.    No final de seu caminho, o homem olhou para trás e seu coração encheu-se de dor. De tudo que havia feito de bom, havia duas vezes mais problemas causados em seu nome. Tristemente reconheceu que sempre haveriam dois ladrões ao seu lado.

Conversava com um amigo sobre algumas atividades cristãs em Curitiba quando ele compartilhou uma informação acerca da “Marcha Para Jesus” de 2012. Animado, informou que uma tonelada de alimentos havia sido recolhida durante o evento. Porém, com certa tristeza no olhar, disse que ao final da marcha um pequeno grupo percorreu o trajeto feito e recolheu duas toneladas de lixo.

Fiquei perplexo. Não pude deixar de lembrar as palavras do Mestre Jesus: “muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”. Pensando no testemunho geral dos evangélicos na sociedade, uma frase irônica surgiu em minha mente: “muito lixo será espalhado, mas pouco recolhido”. Para cada notícia boa, existe o dobro (pelo menos) de escândalo na sociedade.

Sintomaticamente, percebemos que a capacidade de produção de lixo pelo povo evangélico tem sido muito maior que a sua capacidade de fazer coisas boas. Sei que isto não é exclusividade deste povo, mas nossa responsabilidade é diretamente proporcional aos valores que defendemos.

O lógico seria ao menos a marcha sem lixo; o ideal seria exatamente o contrário: a transformação do espaço público com boas obras, em vez de deixa-lo cada vez mais cheio de lixo. Mas como exigir lógica de líderes que apenas pensam na promoção pessoal e demonstração de força para uso político? Seus carros de som equivalem-se a altares a Mamon, sendo os pastores midiáticos seus profetas. A verdade é sacrificada em nome do relativismo gospel.

Certa vez escrevi um comentário sobre a “Marcha para Jesus”. Esta marcha tem sido um testemunho que fala mais da falsa comunhão cristã do que qualquer evidência de unidade. Aparentando união na diversidade, na verdade mostra exatamente o contrário: as múltiplas faces de igrejas dominadas por vaidades pessoais, onde cada novo líder pastoreia seu rebanho feudal.  Quem marcha promove o Jesus Gospel, o Jesus pop consumista, a teologia que prospera líderes e empobrece associados.

Jesus é o cabeça da igreja. Porém, numa metáfora mitológica, hoje esta cabeça está cheia de víboras que competem entre si, mordendo-se e envenenando umas às outras. A igreja institucionalizada tornou-se como Medusa, paralisando todos os que dela se aproximam. João Batista e Jesus bem qualificaram a liderança desta igreja, chamando-os de raça de víboras. Pelos seus frutos serão conhecidos, e não apenas por suas palavras.

O lixo deixado para trás é um exemplo constrangedor que põe o dedo na ferida do povo evangélico: suas palavras não têm sido confirmadas por sua conduta. O crescente sentimento de ira e indignação contra a liderança evangélica atual tem sido um indicador que aponta para a doença do povo evangélico. Esta ira não é por causa do conteúdo da mensagem, mas devido ao lixo espalhado diariamente pelo caminho.

Para piorar, em vez de olhar para si e suas instituições e fazerem uma autocrítica, a liderança usa a malandragem e capitaliza a indignação externa, empurrando a igreja numa cruzada medieval contra qualquer adversário. Mesmo execrados pela opinião pública aumentam dia a dia seu eleitorado, servindo-se da alienação e comodismo de quem elege terceiros para ser sua consciência.

Com típico comportamento sebastianista, líderes messiânicos posam como salvadores da igreja. Com declarações apocalípticas em nome da família, da ética e da moralidade desejam apenas aumentar seu domínio. Este discurso interno somente engana quem também é seduzido pela mesma vaidade: o poder.

Melhor seria se o povo de Deus ficasse em casa, em silêncio e oração, saindo apenas para testemunhar com atitudes a verdade que alega estar em seu coração. Se assim fosse, quando um evangélico assumisse qualquer cargo público seria celebrado com boas vindas e não repelido com tanta veemência devido ao rastro de lixo de seu passado.

A palavra do cristão contra seus opositores, conforme o Apóstolo Pedro exorta, deve ser feita com mansidão e amor: sem discursos irados, incitação ao ódio, à violência e a qualquer tipo de guerra santa. Se algum cristão sofrer, que não seja devido a serem assassinos, ladrões, criminosos, fofoqueiros e oportunistas – mas devido à prática da solidariedade em meio a uma geração perversa.

O desgaste de forças, energia e recursos para explicar que o verdadeiro Evangelho não deixa lixo por onde passa tem sido em vão. O lixo produzido se acumula dia a dia, demonstrando que nossa prática está totalmente equivocada e testemunhando muito mais alto que qualquer pregação ou discurso.

Para cada boa ação que os evangélicos fazem, duas vezes mais problemas eles mesmos causam, deixando a população confusa e sem esperança, além do mau cheiro no ar.

O enriquecimento ilícito através da lesiva teologia da prosperidade, os recursos investidos cada vez mais em estruturas e megatemplos, a indiferença social da maior parte da comunidade cristã, a exclusão dos diferentes, a corrupção e briga entre facções evangélicas, e tantas outras práticas, são indicadores do lixo que tem sido espalhado pelo caminho.

Se produzimos lixo é porque deixamos de lado nossa missão e nos tornamos discípulos de Belzebu, o Senhor das Moscas. As moscas vivem do lixo e em benefício próprio, se alimentando da morte.

A verdadeira igreja é desafiada não a produzir mais lixo, mas a fazer compostagem, fertilizando a sociedade. Jesus e seus discípulos são como as minhocas: sem perder sua integridade, transformam tudo que tocam em algo novo e orgânico, gerando substrato para novas formas de vida. A igreja é a comunidade de um povo que caminha em comunhão e celebra uma nova história.

Chega de lixo pelo caminho. Que a igreja deixe apenas os frutos do amor e da solidariedade  por onde passe.