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quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Uma (epis)tola aos amigos e irmãos do Caminho!

Os Dez Mandamentos têm sido um desafio, reconheço. Então, permitam-me ponderar algumas coisas, senti que devia fazer isso. Falo e penso pra mim mesmo...

Antes, uma xícara de café – pronto? Então:

A Bíblia é um livro fantástico, escrita por pecadores dirigidos pela mão de Deus. Possui revelações e mistérios. Possui princípios e mandamentos. Possui morte e vida. Do Gênesis ao Apocalipse, contudo, existe uma narrativa ‘espinha de peixe’: a história de cada um intercalada por (in)finitas inserções ao longo do caminho, um acontecimento inicial que leva a um determinado destino conforme as decisões de cada pessoa, que vai escrevendo sua vida de A a Z.

Tudo começou com um homem – Adão (entenda-o aqui como desejar, o primeiro homem, um troglodita bem intencionado, um símio fanfarrão...,  mas ele estava lá). Bom, depois veio outro homem, Jesus Cristo, como se fosse um segundo Adão, um novo começo. E termina sempre com um terceiro homem-personagem: você, eu, cada um de nós.

O que esses três homens possuem em comum, separados por milhares de anos? A capacidade de decidir, de transformar as coisas e o curso de sua vida e, quem sabe, da vida de outras pessoas. Fomos criados com a capacidade de tomar decisões, não somos robôs programados para determinadas tarefas e outras não. Em Cristo podemos todas as coisas, mas não devemos fazer qualquer coisa.
Podemos viver sem nenhum referencial, apenas reagindo a estímulos internos e externos, protegendo e cuidando dos queridos de nossa tribo e matando os inimigos: trogloditas modernos, animais instintivos e implacáveis, sobreviventes num mundo cruel.

Mas podemos decidir refrear nossa índole primitiva, fazendo outras escolhas e seguindo outras estradas, outros caminhos, mesmo que em dias de denso nevoeiro. Muitas vezes, percebemos o traçado do caminho apenas quando olhamos o trecho percorrido.

Se decido ir em alguma direção e me submeter a algum controle (não o social, esse é para todos, descontados os psicopatas), então devo escolher os referenciais. O que nos mantém no caminho são as referências: placas, sinalizações, o hodômetro do carro, a paisagem, todas essas coisas somadas nos dão a certeza que prosseguimos para onde planejamos ir.

E quando não existem referenciais externos? Aí usamos alguma bússola moral, ou espiritual, ou ambas. Mas deixemos a moral de lado – ela deriva da espiritual, que é mais profunda e ambígua: afinal, navegar é preciso, viver não é preciso, como diria Fernando, uma Pessoa que passou a vida a combater três grandes vilões: a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Mas voltemos à Bíblia e, mais precisamente, aos Dez Mandamentos: eles são como sinais e referenciais que escolhemos seguir, ou não, conforme nossas conveniências. Eles são apenas indicadores de um caminho. Mas caminhos levam a algum destino! Então a pergunta imperativa não é se os indicadores – sinais são válidos ou não, mas se estamos no caminho certo para atingir nosso destino e poder entender o que esses sinais significam.

Afinal, qualquer sinalização apenas tem sentido se está na rodovia certa. De que adianta a placa “Proibido Ultrapassar” se estamos em uma via de mão única? Ou, “Para Florianópolis mantenha-se à direita” se estamos cruzando os Alpes entre a Suíça e a Itália? Ou ainda, “Velocidade máxima 60” se estamos em uma Autobahn na Alemanha, onde a velocidade é livre?

Antes de compreendermos e escolhermos seguir determinada sinalização, precisamos saber se ela é coerente com o destino escolhido: a escolha do caminho depende do destino final que almejamos. Podia ser que todos os caminhos levassem a Roma, mas sabemos que nem todos levam a Deus.

Jesus disse:  - Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim (Jo 14.6). Para onde desejamos ir? Essa é a primeira pergunta. Depois, a escolha do caminho que para lá nos levará deverá ser feita, observando os sinais ou indicadores deste caminho.

A Lei dada por Deus foram as primeiras sinalizações para orientar seu povo no caminho da Terra Prometida, mas ainda era incompleta. Hoje ela apenas indica, com todas as suas incertezas e possibilidades de interpretações, que estamos num determinado momento de nossa jornada espiritual, aprendendo o caminho da disciplina, ajudando uns aos outros a aprenderem limites, a não ultrapassar em certos momentos, ir mais devagar ali ou acolá. Diz também que existem radares, sensores, como os “pardais” celestiais, que nos pegarão se ultrapassarmos certos limites. Coisa para quem ainda não tem plena consciência de sua cidadania celestial e maturidade para caminhar por conta própria, como crianças.

Controle e a vigilância é pra quem está começando a caminhada, apenas para trazer um pouco de ordem e evitar desastres uns com os outros e acidentes pessoais: “- porque a Lei foi dada por Moisés; a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Depois da Lei, a graça e a Verdade nos guiam na medida que amadurecemos.

Com a maturidade, que nada mais é que aprender a conhecer e discernir o caminho “de olhos fechados”, não precisamos mais ficar atentos a tantos sinais: sabemos, por experiência, que estamos na direção certa e começamos a apreciar também a paisagem e deixar tantas placas de lado. A velocidade, as ultrapassagens, os retornos, as conversões (ops!), sabemos já como agir, o que fazer, o que evitar. É até mesmo possível que encontremos outros trajetos sem perdermos a direção.

Por isso Jesus (Lucas 10.27) e Paulo (Gálatas 5.14) resumem bem: Amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a você mesmo.
Nem todos somos Fernando, mas somos pessoas, navegadores em uma vida imprecisa, e a bússola espiritual nos guia pois sabemos qual é nosso destino!

E termino contando uma historinha, tentando resumir:

Um dia Alice, aquela do País das Maravilhas do conto de Lewis Carol, chegou a uma encruzilhada. Havia placas indicando muitos caminhos, e ela parou, em dúvida. Vendo o Sr. Gato em cima da árvore,  ela perguntou:
- Sr. Gato, qual caminho eu devo pegar?
Em vez de responder, o Sr. Gato perguntou:
- Alice, para onde você está indo?
- Eu não sei..., ela disse.
O Gato, piscando: - Então, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve!

Abraços.