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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sobre a pedra


Estive em dois funerais recentemente. Um cristão, outro judaico. Privilégio de quem observa e não está diretamente envolvido no clima emocional, percebi cada um com seus detalhes,  apesar de compartilhar a dor e a tristeza dos meus queridos amigos e suas imensas perdas: dois pais, muito triste.

A morte, inevitável companheira para a travessia final, sempre está ao nosso lado. Da mesma forma, a vida. Cada um é tocado por ambas diferentemente durante sua existência, reagindo conforme os condicionamentos e aprendizados adquiridos, até que uma das duas nos leve adiante.

No enterro judaico, durante o caminho para a sepultura, as conversas eram raras e a solenidade tomava conta do ambiente. Meu amigo ofereceu-me um kippah, coloquei-o. Falava-se baixo e no caminho até a sepultura ocorreram diversas pausas seguidas de orações, pareciam hesitar em deixar o morto seguir seu destino ao pó. Caixão na terra, sem laje ou cimento. Achei o simbolismo muito rico.

No ofício cristão, dentro da capela o clima era mais descontraído, algumas pessoas falando alto, risadas e brincadeiras entre conhecidos tentavam evitar o tema daquele encontro numa fria e chuvosa tarde. Fui persuadido pelo oficiante e pelos familiares a participar da cerimônia. Divididas as falas da solenidade, passou-se ao oficio fúnebre. Num determinado momento o oficiante me chama para conduzir uma parte e, ops..., não era hora: era o momento de a filha trazer um testemunho sobre o pai falecido. A vermelhidão traiu a pressa do pastor, mas o sorriso da filha em minha direção dissipou qualquer tensão.

Achando que a fala alongava-se, novamente o oficiante chegou-se a mim e sussurrou-me ao ouvido: “-chega perto para ela saber que já deve ir encerrando”. O que é que tinha de errado com ele, pensei? Olhei para a amiga, lágrimas escorrendo em seu rosto e voz embargada ao contar a dramática história de seu pai, professor perseguido por militares em Santa Catarina durante o período do golpe militar. Resisti à idéia e respondi: quando ela terminar está bom, vamos aguardar. Eu estava aproveitando o Kairós e nem um pouco preocupado com o Cronos.

Enquanto ela falava, reparei que o corpo estava depositado sobre um pesado bloco de pedra. Não pensei em repouso, mas em origens. Michelangelo e suas esculturas vieram à mente, Davi, Pietá, Moises e tantas outras igualmente extraídas da rocha, pacientemente, com arte, martelo e cinzel. O corpo morto deitado sobre o granito deu-me uma breve visão da vida e das pessoas. Ali estava deitado um homem que viera do pó.

Nascemos pedras brutas. Diferentes mãos, o martelo do tempo e muitos cinzéis vão dando forma ao bloco do qual somos extraídos. As primeiras batidas são dadas pelos pais, esculpindo seus filhos com algumas imagens na cabeça: desejam que ele seja “alguém. Cabe a eles começar o trabalho e apresentar sua arte para o mundo. Faltam muito detalhes, mas a estrutura básica está lá. Eventuais trincas surgem neste processo e serão levadas vida afora, pois o bloco não pode ser substituído. Ano após ano os pais vão trabalhando, toc, toc, toc...

Com certa força e habilidade eles vão dando forma e conteúdo ao ser. Então um dia essa pessoa em construção será levada para a escola. Surgem outras crises, novas rachaduras no granito: o sistema educacional e os amigos darão suas marteladas com uma visão diferenciada da dos pais, usando outros cinzéis, tec, tec, tec...

Ao longo dos anos, a família e o sistema educacional vão trabalhando o granito, cada um com suas marteladas, muitas vezes um desmanchando o trabalho do outro. Depois de muitas pancadas e pó, a rocha adquire forma definida, uma pessoa: de pedra! Ela também aprende a usar as ferramentas do processo e vai batendo e lapidando a si própria, trabalhando detalhes: tic, tic, tic...

De vez em quando, entrega o cinzel para outros: a esposa, o marido, um patrão e por aí vai. Ela mesma aprende a dar marteladinhas nas esculturas alheias. A habilidade de cada um em permitir ou não que mãos estranhas interfiram em sua estrutura determinará cada vez mais a sua forma final. O mercado, o trabalho e a vida vão fazendo sua parte sem pedir licença: tac, tac, tac..., em ciclos até soar a última martelada.

Tocs e tecs das talhadeiras, tics e tacs do tempo, revelando a pessoa-produto da família, sistema educacional e profissionalização: foram talhados para o trabalho! A estátua é destinada para seu fim e exposta em salas, fábricas, consultórios, cabines, praças, fábricas, ruas, quartéis, cada uma ocupando seu espaço. O Mercado produz ídolos com o seu toque, como uma grande Medusa que transforma em pedra todos os que dela se aproximam.

Cada um assume uma forma, lapidados por condicionamentos seculares. Interessante é que a cor do granito e sua origem determinam seu valor. Algumas pessoas possuem riqueza de detalhes, outras, mais brutas, são usadas para fins menos nobres. O domínio da estética sobre a ética fascina mais do que o contrário.

Porém existe um mistério, que ainda fascina as pessoas. Por algum motivo, algumas estátuas começam a escutar o silêncio, percebendo sons inaudíveis. É um som surdo, denso, rítmico, tuc, tutuc, tuc... tuc, tutuc, tuc...

Que som é esse? Como em um momento de iluminação, a origem é finalmente identificada por quem procura: vem de dentro da estátua, um som abafado, contido, como se fosse um código, o código da vida. Um coração batendo, desejando sair de sua cápsula de pedra, tuc, tutuc, tuc!

Por algum motivo inexplicável há vida dentro da pedra. Porém, camadas de rocha impedem o acesso ao interior e se alguém desejar libertar o coração, o peito deverá ser aberto. A estátua, porém, corre o risco de se partir: a ousadia pode custar caro. Mas na vida tudo que é bom é arriscado.

Estruturas que aprisionam, escravizam e determinam comportamentos devem ser partidas para liberar a vida. Quem não estiver disposto a sacrificar seus ídolos não poderá crescer, mas quem desejar correr o risco verá o coração de pedra transformar-se em um coração de carne e vibrante. Quem ouve o silêncio interior chega a um momento de escolha. Cada pessoa deverá olhar para dentro de si e tomar sua decisão: continuar idolatrando o TER ou reconhecer que um novo caminho pode ser trilhado. A verdadeira crise não é externa, mas interna: é a crise da consciência e da coerência, despertando para a nova vida, para o SER.

Superar esta crise exige renúncia. Libertar-se de tantos condicionamentos exige disciplina. Cada passo nesse caminho é como a martelada com o cinzel no peito, dia a dia, até atingir o coração e libertá-lo. Neste momento um milagre acontece: o corpo adquire sensibilidade, flexibilidade e consegue sair da rocha! É a vida saindo da rocha como o Cristo ressurreto, após morrer para si mesmo.

É preciso saber pausar, é preciso aprender a ouvir, é preciso sentir. A pausa dará a capacidade de perceber os sons da alma e o ritmo da vida, mesmo em meio ao burburinho do dia a dia. Entramos no mundo através da primeira inspiração, e dele saímos entregando a última expiração. Temos a data de entrada, mas não sabemos a da saída.

Viver é ter consciência do que é feito no intervalo deste breve momento. 

2 comentários:

  1. A figura do martelo e do cinzel faz bastante sentido, e de certa maneira e' confortante: sem a dor de cada cinzelada, o verdadeiro ser que somos permanece encoberto por camadas de pedra sem identidade. Abracos, mano.

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  2. Carlos Nascimento22 de junho de 2012 22:21

    Texto maravilhoso, que sutileza de detalhes e que felicidade na analogia, parabéns meu amigo....

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