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terça-feira, 12 de março de 2013

Cuba libre!



Cuba libre!
“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte da humanidade; por isso, nunca busque saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. Por Quem Os Sinos Dobram / E. H.

I
Cuba Libre é uma bebida, mas também pode ser um texto cheio de duplo sentido. Desta forma, leia com moderação.

Era uma vez uma cidadã cubana que visitou o Brasil, representando legitimamente o que cuba tem de melhor e de pior, como cada um de nós quando sai por aí dando suas voltas turísticas, deixando rastros nem sempre louváveis de nossa passagem.

Pois bem, nem bem a moça desembarcou e choveram manifestações de apoio ou repúdio, conforme agendas ocultas ou escancaradas de terceiros. É impressionante, eu não sabia, como existem especialistas em Cuba que conhecem na intimidade a ilha e seus habitantes. De forma particular, fiquei envaidecido como esses legítimos brasileiros conhecem mais de outro país que o seu próprio, numa capacidade de assimilação amorosa impressionante!

E os comentários? “-ela é marionete de ....” Tive que rir da infelicidade deste povo. Coitados dos cubanos, são todos marionetes! A marionete, todos sabem, são fantoches que se movimentam através de cordinhas conduzidas por mãos terceirizadas. Nada disso acontece no Brasil, que tem o regime democrático mais eficiente, transparente e honesto do mundo. Nosso povo é crítico e apenas elege gente de bem. Ninguém se deixa manipular. Somos muito inteligentes e logo percebemos quando os outros são manipulados.

É natural que em Cuba existam pessoas que aceitam passivamente o regime. É também natural que existam pessoas que o aceitem e o defenda apaixonadamente. Por outro lado, é natural que existam pessoas que detestem o regime, mas se adaptaram a ele, tocando suas vidas da melhor forma possível, esperando que um dia a realidade mude por si só. E tem aqueles que não aceitam o que está acontecendo, se posicionam e tentam dizer por que pensam diferentemente, correndo os riscos inerentes a quem tem opinião própria.

Também acontece que pessoas que não vivem a realidade cubana achem que entendem mais daquela nação caribenha do que qualquer um de seus cidadãos. E elas possuem um motivo para isso: visitaram Cuba uma ou algumas vezes, leram muito seletivamente o que outras pessoas escreveram e descobriram no globo que Cuba está no Caribe. Pronto: formaram-se doutores em Cuba com uma profunda perspectiva histórica de 60 minutos. OK, isso acontece, mas é mais uma paspalhice humana! Porém, fazer o que, o mundo também é dos patetas. E eles estão bem instalados em ambos os lados desse debate: à esquerda e à direita, a insensatez não escolhe partido, é um fenômeno universal.

Particularmente, com minha bebida em mãos, brindo tanto ao fervoroso revolucionário quanto ao seu mais ferrenho opositor. Respeito-os, pois eles vivem na própria pele suas convicções. Se estiverem certos ou errados, se são lúcidos ou míopes, será apenas minha avaliação distante, mesmo sendo apaixonada. São conclusões decorrentes de minha perspectiva, de meus condicionamentos históricos, de minha aprendizagem e de minha zona de conforto. Vejo-me afastado da arena real do conflito.

Creio que tanto defensores como opositores ao Regime possuem motivos, boas explicações e teses para serem o que são e afirmarem o que afirmam. Eles possuem a autoridade de quem responde diretamente por suas declarações, colocando seu pescoço e o de sua família à mercê dos carrascos de plantão. Por isso, mesmo discordando por algum motivo, respeito sua história e defendo o direito de se manifestarem. Ao argumentar, devo também me abrir à possibilidade de mudança. Mas quando entro numa guerra, apenas a vitória me interessa.

O que é difícil de aceitar são posicionamentos do tipo “este lado está totalmente errado e o meu lado está totalmente certo”, numa guerra de palavras de ordem e clichês. Isto é peculiar de arrogantes neuróticos, belicosos microditadores e suas marionetes. Típico de quem não consegue viver sabendo que também há inteligência, razão e coisas muito boas do outro lado da questão. Em outras palavras, existe vida, somos irmãos mesmo pensando distintamente. As generalizações são sempre burras e estão a serviço de forças marionetantes de sempre.

II
No final do ano passado assisti a um filme sobre a vida de Ernest Hemingway, mostrando um pouco da história deste Nobel de Literatura e suas lutas – literalmente – pessoais e ideológicas. Ele, norte americano, com alguma consciência política, mente brilhante com uma aguçada percepção social, batalhou durante sua vida pela coerência. Escreveu muito sobre suas lutas internas e externas, tornando-se ao mesmo tempo autor e personagem da maioria de suas histórias.

Li dois de seus livros: “O Velho e o Mar” e “Ilhas da Corrente”, assistindo posteriormente seus respectivos filmes. Assisti ainda ao clássico filme baseado em uma de suas obras mais famosas, “Por Quem os Sinos Dobram”, de 1943. A cena de Gary Cooper e Ingrid Bergman no saco de dormir, enquanto a guerra civil espanhola se desenrolava, deu o que falar e teve que ser refeita: as primeiras tomadas foram consideradas “muito realísticas” para os padrões da época. Sempre há lugar para a paixão em meio às crises: ela nos ajuda a manter a humanidade em meio ao caos.

Sempre fui fascinado pelas complexas relações humanas, as pessoas e seus conflitos existenciais, suas lutas internas sendo levadas ao campo de batalha externo. O ser humano é tão ambíguo como as voltas e reviravoltas de antigos aliados transformados em inimigos e vice-versa, defendendo causas de terceiros. Ao longo da história as teses e antíteses ideológicas são transformadas em sínteses campais com muito sangue derramado. O vencedor tem sempre razão, e ao perdedor resta o banimento, o ostracismo, o pardão ou a exploração econômica. Depois, geralmente muito tempo depois, a percepção de que nada vale quando o sangue derramado entre irmãos mancha o campo que produz o mesmo pão para todos. A morte de qualquer homem nos diminui.

Se as pessoas refletissem um pouco mais elas não iriam à guerra e não elegeriam líderes e ditadores que as promovem, arrastando multidões para a morte em nome de seus sonhos megalomaníacos e “sacadas” históricas. Talvez até não elegessem ninguém: se autogovernariam em coletividades autônomas e cooperativas entre si, mas isso é outra história, uma utopia de malucos fraternos. A autonomia exige educação crítica e isso nunca foi estratégico para líderes personalistas, promotores de guerras e revoluções.

Hemingway me seduziu com sua própria história: suas venturas e desventuras pessoais, sua busca de sentido para todas as coisas e a vida cheia de viagens, belas praias, revoluções, livros, mulheres e rum. Estes elementos, combinados em excesso entre si, tendem a gerar reações explosivas, como ficou demonstrado ao longo de sua vida. Não apenas ele, mas este tipo de pessoa me fascina por buscarem, cada uma à sua maneira, entender o homem em meio a todas as suas contradições e ter a coragem para viver suas próprias ambiguidades, muitas vezes mudando de posição conforme constrói seu conhecimento. No final, é a coragem para mudar que me empolga nas pessoas.

Mesmo levando uma vida errante, elas anseiam pela coerência. A busca é a marca viva para sua existência. Os grandes e corajosos exploradores, inconformados com seu tempo e seu mundo viviam com esta paixão dentro de si. Infelizmente, Hemingway resolveu meter uma bala em sua cabeça, deixando a vida para entrar na história. Será que ele soube de Getúlio?

III
Voltando: ‘cuba libre’, além de uma expressão revolucionária, é a combinação paradoxal do melhor rum do mundo (o caribenho socialista) com a pior bebida da humanidade, a Coca-Cola capitalista norte-americana, pelo que ela representa para a saúde em geral. Uma infinidade de combinações a partir de ambas é possível, com diversos outros elementos como limão, gelo, sucos, diferentes frutas. Não há limites, desde que você seja criativo e corra os riscos. Cada um tempera sua cuba conforme desejar, apesar de existir um dosador universal para essas coisas.

O melhor do mundo pode estar nesta interface improvável, mas possível: um copo de socialismo com capitalismo, com limão e gelo! OK, talvez isso seja um exagero, mas reforça a metáfora: quem determinou que o mundo tenha que ser dividido entre “esquerda” e “direita”, ou que determinados anseios são legitimados apenas se condicionados ideológica e politicamente? Estes conceitos surgiram e foram historicamente plantados, servindo apenas para depois provocar divisões, caudilhos e guerras e um bando de chatos. Ideias devem ser consideradas como patrimônio histórico da humanidade, validadas pelo princípio maior da convivência pacífica e justa entre as pessoas.

Qual é o lado mais importante do cérebro? Devemos reaprender a ver a organicidade do pensamento e sua estreita correlação com o corpo humanitário.

Uma boa bebida favorece a diversão entre amigos e gera boas conversas. Mas em altas doses também serve para transformar qualquer idiota em uma mente brilhante, provocando aqueles intermináveis debates de final de festa, olhar taciturno, sobrancelhas franzidas, ares de sabedoria e bafo de onça: o bêbado chato. São os embriagados ideológicos e seus discursos intermináveis. O rum tira-lhes a autocrítica, a Coca os faz arrotar arrogância.

Não se sabe ao certo em que proporção a Coca e o rum misturados geram revoluções, porém ambas têm servido para muita discussão, rompantes de falsa sabedoria, declarações ‘finais’ sobre qualquer assunto a partir de fontes “confiáveis”, e tudo isso em meio a clichês de efeito. Como estratégia final, o chato-convicto sobe o tom de voz e, na medida em que faltam os argumentos, começa o ataque pessoal. Faz acusações que ninguém pode provar mas servem para desmoralizar. Bêbados narcisistas, sem autocrítica e embriagados pela presunção.

Em 1898, no processo da independência cubana da Espanha, os revolucionários insulares encontraram nos norte americanos um forte aliado. Sem eles, Cuba não alcançaria tão cedo sua autonomia. Porém, os USA tinham interesses específicos para tirar os espanhóis de cena na região. Cuba passou a ser tratada como uma sesmaria açucareira, com a visão capitalista mercantilista, baseada em latifúndios e mão de obra praticamente escrava. A ironia é que com isso as sementes da revolução por vir vieram da América do Norte.

Os cubanos continuaram pensando: de que adianta trocar uma dominação por outra? A ansiedade cresceu até transbordar na revolução: em 1959 o povo alcançou uma alternativa popular de governo depois de séculos de dominação. Saiu a espanha, saiu Fulgêncio, entrou Fidel. Saiu Kennedy e entrou Nikita Kruschev, no xadrez ideológico da segunda metade do século XX. Bispos e peões de cada lado continuaram servindo aos interesses dos respectivos novos reis, sempre os primeiros a serem sacrificados.

Confirmada a revolução, os americanos ficaram na maior ressaca. Engoliram goela abaixo galões e galões de rum, como perus na semana de ações de graça. Ressentidos e posando de vítimas, mas sem força moral, passaram a fazer a chantagem favorita do capitalismo: garrotearam comercialmente o povo cubano, criando e desenvolvendo criativas formas de bloqueio. Os Estados Unidos comportaram-se como um marido bêbado traído.  Por não poder se vingar diretamente da mulher, cortou sua doce pensão (compra do açúcar cubano) e passou a persegui-la, tentando-a fazer desistir de seu amante e abandonando a família à sua própria sorte.

Só que o amante era abastado e bancou a família cubana, mostrando sua virilidade na forma de mísseis eretos contra o capitalismo pragmático, que viu mais prejuízo que ganho em um eventual conflito armado. O sistema sempre dá um jeito de salvar sua pele.

Hemingway resolveu doar sua casa na ilha para o governo revolucionário, que foi transformada em museu em sua homenagem. Afinal, ele morou cerca de vinte anos em Cuba, numa relação de amor e ódio típica de amantes, dando notoriedade ao seu povo e seu rum, mesmo agora sem Coca-cola.

Junto com a Coreia do Norte, Cuba é o único país do mundo que não vende o famoso “capitalismo engarrafado!” É claro, isto oficialmente: no mercado negro ela é encontrada, após as devidas vênias propinais, sendo também tolerada em ambientes turísticos.

Curiosamente, em 1906 Cuba foi o segundo país do mundo a engarrafar a Coca-Cola fora do território americano, depois do Canadá. A revolução tirou a Coca de Cuba, mas não conseguiu tirar a Coca dos Cubanos: afinal, uma doce lembrança do capitalismo e sua liberdade de expressão com muito gelo ainda restava. Ademais, como continuar a tomar cuba livre sem a Coca?

Para evitar uma revolução dentro da revolução, liderada por consumidores em crise de abstinência, o partidão espertamente tratou de fabricar sua ‘Cola’, surgindo a “Tu-Kola” cubana. É uma bebida que possui a cor, embalagem e logo muito parecidas com a americana. Foi o jeitinho de manter a cuba livre.

Mas o melhor, intencionalmente ou não – acho que sim, afinal, todo revolucionário estuda muito – foi o duplo sentido do nome da Coca cubana, capaz de deixar qualquer turista maluco e o nativo com um sorrisinho sacana na boca. Foneticamente, “Tu-Kola”, soa literalmente, como “Teu-Rabo” (tu cola), ou então, “Tua-Fila” (muito apropriado, no Brasil também), ou, com certa liberdade, “Tua-bunda”!

IV
O bloqueio econômico à ilha imposto pelos Estados Unidos desde 1962 é uma das coisas mais anacrônicas e estúpidas feitas. Fica pior ainda com a mudança da conjuntura política mundial após a queda do Muro de Berlim em 1989, sinalizando o final da Guerra Fria. Atualmente, com exceção dos Estados Unidos, de Israel, das Ilhas Marshal e de Palau, existe uma resolução formal das Nações Unidas pelo fim do embargo, repetida já mais de 16 vezes. Na verdade, I. Marshal e Palau nem contam, pois são ilhas sob o protetorado dos EUA.

Os demais países, incluindo o Brasil de todos os governos, aceitam o embargo sem tomar medidas práticas. Não fazem isso por covardia comercial e por excesso de Coca-Cola em sua cuba livre. Diplomaticamente, nosso atual governo adotou uma postura pragmática relacionada ao comércio exterior e segue a cartilha dos USA, conforme disse o ex-presidente Lula: “se é bom para os americanos, deve ser bom para os brasileiros.”[1] Ele defendeu o direito do Governo brasileiro de também abocanhar o mercado chinês, independente do que ocorra internamente naquele país em termos de Direitos Humanos e democráticos.

Por que se pode fazer comércio com a China, mas não com Cuba? As explicações não possuem nenhuma lógica, nem na história, nem em lugar algum, a não ser, é claro, a lógica norte americana. A Águia pode estar depenada mas ainda voa.

Enquanto isso, a disputa boba entre esquerda e direita faz parecer que ainda existam estas facções no cenário político dominado pela economia de mercado globalizada. Partidos e militantes defendem pontos de vista anacrônicos com comportamentos estereotipados que remetem mais a torcidas organizas e seus cânticos de guerra. Fundamentos históricos ou  fatos são relativizados por opiniões casuísticas.

O que tem se nota, infelizmente, é a prática da intolerância-clichê: “sempre gostei de rum, não quero Coca-Cola”. Ou, “prefiro Coca e acho que tomadores de rum são bêbados.”

V
Percebemos e-militantes do twitter e do facebook muito rápidos para apoiar ou condenar muitas coisas, mas incapazes de mudar de comportamento e gerar em si mesmos a mudança que desejam. Basta conferir os indicadores sociais e comportamentais do brasileiro para perceber que a saúde cidadã de um povo anda na UTI. Estas pessoas, em geral, são adeptas das passeatas-de-poltrona, mas não estão dispostos a levar “Tu-Kola” para as ruas, para o trânsito, para as escolas e universidades. Pior: posam de intelectuais, mas, vivem do sistema. Condenam aquela moça cubana, apoiam a moça cubana, mas continuam fazendo as mesmas coisas.

Os capitalistas-socialistas, ou vice-versa, passam rapidamente do discuros social ao consumismo irracional. Continuam indiferentes às questões estruturais do país. Existe muito mais paixão e achismo pseudo-intelectual do que luz em toda essa conversa sobre a Yoani Sánchez cubana, seja de que lado for. Cada posição deseja apenas fortalecer sua trincheira ideológica.

O fato é que existem muito mais pessoas viciadas na Coca-cola capitalista do que no rum socialista, apesar dos males evidentes. Sei também que um copo de Coca é muito pior para a saúde do que a mesma quantidade de rum. Falei da saúde, não de trânsito – ou seja, conforme o contexto, evite um, outro, ou ambos. Educação crítica serve para discernir as dosagens conforme o contexto.

Mas pensar com crítica exige análise, flexibilidade e sabedoria. Temos excesso de serviços de inteligência, mas carecemos desesperadamente de sabedoria.

Um amigo da esquerda ultravioleta chama, com ares de seriedade, a Coca-cola de “o líquido negro do capitalismo”. Outro, mais radical ainda, já batizou o xaropão de “cloaca-cola”, sempre fazendo mais um ou dois comentários adicionais que é melhor deixar pra lá. Como qualquer bebida, você pode tomar até cair ou apenas saborear. É preciso saber discernir os mais de 50 tons de cinza no espectro cromático-ideológico da mistura da Coca com o Rum.

A mistura entre os dois ingredientes deve ser equilibrada até onde for possível – afinal, o rum cubano aliena aqueles que dele abusam, chegando a relatos de coma alcoólica que já dura mais de 50 anos, quando era ainda produzido em destilarias escondidas na Sierra Madre. Já o abuso da Coca torna as pessoas gordas, indolentes, insensíveis, mesmo entre os mais devotos religiosos. Em ambos os casos, o próximo é esquecido e abandonado em suas necessidades.

As pessoas rapidamente esquecem que viver debaixo de um sistema político, seja de esquerda ou de direita, significa submissão às suas formas de controle, de manipulação e de opressão: a alienação pelo discurso sem resultados práticos ou a insensibilidade e apatia decorrentes do conforto consumista que satisfaz os pecados da carne. Em ambos, a resistência crítica e o desejo de liberdade do sistema acarretam em opressão pela “reeducação” forçada, o pau de arara, o paredão real ou midiático, a prisão político-pedagógica, ou simplesmente a falência, a morte sumária, a infâmia diante dos seus.

Para a monoteísta esquerda, Deus existe na forma do culto personalista para o “pai” ou “grande líder”, ou ainda, como “chefe supremo” do povo. Sua ideo-teologia é a adoração cega, repleta de símbolos e relíquias espalhadas pela cidade e dentro de palácios. Qualquer desvio de culto fora do livrinho vermelho é considerado apostasia, passível de “autocrítica”, ostracismo ou apedrejamento público. O Socialismo é seu único Deus e o Estado é seu profeta. Não há salvação fora do partidão, que é dirigido por profetas mosaicamente incumbidos da libertação do povo, que vive enganado na terra da servidão cocacolonense.

O poder é mantido na litúrgica burocracia estatal. A coesão dos cidadãos é pela força do patrulhamento ideológico. As bênçãos e as graças são concedidas na forma de cargos aos devotos mais fieis. O povo vive às custas das grandes realizações do grande Pai-estado, a quem sacrifica seu livre pensar. Todos são iguais, cada um na sua categoria de igualdade. Os líderes são mais iguais dentre os iguais e regulam os pecados alheios perdoando os próprios desvios em nome da sua idéia de ordem e do progresso.

No socialismo-comunismo as igrejas não existem oficialmente, ou funcionam modestamente sob controle do estado, que é intolerante com outras formas de culto. Sua fé é subversiva e cada crente é um ministro e cada casa é uma igreja, sem necessidade de mediadores. O carisma, ou a graça, é a marca de serviço uns aos outros.

No Capitalismo Politeísta, os deuses tornam as coisas um pouco mais complexas. A ideologia é a do individualismo, o self-made-man. O mítico “Homem de Malboro” representa o missionário heroico que conquistou sozinho a tribo inteira. A pessoa é o que ela tem, e a liturgia capitalista inclui solenidade com o sacrifício estoico do tempo, da família, dos amigos e da saúde aos deuses do Mercado. O ideal de vida é a fama, a prosperidade e a fortuna. O sucesso é medido pela quantidade de sexo, dinheiro e poder. O trabalho e a terra não são do homem, mas produtos de mercado: o mercado paga quanto?

O Dolar é o seu Deus e o Mercado é seu profeta: in god we trust! Não há salvação fora do capital. O profeta mercado, em sua missão de libertação do povo da pobreza, governa, escravisa e distribui bênçãos na forma de fidelização do cliente e prêmios. A liberdade é para todos que possuem dinheiro. Pequenos deuses são adorados e estão distribuídos em casas de habitantes orgulhosos por mostrarem suas últimas ultramodernas aquisições.

Pensamentos discordantes existem apenas se ficarem também no mundo das ideias. Os  exagerados e iludidos que ousam dizer que um pouco de rum pode fazer bem à saúde são prontamente rechaçados, ridicularizados, perdem seus direitos e são suicidados ou mortos “acidentalmente”. Fruto da culpa institucionalizada, foi criada a ‘responsabilidade social’, que é um setor na sociedade que cumpre a função de aliviar consciências culpadas pelo resultado óbvio das operações financeiras e consumismo: a miséria e a pobreza. Mas quando entra um pouco de rum a mais na cuba livre, o estado trata de distribuir bolsas de tosos os tipos, enquanto o povo gostaria mesmo é de ter dinheiro para colocar nas bolsas.

As igrejas capitalistas são toleradas e mantêm seus ritos exploratórios acendendo incensos a Mamon atrás dos altares a Jesus. Mamon é como o Deus Dólar era conhecido nos tempos bíblicos. Ao associarem culpa ao dinheiro, as confissões arrecadam usando estratégias comerciais de primeira linha, adaptadas ao seu público alvo e seu nicho de mercado, em troca de produtos bem elaborados. Literalmente, algumas usam um eficiente marketing infernal.

O discurso de prosperidade de umas não é diferente do discurso de piedade de outras, já que se movem pelo mesmo objetivo final. A voz suave, a luz de velas, o gospel light e o culto com decência e ordem servem para manter estruturas cada vez maiores e feudos denominacionais que de vez em quando entram em guerra pelo espaço e pelas almas dos aldeões. Templos milionários e teólogos bem formados justificam a teologia de mercado. É a lógica do capital: a ostentação é sinal de poder e sucesso da denominação-empresa.

Já que no final é a grana que importa, o jogo de sedução é mais gostoso que o estupro sem preliminares para fiéis cada vez mais acostumados às bacanais, verdadeiras orgias de arrecadação dominical.

VI
Por algum motivo misterioso o tropicalista Caetano resolveu que a vida era mais Alegria, Alegria, ao cantar “Eu tomo uma Coca-Cola, ela pensa em casamento”, em 1967. Tomar Coca caiu de vez no gosto da juventude e mesmo Fidel devia tomar uns goles brindando a cada deserção do exército de Fulgêncio durante a luta revolucionária.

O que pode ser diferente, daqui pra frente, minha gente, é repensarmos nossas “clássicas” posições, entendendo que, afinal de contas, o discurso sectário serve apenas para alimentar o sistema segregacionista das ideologias de sempre. E como já disse o profeta Capitão Nascimento, o sistema é phoda!

Tanto o rum como a Coca partem da mesma matriz, a cana de açúcar. O rum é feito do melado cozido e fermentado da cana. Já a cachaça é feita com o “caldo de cana” fresco, a garapa, que vai para o alambique sem passar pelo fase do melaço cozido. E o açúcar segue seu próprio caminho. No final todos se encontram amorosamente no mesmo copo existencial, selando com um beijo o reencontro.

Ora, o açúcar compõem em altas doses a fórmula da Coca. E toda discussão passa a ser, em suma, sobre a mesma cana e a capacidade ideológica de cada parte de dar cana a quem pensa ou bebe diferente. Uma contradição, seja na metáfora ou na prática.

Isso nos dá uma boa pista: a humanidade é a mesma, na essência somos todos irmãos e partilhamos da mesma matriz. Diferimos nas experiências, na cultura, na cosmovisão e em mais em um punhado de coisas que não são essenciais. Bebemos do mesmo barril e vivemos no mesmo Brasil.

A melhor síntese, não apenas relacionado à passagem daquela moça cubana no Brasil, mas aplicada a qualquer grupo, ideologia, teologia, ou situações de conflito: Viva Cuba Livre, Rum & Coca-Cola, a qualidade está na mistura, no equilíbrio, na humanidade da bebida. E sempre poderemos optar simplesmente em beber água e nos divertir junto com os demais.

O conflito interessa apenas às lideranças e aos opressores de sempre, que incitam com seu discurso a manutenção do seu poder. Deixem o povo beber, se divertir e construir um mundo melhor.

A vida é curta, e deve ser apreciada sem moderação.



[1] Lula citando uma antiga frase e referindo-se ao acordo comercial feito com a China, na seção de perguntas e respostas ocorrida no National Press Club, Washington, em 10 de dezembro de 2002.

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