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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Pais & filhos



Só vou voltar depois das três (...)

Todos os dias, todas as noites, milhares de adolescentes e jovens saem de casa, perambulando por ruas, baladas, carros, festas, botecos, programas. A pé, de ônibus, de carro, cada um conforme sua condição socioeconômica, mas todos se aventurando de uma maneira ou de outra e vivenciando situações de risco físico ou psicológico. Na maioria das vezes chegam depois em casa, sóbrios ou bêbados, felizes pela liberdade consentida, tolerada ou ignorada por seus pais.

Alguns, porém, não voltam para casa. Cabe aos pais a triste missão de reconhecê-los em necrotérios ou cenas de acidentes. Alguns filhos simplesmente desaparecem para sempre, o pior dos cenários, impedindo o luto que também traz a possibilidade de cura ao fechar um ciclo. Não falo das tragédias inevitáveis, inerentes ao ser e à existência humana. Mas das que poderiam ter sido evitadas.

Conforme a classe social, o noticiário alimenta a dor e a tragédia buscando culpar o Estado, a bebida, o tráfico, o excesso de velocidade, as “amizades erradas”, ou genericamente, “a violência”. De forma quase unânime, até para se respeitar a dor da perda, buscam-se culpados fora do ambiente doméstico. Falar de uma possível responsabilidade dos pais nessa hora é um tabu, seja em que ambiente for: “o que seu filhos adolescente estava fazendo na rua às três horas da manhã?”

Mas é preciso ter coragem e ousadia. É preciso considerar a possibilidade. E é preciso reconhecer e colocar para fora o que está silenciosamente na mente de pais e mães após uma tragédia com seus filhos: será que esta tragédia poderia ter sido evitada?

Algumas vezes, não. Mas em muitas situações, sim! 

Vivemos hoje uma situação narcisista de pais que pensam apenas em si: muitos filhos vieram para resolver algum problema do casamento, ou por imposição social. Ou foram resultado de namoros, festas, bebedeiras ou qualquer outra irresponsabilidade em nome da liberdade e da alegria. Ninguém questiona comportamentos e é proibido proibir. Recusando-se a amadurecer e aprender com seus erros, estes pais, jovens ou não, continuam depois a alimentar seu narcisismo.

Desejam que seus filhos sejam seus amigos e confidentes. Nada contra a “amizade” com filhos e filhas, mas ela deve ser subordinada ao papel de pais. A paternidade responsável possui regras, limites, horários, comportamentos aceitáveis para uma convivência familiar sadia em uma sociedade cada vez mais sem normas.

Os pais acabaram seduzidos por psicologias baratas estritamente comerciais, gerando mensagens confusas para seus filhos. Infantilizados, desculpam-se com conceitos como “tempo de qualidade” para justificar sua ausência. Na verdade, ao abandonar os rígidos limites de gerações “castradoras” do passado abandonaram também sua responsabilidade de criar filhos e filhas com ética e valores sociais adequados à construção de uma sociedade que compartilha o mesmo teto.

Muitas instituições alimentam a alienação dos pais e a distância com os filhos. Além da correria semanal, nos finais de semana existe a correria das igrejas, dos clubes, das associações: pais e filhos deixam de conviver  uns com os outros pois precisam cumprir uma agenda apertada de reuniões e programas, paradoxalmente, focados "na família"! 

Como disse Sergio Sinay*, pais confusos confundem “cumplicidade com amor, condescendência afetiva com presença emocional e autonomia pessoal com ausência de vínculos”. Em outras palavras, não fazem nada que possa gerar algum tipo de “trauma, conflito ou decepção” ao filhinho/a mimado. Praticamente transferem aos filhos a responsabilidade de criarem-se a si mesmos. Ou terceirizam sua responsabilidade à escola ou igrejas.

Pais investem na educação centrada na aparência, ou na desculpa de permitir aos filhos “vivências” sociais necessárias à sua inserção em um mercado altamente competitivo. Afinal, os filhos devem aprender a “serem eles mesmos”! Gastam nas melhores escolas, melhores cursos, viagens sem fim de seus pimpolhos, para receberem o olhar de admiração de colegas e amigos. Mas não sabem o que fazer com eles quando estão todos juntos.

Esses pais passaram a temer seus filhos, imitá-los (até no vestuário!), assimilar suas preferências, vivendo debaixo da tirania de uma sociedade de consumo que impõe produtos, parafernália e experiências “necessárias e importantes” para sua formação. Por serem narcisistas, sucumbem aos modismos mercadológicos para serem aceitos diante dos outros pais. 
Depois ficam horrorizados quando os filhos se matam, roubam, traficam, promiscuem, embebedam-se, e chegam em casa com netos precoces.

Esses filhos, sem exemplo e referências em casa, buscam então ídolos que são tão consistentes como a fumaça do baseado ou que já morreram de overdose. Aprendem a manipular pais passivos que aceitam essa manipulação devido a sentimentos de culpa.

Filhos mimados e com acessos de birra aprenderam a manipular seus pais dando ‘shows’ em shoppings, festas ou reuniões de família para conseguirem a satisfação de seus desejos. Depois, tornam-se assassinos de outros filhos através da ira misturada a drogas, álcool, armas ou direção irresponsável. Por não terem tido limites e educação em casa, tornam-se políticos corruptos, bandidos, manipuladores midiáticos, sexistas, reproduzindo uma sociedade de consumo sem limites e que existe para lhes satisfazer os desejos.

Quando esses filhos soltos e irresponsáveis finalmente enfrentam uma situação de risco que escapa ao controle, acontecem as tragédias para si e para outros inocentes passivos em seu caminho. Aí, tardiamente, alguns pais despertam.

Ficam perplexos, atordoados, sem entender o que aconteceu, buscando culpados fora de casa. O caminho é, um dia, acordar e começar a fazer as perguntas pós-tragédias antes das mesmas acontecerem: como fui deixar meu filho/a tomar decisões que competiam a mim?

Será que...
(...) São meus filhos
Que tomam conta de mim (?).
(Pais e Filhos, Legião Urbana)

*Sergio Sinay - A Sociedade dos Filhos Órfãos. Best Seller.