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quinta-feira, 28 de março de 2013

A Páscoa, a Eucaristia e Judas: Quem trai o Filho do Homem?



Na sua última celebração pascal judaica, Jesus Cristo estabeleceu também a primeira páscoa cristã. Encerrando toda uma caminhada sacrificial iniciada com o Êxodo de Moisés, Jesus desafia agora cada um a viver uma nova vida, onde não há mais judeu nem gentio, mas a humanidade. Todos se unem através deste último e suficiente sacrifício, onde Deus oferece a si mesmo em Cristo, trazendo a paz e reconciliando os homens com ele mesmo.

Desta maneira, em um determinado momento da história Jesus introduziu um ponto de encontro. Toda a humanidade convergiu para este ponto, como se ele fosse o olho de um grande redemoinho existencial a sugar tudo para si, continuamente, atraindo até hoje todas as coisas. Este ponto de encontro é também uma bifurcação universal, representando uma encruzilhada aonde todos os caminhos chegam e de onde partem apenas dois distintos. Um é largo, pois é a somatória de todos os outros. O outro é estreito, pois representa em sua simplicidade a alternativa para um novo e vivo caminho. A cruz é o símbolo deste caminho e a Páscoa é o seu portal. Quem seguir a cruz passará pelo portal.

Jesus oferece ao longo do tempo a possibilidade para cada pessoa, em sua própria trajetória de vida, encontrar a mesma bifurcação e seguir com ele no novo caminho. Se isto acontecer, esta mudança significará um momento de guinada pessoal ou tomada de consciência. Seguindo com Jesus pelo caminho, sua história será para sempre marcada por aquela decisão: antes de Cristo e depois, com Cristo.

Para os cristãos, a páscoa é a comemoração anual do sacrifício e da ressurreição de Jesus Cristo, celebrando a entrada para o caminho da vida. A celebração da páscoa é a representação concreta do portal espiritual que marca a passagem de cada pessoa para a grande aventura que é caminhar com o criador.

Além da páscoa, a igreja celebra na Eucaristia este momento precioso. Os elementos básicos da celebração eucarística são o pão e o vinho, representando a comunhão e o estabelecimento sacrificial da nova aliança de Deus com os homens através de Jesus Cristo. Não existe comunhão sem sacrifício, e todo e qualquer sacrifício apenas tem sentido se resulta em comunhão entre as pessoas e das pessoas com Deus. A natureza da comunhão é o sacrifício. Mas o resultado final do sacrifício não é a morte, ou a tristeza, mas uma vida com alegria e propósito!

Durante a celebração da Eucaristia, existe um momento de necessária contrição onde cada um é convidado a avaliar individualmente sua vida, para então participar da celebração com honestidade. Não é para deixar de participar, mas para reconhecer eventuais erros ou desvios, pedir perdão, se prontificar a reparar qualquer situação e então celebrar: o sacrifício só tem sentido se houver propósito e esperança! O momento da Eucaristia deve provocar o desejo íntimo e a ação em direção a uma vida mais parecida com a vida de Cristo.

Justamente aí a igreja tem omitido uma questão, que Cristo deixou claro enquanto estava com seus discípulos. Tem sabotadores do Evangelho no meio do corpo, e ele disse que um traidor estava presente. Então todos se perguntaram: quem é o traidor de Cristo?

E hoje em dia, quem trai o Evangelho de Cristo? Os verdadeiros inimigos do Evangelho não são os de fora, mas os de dentro da igreja.

Jesus disse “ – O traidor está sentado comigo à mesa”. Isso é muito forte: quem está fora não é o traidor, mas quem está dentro. Dentro de onde? Da igreja, junto ao corpo de Cristo, celebrando a comunhão entre os irmãos. É chocante, mas é a verdade. E Jesus continua: “ – Pois o Filho do Homem vai morrer da maneira como Deus já resolveu. Mas ai daquele que está traindo o Filho do Homem!”

Quem traiu o Filho do Homem? Judas, Que preferiu seus projetos pessoais ao projeto de Deus. Quem, hoje, trai Jesus Cristo?

Dois mil e treze anos depois, celebramos uma nova Páscoa. A força da primeira páscoa cristã continua a agir, apesar dos muitos problemas e desvios do povo de Deus.

A Páscoa demonstra que, apesar de todos os traidores somados ao longo da história, o projeto de Deus está vencendo. A vida venceu a morte e o amor tem vencido o medo devido a uma força que é infinitamente maior que a soma de todas as teologias humanas: o poder da ressurreição de Jesus Cristo.

Mas os traidores continuam agindo, elaborando intricadas teologias que matam Cristo depois de o beijarem com o beijo da hipocrisia.

Estas teologias são vampirescas: derramaram o sangue de Cristo na cruz e continuam a derramá-lo hoje, sorvendo-o através de projetos personalistas, objetivos pessoais e egoístas disfarçados de culto a Deus. Estas teologias buscam justificar o injustificável, promovendo o surgimento de facções religiosas de todas as espécies. São estas teologias...

que causam rupturas e divisões e as disfarçam com templos,

que causam escândalos e os abafam com ritos,

que causam tristeza e as disfarçam com canções vazias,

que causam a morte e as disfarçam com perfumaria eclesiástica,

que promovem o medo mas o disfarça com respeito,

que exploram a miséria mas disfarçam com sacrifício agradável a Deus,

que causam a mesquinharia mas disfarçam com evangelismo,

que promovem a ambição mas disfarçam com missões e templos milionários,

que causam a separação da família mas disfarçam com ativismo familiar,

que causam a sexualidade doentia mas disfarçam combatendo a alegria,

que causam a prosperidade capitalista de poucos mas disfarçam como falsas bênçãos,

que exploram a fé mas disfarçam colocando a atenção para o capeta,

que promovem a radicalidade no discurso mas uma prática ambígua,

.... e você pode ir preenchendo a lista, com certeza você tem a acrescentar!

Teologias que exploram, que causam, que provocam, que promovem tantas outras coisas, mas sempre justificando com uma espiritualidade tendenciosa, com um beijo cínico, com interesses corporativistas e projetos pessoais ambiciosos.

Porém, a ressurreição acontece, as trevas são dissipadas e o verdadeiro Evangelho avança apesar dos traidores de Cristo.

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