Seguidores

sábado, 2 de junho de 2012

Eu não marcho, ando!

   *

Eu não marcho, ando.

Como "marcha" gospel, a ação “Marcha Para Jesus” está coerente com sua proposta. O ‘Jesus marchado’ é o JG, o queridinho e insonso "Jesus Gospel", o cara das paradas de sucesso e campeão de vendas. Se em 1990 o ‘Engenheiros do Hawaii’ descobriu que o Papa é Pop, hoje sabemos que Pop é Jesus!

O nome-de-jesus vende qualquer coisa: salvação, bandas, músicas, teologias, prosperidade, igrejas, denominações, propriedades. Vende viagens, veículos, camisetas, livros e pirulitos. Vende graças, curas e bênçãos no atacado e no varejo. O nome-de-jesus é hétero, é gay, é milionário, é pobre, é opressor e oprimido, é discurso, vende até atitude. Vamos alavancar as vendas e marchar, mostrando a força de nossos produtos!

Jesus é Pop, Jesus é gospel, o nome-de-jesus vende. Aproveitem a liquidação, do Gólgota aos Shoppings, de Jerusalém para o mundo, Jesus-for-sale! O nome de Jesus não é mais o nome sobre todo nome, apenas a marca sobre qualquer outra marca: lascas da cruz com o nome de Jesus!

No nome-de-jesus se elegem e trocam-se votos e favores, fundam-se e derrubam-se impérios e nações, justificam-se homicídios em nome de guerras santas e omissões em nome da missão.

No nome-de-jesus abrem-se e fecham-se faculdades teológicas, admiráveis mundos novos de vocações ancestrais. Pra estudar tem que pagar, invista em sua carreira! Não tem grana, não tem vocação. No rito do poder, fantasiados de pompa e solenidade, mestres e doutores trocam títulos entre si e pavoneiam-se em rapapés, arrogantes 'memes fuckyea'.

No nome-de-jesus campanhas bem intencionadas são feitas, alimentos, roupas, panelas, brinquedos para todos, relatórios apaziguadores para os contribuintes, mas não se mudam os hábitos consumistas-alimentares de uma geração glutona cuja fome é o planeta. Doam-se as sobras de mesas fartas para instituições que terceirizaram o bem fazer. A culpa é paga mensalmente em templos cada vez maiores, aceita-se cash, carnê e cartões de crédito: amortize sua culpa em até dez vezes! Dízimo com quem andas e te direi quem és.

No nome-de-jesus a unidade cristã é vendida em algumas horas de marcha, mas quem paga a conta é a hipocrisia ao longo do ano. Depois da festa, cada um vai para sua trincheira teológica, como gado obediente recolhendo-se ao curral no final do dia.

É esse Jesus Pop que marcha pregado pelos arautos do “Féstfood”, ajustados à demanda do mercado. Os templos tornaram-se verdadeiras zonas-fazendas de conforto. Neles são arrebanhados crentes e teólogos, gente sincera e gente com muita cera, cada um se acomodando em seu espaço. Pessoas descoladas, revoltadas, caretas, iludidas, doentes e ativistas de teatro que também aprendem a representar uma fé conveniente a cada ocasião.

A igreja confundiu-se com templo e denominação. Nela se refugiam corajosos visionários de outrora, touros indomáveis, agora domesticados, castrados, bois reacionários de plantão. Saem de seus redis para marcharem com suas torcidas organizadas, mostrando a força e as cores de seu time. O boi manso, depois de servir aos propósitos alheios, segue para o abate mugindo tristemente. Ao fundo, ouve-se acanção lamento do Profeta Zé Ramalho, Admirável Gado Novo, misturado e religioso.

Sapateados e coreografias ensaiadas, dentro e fora dos templos, anunciam bem alto, Jesus is Pop, Jesus is chic! Jesus se transformou no ícone mais popular do século XX e entrou no século XXI com a força de um tsunami, Jesus Chic is the Latest Fashion Trend! T-Shirts for sale!

Jesus Pop, Jesus Chic, a marca mais transada do mercado! Produto de marketing com um apelo de consumo irresistível: a aparência do bem. Poderiam começar a vender camisetas e charutos, CHE-sus, viva la revolucion, vamos conquistar o mundo, vamos eleger os discípulos de Jesus Pop! - Zaqueu, desce desse carro de som! – Quem, eu? Tá me confundindo, meu lugar é no topo, sou filho do rei!

O barbudo de Cuba marchou, foi preso e acabou fuzilado. O barbudo da Galiléia marchou, foi preso e acabou crucificado. Mas ambos não marcharam apenas um dia, uma vez por ano: andaram todos os dias, semana após semana, ano após ano até encontrarem seu destino. Foram coerentes com sua missão. Os dois conheciam muito bem os riscos de seu caminho e abraçaram conscientemente seu destino, sem direito a racionalização, escorregadelas teológicas ou políticas na hora do aperto.

Marchar uma vez por ano fazendo barulho com as pomponetes e atraindo a mídia é gospel, é pop, é voto. Mas atenção, o ministério evangélico adverte: barbudos andarilhos acabam fuzilados ou crucificados, afastem-se deles!

"Se alguém quiser andar comigo, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.” Acho que isso é um pouco diferente do que seguir um carro de som, gritar palavras de ordem, rezar nas ruas e ser contra gays e maconheiros. Jesus é Pop, mas a cruz não é. Jesus é in, a cruz é out, fora dos centros de consumo. Alternativas?  

Ao invés de apenas uma vez por ano, com saudações mútuas nas praças, as marchas deveriam se transformar em caminhadas de vida: ocupando favelas, abraçando seus irmãos e entregando alimentos, roupas e brinquedos diretamente a quem precisa. Ocupando espaços e ruas abandonados, plantando árvores e flores. Ocupando cargos públicos com ética e preocupação com cidades e mundos sustentáveis, fazendo uma limpeza nos poderes.

Ocupem rios e mananciais com ações de limpeza. Pintem prédios pichados, restaurem escolas e creches abandonadas. Consolem os doentes, visitem os presos, acolham crianças, órfãos e viúvas abandonadas. Separem o lixo, reduzam o consumo, construam cisternas e fontes, parques e jardins. Andem à noite, muitas noites seguidas, levando luz onde as trevas dominam. Expulsem de seu meio aqueles que, dizendo-se ‘irmão’, não passam de oportunistas.

Marchar para Jesus uma vez por ano ou aos domingos é fácil e conveniente. Andar com ele dia a dia, a vida inteira, é outra história. Experimenta marchar outros fins de semana para algum lugar diferente do seu templo, da sua zona de conforto, de sua Meca semanal. Ande dia a dia com ética, dignidade, honestidade, trabalho, partilha e gentileza.

Pula fora do caminhão-de-som existencial, aprenda ouvir e fazer perguntas, deixe o vento fresco bater em seu rosto, sinta a terra em seus pés. A realidade está lá fora. Sorria e comece a ter tempo para sair com os amigos, reúna-se sem agenda religiosa. Transforme orações e cânticos em atitudes.

Que a marcha se torne uma caminhada sem pressa, atenta à paisagem, às pessoas, aos sons e às cores. Quando você começar a despertar e tomar consciência você encontrará o Caminho. E quem encontra o Caminho não precisa mais marchar, pois chegou ao seu destino.

PS: aos familiares, amigos e irmãos que ainda transitam nas instituições: sei que são sinceros, sei que algumas coisas boas acontecem, mas sei também que um dia tudo isso passará e vocês encontrarão sentido e descanso para suas almas.
*Foto: Friendships are essential to our sense of who we are. Photograph: Guardian

Um comentário:

  1. Tem sido um desafio criar filhos cristaos sem ser membros de insituicoes com as quais nao mais me identifico.

    ResponderExcluir