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sexta-feira, 22 de março de 2013

Precisamos mudar a população e não os governantes


Precisamos mudar a população e não os governantes

Um dia acordei e percebi que se eu não fosse proativo em relação aos meus direitos e à promoção da justiça, ninguém seria. Então, parei de transferir responsabilidades. Desde então, tenho vivido uma luta, onde muitas vezes eu sou derrotado. Porém, persevero no caminho pois sei que é o verdadeiro.

Inundado por literatura desde a minha infância, gosto em especial das histórias de pessoas que contribuíram para a transformação de realidades aparentemente impossíveis de serem mudadas. Viajando pelo Brasil e exterior, e já tendo morado fora, sou adepto do turismo alternativo e sempre procuro sair das trilhas batidas pelos consumidores de bugigangas. Claro, depois de comprar mais meia dúzia de ofertas imperdíveis. Nas viagens, o que mais gosto é de encontrar pessoas e conversar.

E a conversa acaba girando em torno de minha cidade ou do Brasil. Quando eu vejo alguma coisa boa sendo feita, sempre pergunto: como vocês conquistaram isso? Independente da cultura, a resposta é a mesma: a gente batalhou para isso acontecer. Até hoje ninguém me respondeu: “foi o governo que nos deu.”

Esses dias estava numa palestra com um amigo suíço. Conversávamos sobre reciclagem, e ele informou que na Suíça você deve levar seu lixo aos pontos de coleta – o caminhão não passa e para na frente de sua casa. Em vários pontos da cidade, em praças ou calçadas, existem pontos de coleta para vidro, papel, metal, lixo orgânico e assim por diante. As lixeiras têm o formato de uma pequena cabine acessível ao público, conectando abaixo com uma grande caixa subterrânea. De tempos em tempos vem um caminhão, levanta todo conjunto, despeja dentro da caçamba específica e repõe no lugar a unidade coletora.

Uma senhora que estava conosco perguntou: mas as pessoas colocam o lixo certinho cada um na sua cabine coletora? Será que em casa eles não enfiam tudo dentro de um mesmo saco e jogam em qualquer uma das cabines? Ele olhou pra ela com cara de "em que planeta você vive?"


Então o amigo rapidamente lembrou-se que a pergunta fazia sentido, aqui no Brasil: mesmo em locais onde existe a coleta, as pessoas jogam lixo em todo lugar e de qualquer forma, nas ruas, calçadas, rios, praças, tudo junto e misturado. Na Suíça, o cidadão sabe o que tem que ser feito e simplesmente faz. Claro, sempre tem a turma idiota de sempre, que não respeita nada, mas são uma minoria reduzidíssima. No Brasil, as pessoas sabem o que tem que ser feito e simplesmente não fazem, e ainda culpam o governo por qualquer coisa. É claro, sempre tem a turminha consciente de sempre que faz o que precisa ser feito. No mais, êta povinho besta.

Observamos na prática que não é o governo que muda a realidade ou concede direitos a ninguém: as pessoas lutam, conquistam seus direitos, passam a se comportar de forma diferente. Então o governo estabelece leis e cria mecanismos para serem cumpridos. Mesmo com muitas falhas e negligências, as coisas vão se encaixando. O número de leis de um país é diretamente proporcional à inconsciência e à falta de cidadania pessoal.

Por isso, vale lutar pelo que é certo e sair do lugar comum da militância eletrônica via mídias sociais, particularmente pelo facebook. Essa mídia tem sido palco para muitos ativistas de poltrona que, na prática, perpetuam os esquemas e fazem bobagens Brasil afora, mas posando de articulados e espertos diante de sua ‘comunidade’!

Já denunciei os larápios de brigadeiros do supermercado, ou a gurizada que cola na escola sob o olhar complacente de seus pais que acham os filhos “exxpertinhos”, ou ainda pessoas que jogam cigarros pela janela do carro e que andam pelo acostamento nos congestionamentos. Tem ainda o grupo mais miserável, que ocupam vagas de deficientes e idosos, e por aí vai.

Duas situações recentes mostram que caminho resolvi percorrer é possível, desde que saiamos da inércia ou da preguiça.

No Banco do Brasil, aguardava minha vez após vencer a tentação e pegar aquela senha que te coloca no fim de qualquer fila: não sou idoso, não estou grávido, não sou cliente, não preciso por qualquer motivo de atendimento preferencial. Sentei-me, pois ainda havia ainda lugar vago na dança das cadeiras e saquei o livro que sempre levo para enfrentar esses momentos zen: “Será Que É Possível?”, de Sergio Chaia. Acho legal ver algumas senhoras que em qualquer outro contexto ficariam ofendidas se fossem chamadas de ‘idosas’, mas para enfrentar filas de banco ou no supermercado, acham o máximo! Depois de muitos “Tóins” sonoros indicando os sorteados, vimos uma moça sendo chamada. Olhamos para ela e imediatamente todos olharam novamente para o monitor: ‘Senha P-XXX’, de ‘Preferencial’. Pois bem, lá vai a moça, usando a camiseta da irmã mais nova, barriguinha sarada, calças justas, desfilando para o atendimento.


Não apenas eu, mas todos notaram com indignação que havia algo de estranho. Começou a murmuração de sempre, onde já se viu, deve estar de caso com o gerente, e por aí vai. Olhei para a pessoa ao meu lado e perguntei: você vai fazer alguma coisa? Como não ia, nem ninguém, levantei-me e fui lá no caixa. Perguntei gentilmente (sério) para a moça: você pegou que tipo de senha?

Então, a atendente do banco me olhou, os demais atendentes também olharam, as pessoas que estavam sendo atendidas olharam para a moça, e de repente ela se tornou o centro das atenções. A funcionária no caixa deu uma levantadinha nos pés, inspecionou a donzela e disparou: você está grávida? Ela respondeu, acho que peguei a “senha errada”.

Voltei para meu lugar e disse para as pessoas que a menina “havia se equivocado.” Tsc, tsc, tsc, não acredito, que cara de pau, e os comentários continuaram. Poucos segundos depois, lá vem a moça, dirigindo-se para a saída. Em seu desfile, recebeu uma vaia a meio tom da plateia, além de outros comentários graciosos. Ela saiu, foi lá na maquininha seletora maldita, pegou outra senha e sentou superfocada em seu celular, digitando talvez algo como vergonha-vergonha-vergonha!

Numa outra situação, depois de almoçar com os amigos, ao pagar a conta observei que a atendente acrescentou três centavos no débito do cartão: a conta era R$18,87 e ela debitou R$18,90. O engraçado é que na nota fiscal o valor estava correto. Porém, a segunda via do cartão indicava a diferença a mais. Perguntei porque ela teria feito isso, e ela surpresa com minha pergunta, disse espantada, “pra arredondar”!

Como a funcionária nem pensou em dar o troco pela sua ‘distração’, comentei com os amigos o fato. Sempre almoçamos juntos às quintas-feiras, apesar das esposas acharem que a gente sai pra fazer alguma coisa a mais. Pura maldade. Então um deles me disse: “isso já aconteceu comigo aqui também, com a mesma operadora”! Eu perguntei o que ele havia feito, nada, respondeu, foram só uns centavinhos...

Depois, matutei: isso não está certo. Achei o site do restaurante, somos clientes há muito tempo. Gentilmente (é sempre importante ser gentil antes de, caso perdido, mandar a pessoa pra PQP - ok, desculpe por essa, mas a rima pareceu iresistível!), escrevi um email ao famoso “fale Conosco” anônimo. No email disse estar surpreso e estranhei a atitude da funcionária, perguntando se eles agiam assim por norma, distração ou algum outro motivo. Questionei sim a possibilidade de os arredondamentos serem fraudulentos. Coloquei meu nome e telefone no final.

Como eles são uma rede, a primeira surpresa foi a pronta resposta. A Ana me disse que isso era um lamentável engano e que tomaria as medidas necessárias para que este evento não se repetisse no futuro. Disse também que eu seria procurado pela gerente da loja quando retornasse na próxima oportunidade.

Como de hábito, retornei com os amigos dias depois. Para minha surpresa a gerente local sabia quem éramos e me aguardava. Ela disse que conversaria comigo depois, que eu almoçasse tranquilo com os amigos. Almoçamos, e ainda fui surpreendido com um beijinho gostoso de minha sobrinha, que estava ali também com minha irmã. Conversamos um pouco, rimos bastante como sempre, atualizando as piadas da semana e saímos.

Quando estava na fila para pagar, a Gerente Simone me chamou. Junto a ela estava uma constrangida funcionária. Ela pediu desculpas mais uma vez, explicou brevemente a política da empresa e passou a bola para a funcionária, que também pediu desculpas. Sorrindo, perguntei pra Simone se ela devolveria meus três centavos, ela disse que não. Mas se eu topasse, o almoço desta vez seria por conta da casa! Com cara de ‘meme’ emocionado, agradecido, aceitei a compensação.


Encaminhei um novo email à empresa, desta vez agradecendo o almoço e a rapidez com que reconheceram a falta, esclareceram e resolveram a situação. Em tempo: a funcionária não foi demitida, e dei a ela algumas dicas sobre sua responsabilidade como cidadã.

Estas histórias servem para lembrar que ações cidadãs exigem mais do que manifestações de apoio e indignações eletrônicas. Elas não são ruins, mas questiono sua validade em termos de transformação social. Eu entendo que não fiz nada de mais, apenas o que deveria ser feito por qualquer pessoa.

As pessoas são viciadas em desonestidade, e seu desvio de caráter é geralmente denunciado nas pequenas atitudes e nas omissões em geral. Usar de malandragem com a senha eletrônica, “arredondar” contas e trocos de poucos centavos, usar o acostamento em congestionamentos, dar e aceitar propinas, jogar qualquer tipo de lixo nas ruas, qual é a diferença? Nenhuma! Mas cinicamente as pessoas adotam a cultura do “já que todos fazem mesmo, então se eu fizer de vez em quando não tem problema algum.” Mas o problema não é porque tem gente que faz estas malandragens. O grande problema é por conta da população, a maioria, que deixa pra lá.

O comportamento cordial do brasileiro é um inferno. Ele se passa por bonzinho, mas é também um grande omisso. Não luta pelos seus direitos básicos, pois não deseja incomodar ninguém ou não quer correr o risco de passar vergonha e ficar mal com os amigos.

O governo é representado estatisticamente pela média da população. Por isso percebemos que enquanto não mudarmos a população – e não os governantes – o cenário não mudará. A grande onda de indignação contra corruptos e estelionatários nos postos de governo é apenas fumaça. O fogo queima mais embaixo.

As instituições religiosas, que deveriam contribuir para a mudança de atitude da população, são pouco eficientes. Notamos que a grande maioria das igrejas cristãs (católicas e protestantes de todas as facções), que comportam mais de 85% da população brasileira, arrecadam e investem milhões para fazerem propaganda de si mesmas, ensino de usos, costumes, doutrinas e valores espirituais. Porém, os resultados estão aí: nunca estiveram tão altos os índices de corrupção e de omissão da população. As instituições religiosas não conseguem estabelecer uma práxis eficiente, no sentido de promover uma atividade humana social e material concreta, levando à transformação da realidade. Como o conteúdo da fé continua sendo válido, os resultados demonstram que a prática eclesiástica, sem exceções, está completamente equivocada.

Desta forma, não adianta cobrar do governo e tampouco das igrejas. Como instituições, estão fadadas a reproduzir seu meio, apenas isso. Resta uma alternativa.

A proposta é que você, eu e mais alguém, faça o que é certo simplesmente por ser certo, nada mais, apenas isso. Não faça, ou deixe de fazer, porque receberá uma recompensa ou uma multa. Revolucionariamente mude de atitude, mesmo que não veja mudanças à sua volta. Respeite, exija seus direitos, seja honesto. Faça uma revolução silenciosa dentro de você mesmo. Mesmo se cair, levante e continue a perseverar.

Você crê em Deus? Então seja coerente com sua fé e reproduza no chão que você pisa a sua espiritualidade. Esqueça o lar celestial, o céu e o inferno. Seja a pessoa que Deus chamou você para ser, viva os princípios que você defende com coragem, sem ser arrogante.

Você não crê em Deus? Então acredite em você mesmo, acredite em sua humanidade. Tome posse de valores universais como o amor, a compaixão, a misericórdia e a honestidade. Internalize-os, seja também coerente, pois o resultado de suas ações será o habitat para a vida no futuro.

Não existem coisas pequenas, sem importância. Tudo é uma questão de perspectiva. Centavos são importantes, pois somados serão milhões. Cada ser humano é importante, pois somados somos milhões.

Acima de todas s coisas, não culpe ninguém, nem o governo, nem a igreja, nem a sociedade. Você é o governo, a igreja e a sociedade. Você é maior do que todos, pois é você quem faz as coisas serem do jeito que são. Você pode ser o protagonista da maior revolução de todos os tempos, a da sua própria vida!

Na próxima oportunidade, diante da urna, diante do padre, diante do pastor, diante de qualquer pessoa ou situação que você perceber errada, seja apenas você mesmo: transforme.

Um dia, nos encontraremos e seremos maioria!


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