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quinta-feira, 28 de março de 2013

A Páscoa, a Eucaristia e Judas: Quem trai o Filho do Homem?



Na sua última celebração pascal judaica, Jesus Cristo estabeleceu também a primeira páscoa cristã. Encerrando toda uma caminhada sacrificial iniciada com o Êxodo de Moisés, Jesus desafia agora cada um a viver uma nova vida, onde não há mais judeu nem gentio, mas a humanidade. Todos se unem através deste último e suficiente sacrifício, onde Deus oferece a si mesmo em Cristo, trazendo a paz e reconciliando os homens com ele mesmo.

Desta maneira, em um determinado momento da história Jesus introduziu um ponto de encontro. Toda a humanidade convergiu para este ponto, como se ele fosse o olho de um grande redemoinho existencial a sugar tudo para si, continuamente, atraindo até hoje todas as coisas. Este ponto de encontro é também uma bifurcação universal, representando uma encruzilhada aonde todos os caminhos chegam e de onde partem apenas dois distintos. Um é largo, pois é a somatória de todos os outros. O outro é estreito, pois representa em sua simplicidade a alternativa para um novo e vivo caminho. A cruz é o símbolo deste caminho e a Páscoa é o seu portal. Quem seguir a cruz passará pelo portal.

Jesus oferece ao longo do tempo a possibilidade para cada pessoa, em sua própria trajetória de vida, encontrar a mesma bifurcação e seguir com ele no novo caminho. Se isto acontecer, esta mudança significará um momento de guinada pessoal ou tomada de consciência. Seguindo com Jesus pelo caminho, sua história será para sempre marcada por aquela decisão: antes de Cristo e depois, com Cristo.

Para os cristãos, a páscoa é a comemoração anual do sacrifício e da ressurreição de Jesus Cristo, celebrando a entrada para o caminho da vida. A celebração da páscoa é a representação concreta do portal espiritual que marca a passagem de cada pessoa para a grande aventura que é caminhar com o criador.

Além da páscoa, a igreja celebra na Eucaristia este momento precioso. Os elementos básicos da celebração eucarística são o pão e o vinho, representando a comunhão e o estabelecimento sacrificial da nova aliança de Deus com os homens através de Jesus Cristo. Não existe comunhão sem sacrifício, e todo e qualquer sacrifício apenas tem sentido se resulta em comunhão entre as pessoas e das pessoas com Deus. A natureza da comunhão é o sacrifício. Mas o resultado final do sacrifício não é a morte, ou a tristeza, mas uma vida com alegria e propósito!

Durante a celebração da Eucaristia, existe um momento de necessária contrição onde cada um é convidado a avaliar individualmente sua vida, para então participar da celebração com honestidade. Não é para deixar de participar, mas para reconhecer eventuais erros ou desvios, pedir perdão, se prontificar a reparar qualquer situação e então celebrar: o sacrifício só tem sentido se houver propósito e esperança! O momento da Eucaristia deve provocar o desejo íntimo e a ação em direção a uma vida mais parecida com a vida de Cristo.

Justamente aí a igreja tem omitido uma questão, que Cristo deixou claro enquanto estava com seus discípulos. Tem sabotadores do Evangelho no meio do corpo, e ele disse que um traidor estava presente. Então todos se perguntaram: quem é o traidor de Cristo?

E hoje em dia, quem trai o Evangelho de Cristo? Os verdadeiros inimigos do Evangelho não são os de fora, mas os de dentro da igreja.

Jesus disse “ – O traidor está sentado comigo à mesa”. Isso é muito forte: quem está fora não é o traidor, mas quem está dentro. Dentro de onde? Da igreja, junto ao corpo de Cristo, celebrando a comunhão entre os irmãos. É chocante, mas é a verdade. E Jesus continua: “ – Pois o Filho do Homem vai morrer da maneira como Deus já resolveu. Mas ai daquele que está traindo o Filho do Homem!”

Quem traiu o Filho do Homem? Judas, Que preferiu seus projetos pessoais ao projeto de Deus. Quem, hoje, trai Jesus Cristo?

Dois mil e treze anos depois, celebramos uma nova Páscoa. A força da primeira páscoa cristã continua a agir, apesar dos muitos problemas e desvios do povo de Deus.

A Páscoa demonstra que, apesar de todos os traidores somados ao longo da história, o projeto de Deus está vencendo. A vida venceu a morte e o amor tem vencido o medo devido a uma força que é infinitamente maior que a soma de todas as teologias humanas: o poder da ressurreição de Jesus Cristo.

Mas os traidores continuam agindo, elaborando intricadas teologias que matam Cristo depois de o beijarem com o beijo da hipocrisia.

Estas teologias são vampirescas: derramaram o sangue de Cristo na cruz e continuam a derramá-lo hoje, sorvendo-o através de projetos personalistas, objetivos pessoais e egoístas disfarçados de culto a Deus. Estas teologias buscam justificar o injustificável, promovendo o surgimento de facções religiosas de todas as espécies. São estas teologias...

que causam rupturas e divisões e as disfarçam com templos,

que causam escândalos e os abafam com ritos,

que causam tristeza e as disfarçam com canções vazias,

que causam a morte e as disfarçam com perfumaria eclesiástica,

que promovem o medo mas o disfarça com respeito,

que exploram a miséria mas disfarçam com sacrifício agradável a Deus,

que causam a mesquinharia mas disfarçam com evangelismo,

que promovem a ambição mas disfarçam com missões e templos milionários,

que causam a separação da família mas disfarçam com ativismo familiar,

que causam a sexualidade doentia mas disfarçam combatendo a alegria,

que causam a prosperidade capitalista de poucos mas disfarçam como falsas bênçãos,

que exploram a fé mas disfarçam colocando a atenção para o capeta,

que promovem a radicalidade no discurso mas uma prática ambígua,

.... e você pode ir preenchendo a lista, com certeza você tem a acrescentar!

Teologias que exploram, que causam, que provocam, que promovem tantas outras coisas, mas sempre justificando com uma espiritualidade tendenciosa, com um beijo cínico, com interesses corporativistas e projetos pessoais ambiciosos.

Porém, a ressurreição acontece, as trevas são dissipadas e o verdadeiro Evangelho avança apesar dos traidores de Cristo.

terça-feira, 26 de março de 2013

O Fernando, a Faculdade Teológica e a igreja

O Fernando, a Faculdade Teológica e a igreja



Recebi um e-mail de uma pessoa questionando sobre determinada igreja pagar ou repassar uma oferta para os estudos teológicos do Fernandinho Beira Mar. Em consideração a esta pessoa, e a alguns queridos amigos que me perguntaram sobre a mesma coisa, dou a seguir minha opinião. Bom lembrar que minhas filhas e meu genro fazem parte desta igreja, a quem desejo o bem.

Contribuo, entretanto, como alguém que foi por mais de vinte anos pastor em uma outra igreja protestante e passou uns anos nesta mesma igreja. Reconheço que as instituições religiosas têm por norma não dar satisfação de seus atos para os fiéis, seja qual for sua cor ou sistema de governo. Em geral, consideram qualquer questionamento uma “afronta” à liderança, e os questionadores, além de rotulados e segregados, são geralmente rechaçados em nome de interesses corporativos e projetos institucionais e pessoais.

Sei também que a igreja abriga covardes e interesseiros, promotores de discórdia e aventureiros: o joio no meio do trigo.

Após mais de quinhentos anos de presença do cristianismo católico e protestante no Brasil, a igreja, mesmo sendo maioria esmagadora, não conseguiu produzir mudanças estruturais significativas em nossa nação. Para uma sociedade que se diz cristã, nossos indicadores de ética, moral, valores e justiça são péssimos. Das duas uma: ou o fundamento da igreja é completamente equivocado (a Bíblia), ou sua prática está dissociada de seus valores fundamentais essenciais. Entendo que estamos no segundo caso. Por isso, mesmo arriscando errar, é preciso refletir e agir com coerência e fé.

Nossos maiores problemas possuem origem interna e não são decorrentes de nenhum ataque de grupos ou inimigos externos. Os próprios cristãos são os principais sabotadores do cristianismo.

Quando fui pastor, trabalhei por muitos anos com projetos focados no sistema penal, inclusive conhecendo a realidade prisional de outros países. Conheço nossa realidade, assim como o comportamento de crentes insensíveis, ovelhas gordas que apenas amassam o pasto e desejam exclusividade do pastor: são piedosas no discurso, porém egoístas e discriminadoras na prática.  

Conheço pessoalmente o capelão que está trabalhando em Catanduvas, um cara batalhador e sincero no que faz. Espero que ele, em meio aos seus dilemas e angústias, possa se fortalecer e crescer.

E que muitos fernandinhos e fernandinhas beira-mar encontrem libertação sincera para suas almas aprisionadas. Da mesma forma, que as vítimas e seus familiares também encontrem em Cristo restauração e Graça para prosseguirem com suas vidas.

O email:

“Gustavo, você que é uma pessoa sensata, me diz o seu parecer sobre isso?

É porque eu acho isso um absurdo (...), visto que todos os dias a igreja tem feito completamente o contrário com tantas outras pessoas: tem famílias sem dinheiro pra botar comida em casa, perdemos pessoas todos os dias porque não "cuidamos" uns dos outros, entre outras mil e uma situações! 

E agora somos manchete por investir num cara que acabou com a vida de  inúmeros jovens e de suas famílias: matou sabe Deus quantos - mas a minha igreja torna-se a estrela do dia!
Não estou colocando em cheque a reintegração deste indivíduo à sociedade, tão pouco questiono sua fé com Deus; mas acredito mesmo  que esse curso é uma forma de eliminar um dia de prisão a cada 12 HORAS AULA.... mas.... isso está certo?
Eu não quero falar sobre isso com outras pessoas, nem mesmo expressar minha revolta, porque eu já tenho fama de rebelde. Mas, certamente, em meio à idolatria demonstrada via redes sociais (...), eu seria (considerada) apenas mais uma pessoa ignorante que não está pensando na obra de Deus e em tantos princípios, como o perdão e o amor ao próximo, seja ele quem for.
Enfim...(...), eu acho que vc não vai me fazer sentir idiota, caso eu esteja muito errado!!!
assinado...............”


Minha resposta:

Em primeiro lugar, obrigado por compartilhar suas angústias e perplexidades, me escolhendo para seu desabafo pessoal. Minha primeira preocupação é, ao ser digno de tua confiança, não desapontá-la: afinal, você me vê como um cara ‘sensato’ e isso é muito arriscado: nem sempre ajo com sensatez! Mas, se por algum motivo existir algum idiota em meio a qualquer tipo de questionamento, não será você, mas quem não gosta de ter que dar satisfações.

Pessoas que fazem perguntas não são idiotas, apesar de existirem idiotas que não fazem perguntas.

Não desejo me referir ao bolsista como “Fernandinho Beira Mar”. Seu apelido é um estigma social que ele terá de carregar vida afora por conta de sua vida bandida. Porém, acho que ele não se incomodará de tratá-lo com o respeito que ele não teve para com suas vítimas. Para todos os efeitos, ele é o Fernando.

Respondendo à sua pergunta, em primeiro lugar cabe uma rápida explicação sobre a situação da igreja no Brasil. Muitas vezes os questionamentos sobre suas ações são na verdade uma tentativa de entender o que é que está se passando com a igreja, imersa em tantas polêmicas.

Em meio a tantas contradições pelas quais passa o povo chamado evangélico, dois pecados-atitudes fundamentais têm caracterizado a igreja: a ambição e a omissão. Vivemos dias de trevas, e não de luz.

No grupo da AMBIÇÃO, é condenável e lamentável a pregação e o culto a Mamon, o deus do dinheiro e da cobiça. Pastores e crentes tentam justificar seu amor ao dinheiro espiritualizando sua mensagem. A chamada ‘teologia da prosperidade’ é uma tentativa pseudointelectual de dar ares acadêmicos à fala do capeta. Seus profetas midiáticos – sem exceção – são inescrupulosos, usam artifícios para alavancar seu patrimônio e são uma afronta à mensagem cristã de simplicidade e trabalho honesto.

Estes profetas de frases de efeito e da cólera para com o pecador têm feito muitos discípulos que, por sua vez, subdividem-se em dois subgrupos.

Existe o subgrupo dos cínicos, que pregam explicita e abertamente a mensagem da prosperidade, produzindo líderes indecentemente ricos em relação aos seus fiéis. Seus principais representantes estão nas mídias abertas e pagas: seu patrimônio é imenso e está em seu nome ou em nome de laranjas, podendo ainda estar disfarçadamente em nome de sua própria igreja, que é a extensão do patrimônio pessoal de seus fundadores.

O outro subgrupo é formado pelos hipócritas: eles não estão tanto em evidência, apesar de usarem programas de rádio, aparições em shows gospel aqui e ali, e assim por diante. Até aí nada de mais, todos podem e devem usar os recursos disponíveis para fazerem o bem, desde que bem intencionados e com honestidade. Porém, seus megatemplos e superigrejas denunciam seu discurso espiritual, desmascarando governos absolutistas. Eles gostam de condenar os cínicos, mas fazem o mesmo só que de outra maneira. Essa turma investe pesado em estruturas, gostam de bens imóveis ajuntando tesouros na terra, em detrimento no foco da mensagem cristã – as pessoas. Para isso, usam o discurso da piedade e a lógica capitalista para justificar a ambição e sede de poder temporal.

Pensa comigo: se os cristãos e seus líderes acreditam tanto na segunda vinda de Cristo, conforme está escrito nas Escrituras, então porque investir tanto em patrimônio, estruturas e templos? Isso tudo ou ficará para outros, ou será destruído. Não tem sentido. A não ser que na verdade ninguém acredite nisso e entraram no jogo do ter para demonstrar poder.

Bom, existe também um segundo grupo, o da OMISSÃO.  Este grupo congrega um número bem maior que o primeiro, apesar de fazer bem menos barulho, pois geralmente pregam um evangelho light, inodoro e sem gosto. É formado por igrejas de todos os matizes teológicos, principalmente as igrejas tradicionais e históricas. Este grupo é muito articulado e costuma navegar com facilidade nas esferas do poder. Chamam-se de equilibrados e produzem excelente teologia. Porém, estão mais interessados em seus projetos denominacionais e não conseguem viver em unidade. Brigam constantemente entre si por espaço, disputam cargos e posições (internamente e externamente) muitas vezes com truculência. Algumas desenvolvem uma política eclesiástica que deixaria Brasília corada de vergonha. Creem que devem focar em estratos sociais como estratégia proselitista, rodeando o mundo para ganhar uma alma, mas depois a aprisiona a rituais sem fim e ordenanças de homens.

Gostam de se chamar “Denominação”, justificam suas necessidades de divisão como decorrentes de ‘teologias irreconciliáveis’, mas, como bem disse C. S. Lewis a seu respeito, não passam de facções como aquelas de Paulo, Apolo, Cefas e Cristo, (1 Coríntios).

Cabresteiam seus crentes com o discurso de “obediência às autoridades” e qualquer voz discordante é sutilmente eliminada ou intimidada. Diante do escândalo da pobreza, da fome, da injustiça, dizem que estas coisas são assim mesmo, Jesus disse que sempre ia ter pobre por aí. Adoram a desculpa de que a “igreja é um hospital e um lugar para pecadores”, mas não liberam seus pacientes para serem cidadãos no mundo. 
Insidiosamente, mantém a doença para tirar seus recursos e manter o caríssimo ‘plano de saúde’ que só vai curar o paciente na eternidade. Mas aqui, pague suas mensalidades na forma de dízimos.

Estas igrejas “sérias” são departamentalizadas, amam todas as formas de (C)omissões, separam constantemente as famílias em suas atividades, conforme o nicho de mercado. Possuem um discurso de democracia e liberdade, mas não toleram diferenças, começando pelas teologias alheias. São hipócritas nos usos e costumes, seletivos com as pessoas, coam mosquitos e deixam passar cáfilas (adoro esse coletivo!). Domingo após domingo reúnem-se em seus guetos denominacionais para celebrarem as últimas conquistas e lançarem novos “desafios financeiros”, que mantém o pessoal ocupado para não pensar bobagens.

Dizem-se defensoras da família, porém tornam a vida do crente um constante correr de casa para a igreja e para o trabalho, e vice-versa. São as chamadas igrejas programáticas: preenchem a vida dos fiéis com atividades sem fim e monitoram os dizimistas como a Receita Federal monitora os contribuintes: na surdina, mas com eficiência! Quando o caixa está baixo, fazem como o governo: não ajustam sua administração, mas lançam mais apelo (leis) para aumentar a arrecadação, geralmente mostrando fotos de crianças pobres, projetos sociais e perdidos em geral.

Condenam pessoas como Fernando, mas são traficantes no mercado negro religioso de neo-indulgências: vendem a salvação disfarçada de bênçãos, dízimos, assiduidade nos programas, e com programas de fidelização. O crente é torna-se um cliente e um associado! A defesa da Igreja por seus membros muitas vezes iguala-se à histeria e aos gritos de torcidas organizadas e suas facções, com palavras de ordem e idolatria escancarada.

Desta forma, as igrejas da ambição ou as da omissão usam toda e qualquer oportunidade de autopromoção para validar sua força e sua fé na sociedade. Quando Jesus disse que a mão esquerda não deveria saber o que a mão direita fazia, ele não conhecia a força do facebook e mídias sociais, nem das estratégias de marketing, essa ferramenta infernal para dizer que o que é errado é apenas o que os outros fazem ou pensam.

Veja bem: o que as igrejas, em geral fazem com pessoas como você, que pergunta e faz questionamentos? Você disse que era considerada uma pessoa ‘rebelde’, por perceber sérios problemas dentro de sua denominação. Então, a primeira coisa que fazem é rotular e desacreditar, insinuando uma baixa espiritualidade por discordar da decência e ordem das coisas e ousar ter um pensamento crítico.

Mas, afirmo, você não é rebelde. Você, como muitas pessoas, possui algum receio para se abrir com sua liderança, e isso é sintomático. Você tem discernimento suficiente para enxergar a idolatria institucional e até mesmo a idolatria pessoal e dos bajuladores acríticos. Você é uma idiota por conta disso? Se for, somos dois, três, mais do que imagina! Não permita que te rotulem. Se você tem espírito crítico, questione profeticamente o status quo e, se te encherem muito o saco, saia fora e busque outras paragens.

Então, deixa eu te dizer mais uma coisa: você é mais corajosa do que a maioria que simplesmente se omite ou permanece calada, dizendo: “OK, qualquer igreja tem seus problemas, então eu fico por aqui mesmo, quietinho no meu lugar.” Você tem coragem para ir contra a corrente ufanista-denominacionalista. O verdadeiro espírito profético está em saber discernir e comparar a prática externa com a atitude interna, o discurso com a vida, a palavra com o exemplo. Este é o principal indicador de responsabilidade sócio-ambiental-espiritual (Ok, inventei essa...). Todo erro deve ser denunciado, toda dúvida deve ser respondida e o discurso intimidador de ‘obediência’ às autoridades serve apenas para favorecer o opressor investido de um poder que, diga-se, não lhe pertence.

Bom, e o caso do Fernando?

Em primeiro lugar, não ceda à tentação de deixar-se possuir pelo ressentimento. Exerça a graça e a misericórdia para com teus irmãos e irmãs, seja o evangelho vivo nas mãos de Deus. Não julgue a iniciativa da igreja – mesmo se tomada em seu nome por alguns de seus membros. Muitas vezes, e isso é comum nas instituições, a liderança nem queria correr este risco. Mas sempre existem decisões internas desleais, que dizem “sim” na frente uns dos outros, mas depois sabotam as decisões tomadas em colegiado. Vaidades...

E se a igreja fez de boa fé, mesmo sendo ingênua ao não avaliar o impacto de sua ação?

É lícito alguém desejar mudar de vida? É claro que sim, pelo amor de Deus! Por isso não permita que qualquer parcialidade pessoal ofusque tua visão. Tem muita gente que criticou a decisão de sua igreja (de dentro e de fora), mas aposto que o sentimento não revelado é o de egoísmo, falta de amor ou pura maldade mesmo, por entender, como nosso amigo profeta Jonas, que Deus não deve demonstrar sua graça a certo tipo de pecador.

Certamente tua igreja, que muitas vezes é tão incoerente como qualquer uma outra, é também uma bênção de diversas maneiras e faz muitas coisas boas. Assim como eu e você.

Uma dessas coisas boas, apesar do discurso chauvinista de alguns beirando a idolatria no facebook (eu mesmo vi), é oportunizar para pessoas como o Fernando a possibilidade de reflexão e transformação. Veja, estou apenas dizendo ‘possibilidade’. Não sei se ele é sincero ou oportunista. Outro Fernando, o Collor, disse uma vez que “o tempo é o senhor da razão”, e o tempo provou que ele estava certo. Sejamos prudentes e pacientes, virtudes em falta hoje em dia onde todas as coisas devem ser decididas rapidamente. Talvez a pressa tenha sido a causadora de toda essa situação.

É direito do Fernando, e concordo, usar suas horas de estudo para amortizar seus anos de cadeia. Vai que ele tem uma crise de consciência verdadeira e resolve abrir o bico, entregando quem ele subornava, ou quais autoridades compravam suas drogas, quem era o ‘cabeça’ por trás de seu esquema... Imagina o que pode vir se ele realmente estiver a fim de limpar sua consciência e resolver não apenas confessar seus pecados mas restituir de alguma forma em bem o que ele provocou de mal – assim como Zaqueu!

Mas mesmo que ele não faça nada disso, tem o direito de mudar de vida. Quem deseja lucrar de alguma forma com isso será julgado por Deus.

Por outro lado, você afirma que existem pessoas que passam necessidades em sua igreja e questiona o porque pagar um curso para um “bandido”. E ele é um bandido até que se prove em contrário, a própria liderança da sua igreja não coloca a mão no fogo por ele. Desconheço os motivos íntimos pelos quais sua igreja, ou qualquer outro cristão, resolveu pagar o curso do Fernando, ou ajudar esta ou aquela pessoa e não outra.

Também pergunto: se sei que existe alguém passando necessidades, ou precisando de alguma ajuda, o que é que eu estou fazendo? Porque tenho que esperar que a instituição faça o que é minha responsabilidade fazer?

Acho intrigante que as pessoas achem bacana “a igreja” fazer o bem, mas se omitem pessoalmente. Mas esse comportamento é uma das tristes consequências da institucionalização da igreja: ela tira dos crentes sua responsabilidade individual social e missionária, criando secretarias e departamentos de ação social e missões. E o crente fica feliz pois “paga” e transfere via dízimos e ofertas para que alguém faça o que ele deveria estar fazendo. Mas, novamente, assim é que a igreja mantém sua estrutura e sua hierarquia de poder!

Cada igreja passa por estas situações, e não é apenas a tua, creia-me.

Voltando ao Fernando: mesmo com os condicionamentos denominacionais de uma faculdade denominacional, ele estará tendo contato com a Bíblia. Acho isso maravilhoso, principalmente para uma pessoa como ele. Como muitos, teve que ir pra cadeia para começar despertar para a realidade espiritual. Pena que a sociedade não goste do ensino bíblico nas escolas mas aceite nas cadeias...

Este livro é único e conta a maior de todas as histórias, apesar de ser tão manipulado por pessoas sem escrúpulos. Ela contém o poder de Deus e é a leitura mais libertadora existente sobre a face da terra. É uma tremenda hipocrisia, preconceito e cinismo qualquer pessoa achar que alguém não seja merecedor da Graça de Deus. Se nós o fomos, porque ele não?

Pra falar a verdade, eu acho que Jesus fica muito mais à vontade com o Fernando do que com a maioria dos religiosos de nossos dias. Ele curtia estar na presença dos pecadores, pois podia mostrar um caminho alternativo a pessoas sinceras. Cristo detestava e se irritava profundamente com os religiosos de seu tempo devido à sua arrogância e hipocrisia.

Meu desejo é que você continue a exercer com coragem seu papel profético, tenha humildade para tratar com graça seus irmãos e alegre-se com as vitórias, mesmo parciais, do Corpo de Cristo!

E se um dia, por algum motivo, o Senhor mostrar a você que é chegado seu tempo de mudar, ou que é a hora de sair de sua facção ou comunidade eclesial, faça isso em paz. Se estiver realmente interessada em ajudar sua igreja, ao sair diga seus motivos para sua liderança. Não é pecado sair, as denominações nunca existiram. O que é pecado é a ambição, a omissão ou a busca da glória dos homens manipulando a Palavra de Deus.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Precisamos mudar a população e não os governantes


Precisamos mudar a população e não os governantes

Um dia acordei e percebi que se eu não fosse proativo em relação aos meus direitos e à promoção da justiça, ninguém seria. Então, parei de transferir responsabilidades. Desde então, tenho vivido uma luta, onde muitas vezes eu sou derrotado. Porém, persevero no caminho pois sei que é o verdadeiro.

Inundado por literatura desde a minha infância, gosto em especial das histórias de pessoas que contribuíram para a transformação de realidades aparentemente impossíveis de serem mudadas. Viajando pelo Brasil e exterior, e já tendo morado fora, sou adepto do turismo alternativo e sempre procuro sair das trilhas batidas pelos consumidores de bugigangas. Claro, depois de comprar mais meia dúzia de ofertas imperdíveis. Nas viagens, o que mais gosto é de encontrar pessoas e conversar.

E a conversa acaba girando em torno de minha cidade ou do Brasil. Quando eu vejo alguma coisa boa sendo feita, sempre pergunto: como vocês conquistaram isso? Independente da cultura, a resposta é a mesma: a gente batalhou para isso acontecer. Até hoje ninguém me respondeu: “foi o governo que nos deu.”

Esses dias estava numa palestra com um amigo suíço. Conversávamos sobre reciclagem, e ele informou que na Suíça você deve levar seu lixo aos pontos de coleta – o caminhão não passa e para na frente de sua casa. Em vários pontos da cidade, em praças ou calçadas, existem pontos de coleta para vidro, papel, metal, lixo orgânico e assim por diante. As lixeiras têm o formato de uma pequena cabine acessível ao público, conectando abaixo com uma grande caixa subterrânea. De tempos em tempos vem um caminhão, levanta todo conjunto, despeja dentro da caçamba específica e repõe no lugar a unidade coletora.

Uma senhora que estava conosco perguntou: mas as pessoas colocam o lixo certinho cada um na sua cabine coletora? Será que em casa eles não enfiam tudo dentro de um mesmo saco e jogam em qualquer uma das cabines? Ele olhou pra ela com cara de "em que planeta você vive?"


Então o amigo rapidamente lembrou-se que a pergunta fazia sentido, aqui no Brasil: mesmo em locais onde existe a coleta, as pessoas jogam lixo em todo lugar e de qualquer forma, nas ruas, calçadas, rios, praças, tudo junto e misturado. Na Suíça, o cidadão sabe o que tem que ser feito e simplesmente faz. Claro, sempre tem a turma idiota de sempre, que não respeita nada, mas são uma minoria reduzidíssima. No Brasil, as pessoas sabem o que tem que ser feito e simplesmente não fazem, e ainda culpam o governo por qualquer coisa. É claro, sempre tem a turminha consciente de sempre que faz o que precisa ser feito. No mais, êta povinho besta.

Observamos na prática que não é o governo que muda a realidade ou concede direitos a ninguém: as pessoas lutam, conquistam seus direitos, passam a se comportar de forma diferente. Então o governo estabelece leis e cria mecanismos para serem cumpridos. Mesmo com muitas falhas e negligências, as coisas vão se encaixando. O número de leis de um país é diretamente proporcional à inconsciência e à falta de cidadania pessoal.

Por isso, vale lutar pelo que é certo e sair do lugar comum da militância eletrônica via mídias sociais, particularmente pelo facebook. Essa mídia tem sido palco para muitos ativistas de poltrona que, na prática, perpetuam os esquemas e fazem bobagens Brasil afora, mas posando de articulados e espertos diante de sua ‘comunidade’!

Já denunciei os larápios de brigadeiros do supermercado, ou a gurizada que cola na escola sob o olhar complacente de seus pais que acham os filhos “exxpertinhos”, ou ainda pessoas que jogam cigarros pela janela do carro e que andam pelo acostamento nos congestionamentos. Tem ainda o grupo mais miserável, que ocupam vagas de deficientes e idosos, e por aí vai.

Duas situações recentes mostram que caminho resolvi percorrer é possível, desde que saiamos da inércia ou da preguiça.

No Banco do Brasil, aguardava minha vez após vencer a tentação e pegar aquela senha que te coloca no fim de qualquer fila: não sou idoso, não estou grávido, não sou cliente, não preciso por qualquer motivo de atendimento preferencial. Sentei-me, pois ainda havia ainda lugar vago na dança das cadeiras e saquei o livro que sempre levo para enfrentar esses momentos zen: “Será Que É Possível?”, de Sergio Chaia. Acho legal ver algumas senhoras que em qualquer outro contexto ficariam ofendidas se fossem chamadas de ‘idosas’, mas para enfrentar filas de banco ou no supermercado, acham o máximo! Depois de muitos “Tóins” sonoros indicando os sorteados, vimos uma moça sendo chamada. Olhamos para ela e imediatamente todos olharam novamente para o monitor: ‘Senha P-XXX’, de ‘Preferencial’. Pois bem, lá vai a moça, usando a camiseta da irmã mais nova, barriguinha sarada, calças justas, desfilando para o atendimento.


Não apenas eu, mas todos notaram com indignação que havia algo de estranho. Começou a murmuração de sempre, onde já se viu, deve estar de caso com o gerente, e por aí vai. Olhei para a pessoa ao meu lado e perguntei: você vai fazer alguma coisa? Como não ia, nem ninguém, levantei-me e fui lá no caixa. Perguntei gentilmente (sério) para a moça: você pegou que tipo de senha?

Então, a atendente do banco me olhou, os demais atendentes também olharam, as pessoas que estavam sendo atendidas olharam para a moça, e de repente ela se tornou o centro das atenções. A funcionária no caixa deu uma levantadinha nos pés, inspecionou a donzela e disparou: você está grávida? Ela respondeu, acho que peguei a “senha errada”.

Voltei para meu lugar e disse para as pessoas que a menina “havia se equivocado.” Tsc, tsc, tsc, não acredito, que cara de pau, e os comentários continuaram. Poucos segundos depois, lá vem a moça, dirigindo-se para a saída. Em seu desfile, recebeu uma vaia a meio tom da plateia, além de outros comentários graciosos. Ela saiu, foi lá na maquininha seletora maldita, pegou outra senha e sentou superfocada em seu celular, digitando talvez algo como vergonha-vergonha-vergonha!

Numa outra situação, depois de almoçar com os amigos, ao pagar a conta observei que a atendente acrescentou três centavos no débito do cartão: a conta era R$18,87 e ela debitou R$18,90. O engraçado é que na nota fiscal o valor estava correto. Porém, a segunda via do cartão indicava a diferença a mais. Perguntei porque ela teria feito isso, e ela surpresa com minha pergunta, disse espantada, “pra arredondar”!

Como a funcionária nem pensou em dar o troco pela sua ‘distração’, comentei com os amigos o fato. Sempre almoçamos juntos às quintas-feiras, apesar das esposas acharem que a gente sai pra fazer alguma coisa a mais. Pura maldade. Então um deles me disse: “isso já aconteceu comigo aqui também, com a mesma operadora”! Eu perguntei o que ele havia feito, nada, respondeu, foram só uns centavinhos...

Depois, matutei: isso não está certo. Achei o site do restaurante, somos clientes há muito tempo. Gentilmente (é sempre importante ser gentil antes de, caso perdido, mandar a pessoa pra PQP - ok, desculpe por essa, mas a rima pareceu iresistível!), escrevi um email ao famoso “fale Conosco” anônimo. No email disse estar surpreso e estranhei a atitude da funcionária, perguntando se eles agiam assim por norma, distração ou algum outro motivo. Questionei sim a possibilidade de os arredondamentos serem fraudulentos. Coloquei meu nome e telefone no final.

Como eles são uma rede, a primeira surpresa foi a pronta resposta. A Ana me disse que isso era um lamentável engano e que tomaria as medidas necessárias para que este evento não se repetisse no futuro. Disse também que eu seria procurado pela gerente da loja quando retornasse na próxima oportunidade.

Como de hábito, retornei com os amigos dias depois. Para minha surpresa a gerente local sabia quem éramos e me aguardava. Ela disse que conversaria comigo depois, que eu almoçasse tranquilo com os amigos. Almoçamos, e ainda fui surpreendido com um beijinho gostoso de minha sobrinha, que estava ali também com minha irmã. Conversamos um pouco, rimos bastante como sempre, atualizando as piadas da semana e saímos.

Quando estava na fila para pagar, a Gerente Simone me chamou. Junto a ela estava uma constrangida funcionária. Ela pediu desculpas mais uma vez, explicou brevemente a política da empresa e passou a bola para a funcionária, que também pediu desculpas. Sorrindo, perguntei pra Simone se ela devolveria meus três centavos, ela disse que não. Mas se eu topasse, o almoço desta vez seria por conta da casa! Com cara de ‘meme’ emocionado, agradecido, aceitei a compensação.


Encaminhei um novo email à empresa, desta vez agradecendo o almoço e a rapidez com que reconheceram a falta, esclareceram e resolveram a situação. Em tempo: a funcionária não foi demitida, e dei a ela algumas dicas sobre sua responsabilidade como cidadã.

Estas histórias servem para lembrar que ações cidadãs exigem mais do que manifestações de apoio e indignações eletrônicas. Elas não são ruins, mas questiono sua validade em termos de transformação social. Eu entendo que não fiz nada de mais, apenas o que deveria ser feito por qualquer pessoa.

As pessoas são viciadas em desonestidade, e seu desvio de caráter é geralmente denunciado nas pequenas atitudes e nas omissões em geral. Usar de malandragem com a senha eletrônica, “arredondar” contas e trocos de poucos centavos, usar o acostamento em congestionamentos, dar e aceitar propinas, jogar qualquer tipo de lixo nas ruas, qual é a diferença? Nenhuma! Mas cinicamente as pessoas adotam a cultura do “já que todos fazem mesmo, então se eu fizer de vez em quando não tem problema algum.” Mas o problema não é porque tem gente que faz estas malandragens. O grande problema é por conta da população, a maioria, que deixa pra lá.

O comportamento cordial do brasileiro é um inferno. Ele se passa por bonzinho, mas é também um grande omisso. Não luta pelos seus direitos básicos, pois não deseja incomodar ninguém ou não quer correr o risco de passar vergonha e ficar mal com os amigos.

O governo é representado estatisticamente pela média da população. Por isso percebemos que enquanto não mudarmos a população – e não os governantes – o cenário não mudará. A grande onda de indignação contra corruptos e estelionatários nos postos de governo é apenas fumaça. O fogo queima mais embaixo.

As instituições religiosas, que deveriam contribuir para a mudança de atitude da população, são pouco eficientes. Notamos que a grande maioria das igrejas cristãs (católicas e protestantes de todas as facções), que comportam mais de 85% da população brasileira, arrecadam e investem milhões para fazerem propaganda de si mesmas, ensino de usos, costumes, doutrinas e valores espirituais. Porém, os resultados estão aí: nunca estiveram tão altos os índices de corrupção e de omissão da população. As instituições religiosas não conseguem estabelecer uma práxis eficiente, no sentido de promover uma atividade humana social e material concreta, levando à transformação da realidade. Como o conteúdo da fé continua sendo válido, os resultados demonstram que a prática eclesiástica, sem exceções, está completamente equivocada.

Desta forma, não adianta cobrar do governo e tampouco das igrejas. Como instituições, estão fadadas a reproduzir seu meio, apenas isso. Resta uma alternativa.

A proposta é que você, eu e mais alguém, faça o que é certo simplesmente por ser certo, nada mais, apenas isso. Não faça, ou deixe de fazer, porque receberá uma recompensa ou uma multa. Revolucionariamente mude de atitude, mesmo que não veja mudanças à sua volta. Respeite, exija seus direitos, seja honesto. Faça uma revolução silenciosa dentro de você mesmo. Mesmo se cair, levante e continue a perseverar.

Você crê em Deus? Então seja coerente com sua fé e reproduza no chão que você pisa a sua espiritualidade. Esqueça o lar celestial, o céu e o inferno. Seja a pessoa que Deus chamou você para ser, viva os princípios que você defende com coragem, sem ser arrogante.

Você não crê em Deus? Então acredite em você mesmo, acredite em sua humanidade. Tome posse de valores universais como o amor, a compaixão, a misericórdia e a honestidade. Internalize-os, seja também coerente, pois o resultado de suas ações será o habitat para a vida no futuro.

Não existem coisas pequenas, sem importância. Tudo é uma questão de perspectiva. Centavos são importantes, pois somados serão milhões. Cada ser humano é importante, pois somados somos milhões.

Acima de todas s coisas, não culpe ninguém, nem o governo, nem a igreja, nem a sociedade. Você é o governo, a igreja e a sociedade. Você é maior do que todos, pois é você quem faz as coisas serem do jeito que são. Você pode ser o protagonista da maior revolução de todos os tempos, a da sua própria vida!

Na próxima oportunidade, diante da urna, diante do padre, diante do pastor, diante de qualquer pessoa ou situação que você perceber errada, seja apenas você mesmo: transforme.

Um dia, nos encontraremos e seremos maioria!


terça-feira, 12 de março de 2013

Cuba libre!



Cuba libre!
“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte da humanidade; por isso, nunca busque saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. Por Quem Os Sinos Dobram / E. H.

I
Cuba Libre é uma bebida, mas também pode ser um texto cheio de duplo sentido. Desta forma, leia com moderação.

Era uma vez uma cidadã cubana que visitou o Brasil, representando legitimamente o que cuba tem de melhor e de pior, como cada um de nós quando sai por aí dando suas voltas turísticas, deixando rastros nem sempre louváveis de nossa passagem.

Pois bem, nem bem a moça desembarcou e choveram manifestações de apoio ou repúdio, conforme agendas ocultas ou escancaradas de terceiros. É impressionante, eu não sabia, como existem especialistas em Cuba que conhecem na intimidade a ilha e seus habitantes. De forma particular, fiquei envaidecido como esses legítimos brasileiros conhecem mais de outro país que o seu próprio, numa capacidade de assimilação amorosa impressionante!

E os comentários? “-ela é marionete de ....” Tive que rir da infelicidade deste povo. Coitados dos cubanos, são todos marionetes! A marionete, todos sabem, são fantoches que se movimentam através de cordinhas conduzidas por mãos terceirizadas. Nada disso acontece no Brasil, que tem o regime democrático mais eficiente, transparente e honesto do mundo. Nosso povo é crítico e apenas elege gente de bem. Ninguém se deixa manipular. Somos muito inteligentes e logo percebemos quando os outros são manipulados.

É natural que em Cuba existam pessoas que aceitam passivamente o regime. É também natural que existam pessoas que o aceitem e o defenda apaixonadamente. Por outro lado, é natural que existam pessoas que detestem o regime, mas se adaptaram a ele, tocando suas vidas da melhor forma possível, esperando que um dia a realidade mude por si só. E tem aqueles que não aceitam o que está acontecendo, se posicionam e tentam dizer por que pensam diferentemente, correndo os riscos inerentes a quem tem opinião própria.

Também acontece que pessoas que não vivem a realidade cubana achem que entendem mais daquela nação caribenha do que qualquer um de seus cidadãos. E elas possuem um motivo para isso: visitaram Cuba uma ou algumas vezes, leram muito seletivamente o que outras pessoas escreveram e descobriram no globo que Cuba está no Caribe. Pronto: formaram-se doutores em Cuba com uma profunda perspectiva histórica de 60 minutos. OK, isso acontece, mas é mais uma paspalhice humana! Porém, fazer o que, o mundo também é dos patetas. E eles estão bem instalados em ambos os lados desse debate: à esquerda e à direita, a insensatez não escolhe partido, é um fenômeno universal.

Particularmente, com minha bebida em mãos, brindo tanto ao fervoroso revolucionário quanto ao seu mais ferrenho opositor. Respeito-os, pois eles vivem na própria pele suas convicções. Se estiverem certos ou errados, se são lúcidos ou míopes, será apenas minha avaliação distante, mesmo sendo apaixonada. São conclusões decorrentes de minha perspectiva, de meus condicionamentos históricos, de minha aprendizagem e de minha zona de conforto. Vejo-me afastado da arena real do conflito.

Creio que tanto defensores como opositores ao Regime possuem motivos, boas explicações e teses para serem o que são e afirmarem o que afirmam. Eles possuem a autoridade de quem responde diretamente por suas declarações, colocando seu pescoço e o de sua família à mercê dos carrascos de plantão. Por isso, mesmo discordando por algum motivo, respeito sua história e defendo o direito de se manifestarem. Ao argumentar, devo também me abrir à possibilidade de mudança. Mas quando entro numa guerra, apenas a vitória me interessa.

O que é difícil de aceitar são posicionamentos do tipo “este lado está totalmente errado e o meu lado está totalmente certo”, numa guerra de palavras de ordem e clichês. Isto é peculiar de arrogantes neuróticos, belicosos microditadores e suas marionetes. Típico de quem não consegue viver sabendo que também há inteligência, razão e coisas muito boas do outro lado da questão. Em outras palavras, existe vida, somos irmãos mesmo pensando distintamente. As generalizações são sempre burras e estão a serviço de forças marionetantes de sempre.

II
No final do ano passado assisti a um filme sobre a vida de Ernest Hemingway, mostrando um pouco da história deste Nobel de Literatura e suas lutas – literalmente – pessoais e ideológicas. Ele, norte americano, com alguma consciência política, mente brilhante com uma aguçada percepção social, batalhou durante sua vida pela coerência. Escreveu muito sobre suas lutas internas e externas, tornando-se ao mesmo tempo autor e personagem da maioria de suas histórias.

Li dois de seus livros: “O Velho e o Mar” e “Ilhas da Corrente”, assistindo posteriormente seus respectivos filmes. Assisti ainda ao clássico filme baseado em uma de suas obras mais famosas, “Por Quem os Sinos Dobram”, de 1943. A cena de Gary Cooper e Ingrid Bergman no saco de dormir, enquanto a guerra civil espanhola se desenrolava, deu o que falar e teve que ser refeita: as primeiras tomadas foram consideradas “muito realísticas” para os padrões da época. Sempre há lugar para a paixão em meio às crises: ela nos ajuda a manter a humanidade em meio ao caos.

Sempre fui fascinado pelas complexas relações humanas, as pessoas e seus conflitos existenciais, suas lutas internas sendo levadas ao campo de batalha externo. O ser humano é tão ambíguo como as voltas e reviravoltas de antigos aliados transformados em inimigos e vice-versa, defendendo causas de terceiros. Ao longo da história as teses e antíteses ideológicas são transformadas em sínteses campais com muito sangue derramado. O vencedor tem sempre razão, e ao perdedor resta o banimento, o ostracismo, o pardão ou a exploração econômica. Depois, geralmente muito tempo depois, a percepção de que nada vale quando o sangue derramado entre irmãos mancha o campo que produz o mesmo pão para todos. A morte de qualquer homem nos diminui.

Se as pessoas refletissem um pouco mais elas não iriam à guerra e não elegeriam líderes e ditadores que as promovem, arrastando multidões para a morte em nome de seus sonhos megalomaníacos e “sacadas” históricas. Talvez até não elegessem ninguém: se autogovernariam em coletividades autônomas e cooperativas entre si, mas isso é outra história, uma utopia de malucos fraternos. A autonomia exige educação crítica e isso nunca foi estratégico para líderes personalistas, promotores de guerras e revoluções.

Hemingway me seduziu com sua própria história: suas venturas e desventuras pessoais, sua busca de sentido para todas as coisas e a vida cheia de viagens, belas praias, revoluções, livros, mulheres e rum. Estes elementos, combinados em excesso entre si, tendem a gerar reações explosivas, como ficou demonstrado ao longo de sua vida. Não apenas ele, mas este tipo de pessoa me fascina por buscarem, cada uma à sua maneira, entender o homem em meio a todas as suas contradições e ter a coragem para viver suas próprias ambiguidades, muitas vezes mudando de posição conforme constrói seu conhecimento. No final, é a coragem para mudar que me empolga nas pessoas.

Mesmo levando uma vida errante, elas anseiam pela coerência. A busca é a marca viva para sua existência. Os grandes e corajosos exploradores, inconformados com seu tempo e seu mundo viviam com esta paixão dentro de si. Infelizmente, Hemingway resolveu meter uma bala em sua cabeça, deixando a vida para entrar na história. Será que ele soube de Getúlio?

III
Voltando: ‘cuba libre’, além de uma expressão revolucionária, é a combinação paradoxal do melhor rum do mundo (o caribenho socialista) com a pior bebida da humanidade, a Coca-Cola capitalista norte-americana, pelo que ela representa para a saúde em geral. Uma infinidade de combinações a partir de ambas é possível, com diversos outros elementos como limão, gelo, sucos, diferentes frutas. Não há limites, desde que você seja criativo e corra os riscos. Cada um tempera sua cuba conforme desejar, apesar de existir um dosador universal para essas coisas.

O melhor do mundo pode estar nesta interface improvável, mas possível: um copo de socialismo com capitalismo, com limão e gelo! OK, talvez isso seja um exagero, mas reforça a metáfora: quem determinou que o mundo tenha que ser dividido entre “esquerda” e “direita”, ou que determinados anseios são legitimados apenas se condicionados ideológica e politicamente? Estes conceitos surgiram e foram historicamente plantados, servindo apenas para depois provocar divisões, caudilhos e guerras e um bando de chatos. Ideias devem ser consideradas como patrimônio histórico da humanidade, validadas pelo princípio maior da convivência pacífica e justa entre as pessoas.

Qual é o lado mais importante do cérebro? Devemos reaprender a ver a organicidade do pensamento e sua estreita correlação com o corpo humanitário.

Uma boa bebida favorece a diversão entre amigos e gera boas conversas. Mas em altas doses também serve para transformar qualquer idiota em uma mente brilhante, provocando aqueles intermináveis debates de final de festa, olhar taciturno, sobrancelhas franzidas, ares de sabedoria e bafo de onça: o bêbado chato. São os embriagados ideológicos e seus discursos intermináveis. O rum tira-lhes a autocrítica, a Coca os faz arrotar arrogância.

Não se sabe ao certo em que proporção a Coca e o rum misturados geram revoluções, porém ambas têm servido para muita discussão, rompantes de falsa sabedoria, declarações ‘finais’ sobre qualquer assunto a partir de fontes “confiáveis”, e tudo isso em meio a clichês de efeito. Como estratégia final, o chato-convicto sobe o tom de voz e, na medida em que faltam os argumentos, começa o ataque pessoal. Faz acusações que ninguém pode provar mas servem para desmoralizar. Bêbados narcisistas, sem autocrítica e embriagados pela presunção.

Em 1898, no processo da independência cubana da Espanha, os revolucionários insulares encontraram nos norte americanos um forte aliado. Sem eles, Cuba não alcançaria tão cedo sua autonomia. Porém, os USA tinham interesses específicos para tirar os espanhóis de cena na região. Cuba passou a ser tratada como uma sesmaria açucareira, com a visão capitalista mercantilista, baseada em latifúndios e mão de obra praticamente escrava. A ironia é que com isso as sementes da revolução por vir vieram da América do Norte.

Os cubanos continuaram pensando: de que adianta trocar uma dominação por outra? A ansiedade cresceu até transbordar na revolução: em 1959 o povo alcançou uma alternativa popular de governo depois de séculos de dominação. Saiu a espanha, saiu Fulgêncio, entrou Fidel. Saiu Kennedy e entrou Nikita Kruschev, no xadrez ideológico da segunda metade do século XX. Bispos e peões de cada lado continuaram servindo aos interesses dos respectivos novos reis, sempre os primeiros a serem sacrificados.

Confirmada a revolução, os americanos ficaram na maior ressaca. Engoliram goela abaixo galões e galões de rum, como perus na semana de ações de graça. Ressentidos e posando de vítimas, mas sem força moral, passaram a fazer a chantagem favorita do capitalismo: garrotearam comercialmente o povo cubano, criando e desenvolvendo criativas formas de bloqueio. Os Estados Unidos comportaram-se como um marido bêbado traído.  Por não poder se vingar diretamente da mulher, cortou sua doce pensão (compra do açúcar cubano) e passou a persegui-la, tentando-a fazer desistir de seu amante e abandonando a família à sua própria sorte.

Só que o amante era abastado e bancou a família cubana, mostrando sua virilidade na forma de mísseis eretos contra o capitalismo pragmático, que viu mais prejuízo que ganho em um eventual conflito armado. O sistema sempre dá um jeito de salvar sua pele.

Hemingway resolveu doar sua casa na ilha para o governo revolucionário, que foi transformada em museu em sua homenagem. Afinal, ele morou cerca de vinte anos em Cuba, numa relação de amor e ódio típica de amantes, dando notoriedade ao seu povo e seu rum, mesmo agora sem Coca-cola.

Junto com a Coreia do Norte, Cuba é o único país do mundo que não vende o famoso “capitalismo engarrafado!” É claro, isto oficialmente: no mercado negro ela é encontrada, após as devidas vênias propinais, sendo também tolerada em ambientes turísticos.

Curiosamente, em 1906 Cuba foi o segundo país do mundo a engarrafar a Coca-Cola fora do território americano, depois do Canadá. A revolução tirou a Coca de Cuba, mas não conseguiu tirar a Coca dos Cubanos: afinal, uma doce lembrança do capitalismo e sua liberdade de expressão com muito gelo ainda restava. Ademais, como continuar a tomar cuba livre sem a Coca?

Para evitar uma revolução dentro da revolução, liderada por consumidores em crise de abstinência, o partidão espertamente tratou de fabricar sua ‘Cola’, surgindo a “Tu-Kola” cubana. É uma bebida que possui a cor, embalagem e logo muito parecidas com a americana. Foi o jeitinho de manter a cuba livre.

Mas o melhor, intencionalmente ou não – acho que sim, afinal, todo revolucionário estuda muito – foi o duplo sentido do nome da Coca cubana, capaz de deixar qualquer turista maluco e o nativo com um sorrisinho sacana na boca. Foneticamente, “Tu-Kola”, soa literalmente, como “Teu-Rabo” (tu cola), ou então, “Tua-Fila” (muito apropriado, no Brasil também), ou, com certa liberdade, “Tua-bunda”!

IV
O bloqueio econômico à ilha imposto pelos Estados Unidos desde 1962 é uma das coisas mais anacrônicas e estúpidas feitas. Fica pior ainda com a mudança da conjuntura política mundial após a queda do Muro de Berlim em 1989, sinalizando o final da Guerra Fria. Atualmente, com exceção dos Estados Unidos, de Israel, das Ilhas Marshal e de Palau, existe uma resolução formal das Nações Unidas pelo fim do embargo, repetida já mais de 16 vezes. Na verdade, I. Marshal e Palau nem contam, pois são ilhas sob o protetorado dos EUA.

Os demais países, incluindo o Brasil de todos os governos, aceitam o embargo sem tomar medidas práticas. Não fazem isso por covardia comercial e por excesso de Coca-Cola em sua cuba livre. Diplomaticamente, nosso atual governo adotou uma postura pragmática relacionada ao comércio exterior e segue a cartilha dos USA, conforme disse o ex-presidente Lula: “se é bom para os americanos, deve ser bom para os brasileiros.”[1] Ele defendeu o direito do Governo brasileiro de também abocanhar o mercado chinês, independente do que ocorra internamente naquele país em termos de Direitos Humanos e democráticos.

Por que se pode fazer comércio com a China, mas não com Cuba? As explicações não possuem nenhuma lógica, nem na história, nem em lugar algum, a não ser, é claro, a lógica norte americana. A Águia pode estar depenada mas ainda voa.

Enquanto isso, a disputa boba entre esquerda e direita faz parecer que ainda existam estas facções no cenário político dominado pela economia de mercado globalizada. Partidos e militantes defendem pontos de vista anacrônicos com comportamentos estereotipados que remetem mais a torcidas organizas e seus cânticos de guerra. Fundamentos históricos ou  fatos são relativizados por opiniões casuísticas.

O que tem se nota, infelizmente, é a prática da intolerância-clichê: “sempre gostei de rum, não quero Coca-Cola”. Ou, “prefiro Coca e acho que tomadores de rum são bêbados.”

V
Percebemos e-militantes do twitter e do facebook muito rápidos para apoiar ou condenar muitas coisas, mas incapazes de mudar de comportamento e gerar em si mesmos a mudança que desejam. Basta conferir os indicadores sociais e comportamentais do brasileiro para perceber que a saúde cidadã de um povo anda na UTI. Estas pessoas, em geral, são adeptas das passeatas-de-poltrona, mas não estão dispostos a levar “Tu-Kola” para as ruas, para o trânsito, para as escolas e universidades. Pior: posam de intelectuais, mas, vivem do sistema. Condenam aquela moça cubana, apoiam a moça cubana, mas continuam fazendo as mesmas coisas.

Os capitalistas-socialistas, ou vice-versa, passam rapidamente do discuros social ao consumismo irracional. Continuam indiferentes às questões estruturais do país. Existe muito mais paixão e achismo pseudo-intelectual do que luz em toda essa conversa sobre a Yoani Sánchez cubana, seja de que lado for. Cada posição deseja apenas fortalecer sua trincheira ideológica.

O fato é que existem muito mais pessoas viciadas na Coca-cola capitalista do que no rum socialista, apesar dos males evidentes. Sei também que um copo de Coca é muito pior para a saúde do que a mesma quantidade de rum. Falei da saúde, não de trânsito – ou seja, conforme o contexto, evite um, outro, ou ambos. Educação crítica serve para discernir as dosagens conforme o contexto.

Mas pensar com crítica exige análise, flexibilidade e sabedoria. Temos excesso de serviços de inteligência, mas carecemos desesperadamente de sabedoria.

Um amigo da esquerda ultravioleta chama, com ares de seriedade, a Coca-cola de “o líquido negro do capitalismo”. Outro, mais radical ainda, já batizou o xaropão de “cloaca-cola”, sempre fazendo mais um ou dois comentários adicionais que é melhor deixar pra lá. Como qualquer bebida, você pode tomar até cair ou apenas saborear. É preciso saber discernir os mais de 50 tons de cinza no espectro cromático-ideológico da mistura da Coca com o Rum.

A mistura entre os dois ingredientes deve ser equilibrada até onde for possível – afinal, o rum cubano aliena aqueles que dele abusam, chegando a relatos de coma alcoólica que já dura mais de 50 anos, quando era ainda produzido em destilarias escondidas na Sierra Madre. Já o abuso da Coca torna as pessoas gordas, indolentes, insensíveis, mesmo entre os mais devotos religiosos. Em ambos os casos, o próximo é esquecido e abandonado em suas necessidades.

As pessoas rapidamente esquecem que viver debaixo de um sistema político, seja de esquerda ou de direita, significa submissão às suas formas de controle, de manipulação e de opressão: a alienação pelo discurso sem resultados práticos ou a insensibilidade e apatia decorrentes do conforto consumista que satisfaz os pecados da carne. Em ambos, a resistência crítica e o desejo de liberdade do sistema acarretam em opressão pela “reeducação” forçada, o pau de arara, o paredão real ou midiático, a prisão político-pedagógica, ou simplesmente a falência, a morte sumária, a infâmia diante dos seus.

Para a monoteísta esquerda, Deus existe na forma do culto personalista para o “pai” ou “grande líder”, ou ainda, como “chefe supremo” do povo. Sua ideo-teologia é a adoração cega, repleta de símbolos e relíquias espalhadas pela cidade e dentro de palácios. Qualquer desvio de culto fora do livrinho vermelho é considerado apostasia, passível de “autocrítica”, ostracismo ou apedrejamento público. O Socialismo é seu único Deus e o Estado é seu profeta. Não há salvação fora do partidão, que é dirigido por profetas mosaicamente incumbidos da libertação do povo, que vive enganado na terra da servidão cocacolonense.

O poder é mantido na litúrgica burocracia estatal. A coesão dos cidadãos é pela força do patrulhamento ideológico. As bênçãos e as graças são concedidas na forma de cargos aos devotos mais fieis. O povo vive às custas das grandes realizações do grande Pai-estado, a quem sacrifica seu livre pensar. Todos são iguais, cada um na sua categoria de igualdade. Os líderes são mais iguais dentre os iguais e regulam os pecados alheios perdoando os próprios desvios em nome da sua idéia de ordem e do progresso.

No socialismo-comunismo as igrejas não existem oficialmente, ou funcionam modestamente sob controle do estado, que é intolerante com outras formas de culto. Sua fé é subversiva e cada crente é um ministro e cada casa é uma igreja, sem necessidade de mediadores. O carisma, ou a graça, é a marca de serviço uns aos outros.

No Capitalismo Politeísta, os deuses tornam as coisas um pouco mais complexas. A ideologia é a do individualismo, o self-made-man. O mítico “Homem de Malboro” representa o missionário heroico que conquistou sozinho a tribo inteira. A pessoa é o que ela tem, e a liturgia capitalista inclui solenidade com o sacrifício estoico do tempo, da família, dos amigos e da saúde aos deuses do Mercado. O ideal de vida é a fama, a prosperidade e a fortuna. O sucesso é medido pela quantidade de sexo, dinheiro e poder. O trabalho e a terra não são do homem, mas produtos de mercado: o mercado paga quanto?

O Dolar é o seu Deus e o Mercado é seu profeta: in god we trust! Não há salvação fora do capital. O profeta mercado, em sua missão de libertação do povo da pobreza, governa, escravisa e distribui bênçãos na forma de fidelização do cliente e prêmios. A liberdade é para todos que possuem dinheiro. Pequenos deuses são adorados e estão distribuídos em casas de habitantes orgulhosos por mostrarem suas últimas ultramodernas aquisições.

Pensamentos discordantes existem apenas se ficarem também no mundo das ideias. Os  exagerados e iludidos que ousam dizer que um pouco de rum pode fazer bem à saúde são prontamente rechaçados, ridicularizados, perdem seus direitos e são suicidados ou mortos “acidentalmente”. Fruto da culpa institucionalizada, foi criada a ‘responsabilidade social’, que é um setor na sociedade que cumpre a função de aliviar consciências culpadas pelo resultado óbvio das operações financeiras e consumismo: a miséria e a pobreza. Mas quando entra um pouco de rum a mais na cuba livre, o estado trata de distribuir bolsas de tosos os tipos, enquanto o povo gostaria mesmo é de ter dinheiro para colocar nas bolsas.

As igrejas capitalistas são toleradas e mantêm seus ritos exploratórios acendendo incensos a Mamon atrás dos altares a Jesus. Mamon é como o Deus Dólar era conhecido nos tempos bíblicos. Ao associarem culpa ao dinheiro, as confissões arrecadam usando estratégias comerciais de primeira linha, adaptadas ao seu público alvo e seu nicho de mercado, em troca de produtos bem elaborados. Literalmente, algumas usam um eficiente marketing infernal.

O discurso de prosperidade de umas não é diferente do discurso de piedade de outras, já que se movem pelo mesmo objetivo final. A voz suave, a luz de velas, o gospel light e o culto com decência e ordem servem para manter estruturas cada vez maiores e feudos denominacionais que de vez em quando entram em guerra pelo espaço e pelas almas dos aldeões. Templos milionários e teólogos bem formados justificam a teologia de mercado. É a lógica do capital: a ostentação é sinal de poder e sucesso da denominação-empresa.

Já que no final é a grana que importa, o jogo de sedução é mais gostoso que o estupro sem preliminares para fiéis cada vez mais acostumados às bacanais, verdadeiras orgias de arrecadação dominical.

VI
Por algum motivo misterioso o tropicalista Caetano resolveu que a vida era mais Alegria, Alegria, ao cantar “Eu tomo uma Coca-Cola, ela pensa em casamento”, em 1967. Tomar Coca caiu de vez no gosto da juventude e mesmo Fidel devia tomar uns goles brindando a cada deserção do exército de Fulgêncio durante a luta revolucionária.

O que pode ser diferente, daqui pra frente, minha gente, é repensarmos nossas “clássicas” posições, entendendo que, afinal de contas, o discurso sectário serve apenas para alimentar o sistema segregacionista das ideologias de sempre. E como já disse o profeta Capitão Nascimento, o sistema é phoda!

Tanto o rum como a Coca partem da mesma matriz, a cana de açúcar. O rum é feito do melado cozido e fermentado da cana. Já a cachaça é feita com o “caldo de cana” fresco, a garapa, que vai para o alambique sem passar pelo fase do melaço cozido. E o açúcar segue seu próprio caminho. No final todos se encontram amorosamente no mesmo copo existencial, selando com um beijo o reencontro.

Ora, o açúcar compõem em altas doses a fórmula da Coca. E toda discussão passa a ser, em suma, sobre a mesma cana e a capacidade ideológica de cada parte de dar cana a quem pensa ou bebe diferente. Uma contradição, seja na metáfora ou na prática.

Isso nos dá uma boa pista: a humanidade é a mesma, na essência somos todos irmãos e partilhamos da mesma matriz. Diferimos nas experiências, na cultura, na cosmovisão e em mais em um punhado de coisas que não são essenciais. Bebemos do mesmo barril e vivemos no mesmo Brasil.

A melhor síntese, não apenas relacionado à passagem daquela moça cubana no Brasil, mas aplicada a qualquer grupo, ideologia, teologia, ou situações de conflito: Viva Cuba Livre, Rum & Coca-Cola, a qualidade está na mistura, no equilíbrio, na humanidade da bebida. E sempre poderemos optar simplesmente em beber água e nos divertir junto com os demais.

O conflito interessa apenas às lideranças e aos opressores de sempre, que incitam com seu discurso a manutenção do seu poder. Deixem o povo beber, se divertir e construir um mundo melhor.

A vida é curta, e deve ser apreciada sem moderação.



[1] Lula citando uma antiga frase e referindo-se ao acordo comercial feito com a China, na seção de perguntas e respostas ocorrida no National Press Club, Washington, em 10 de dezembro de 2002.