Seguidores

terça-feira, 3 de abril de 2012

Páscoa: Frutos e Sombras no Caminho

Um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha. Foi procurar fruto nela, e não achou nenhum. Por isso disse ao que cuidava da vinha: ‘Já faz três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não acho. Corte-a! Por que deixá-la inutilizar a terra? Respondeu o homem: ‘Senhor, deixe-a por mais um ano, e eu cavarei ao redor dela e a adubarei. Se der fruto no ano que vem, muito bem! Se não, corte-a’! Lucas 13.6-9. Viu de longe uma figueira cheia de folhas e foi até lá para ver se havia figos. Quando chegou perto, encontrou somente folhas porque não era tempo de figos. Então disse à figueira: - Que nunca mais ninguém coma das suas frutas! E os seus discípulos ouviram isso. Mc 11.13,14

O fundamento maior do cristianismo não é a encarnação da Palavra de Deus entre nós, mas a Palavra encarnada em cada um de nós. Não é o Natal, mas a Páscoa! Se no Natal temos a promessa, na Páscoa temos sua concretização, como disse Paulo, “se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm.” Entre um evento e outro está escrita a história da nossa redenção.

Nossa jornada espiritual tem início com o Natal: o Verbo foi semeado em nosso meio e começou a crescer. Como você sabe, a promessa da semente não é uma nova árvore, mas, um novo fruto com novas sementes, em uma espiral cíclica eterna. Em outras palavras, a promessa da semente é nova vida e não apenas crescer pra fazer sombra!

Próximo à Pascoa, Jesus alertou: a figueira sem frutos não completou sua missão. Uma árvore sem frutos é uma existência ensimesmada, e por mais que possa oferecer algum benefício não cumpre sua missão: frutificar e lançar ao solo novas sementes. Desta forma, irá secar e desaparecer. Dura metáfora às vésperas da Paixão.

A ressurreição é a explosão da sementeira de Deus, o cumprimento do ciclo da vida, a transformação da semente! A semente deu sua árvore, a árvore deu seu fruto que cresceu, amadureceu, caiu no solo, morreu. Ao morrer, novas sementes foram lançadas: uma, duas, dezenas, centenas, milhares, milhões que também completam seu ciclo: morrer para si mesmas e gerar novas árvores frutíferas. A Páscoa é a celebração da eternidade em nós, sementes que morrem para gerar vida por meio de um caminhar diário de fé.

O trabalho que temos diante de nós é o cuidado com nossa árvore-corpo. Esta árvore faz parte de um sistema complexo e interdependente e deve gerar bons frutos. Nosso oikos-habitat exige cuidados uns com os outros, galhos entrelaçados que se amparam. Exige cuidado de todos com a terra onde estamos inseridos e de onde tiramos nosso sustento. Viemos da terra e a ela retornaremos, é o destino da semente. Somos jardineiros e somos também as árvores do jardim. A construção de relacionamentos que possam gerar frutos é a responsabilidade maior que devemos ter enquanto vivemos e aguardamos nossa própria Páscoa.

Para gerar bons frutos, frutos que permaneçam, devemos acolher com naturalidade a dimensão sacrificial da existência: a semente deve morrer. O sacrifício é inerente à vida. A vida é feita de escolhas e cada escolha deve ser a renúncia madura a tudo mais em favor de uma determinada opção. Apenas decisões e frutas maduras podem ser saboreadas. A qualidade de vida tem a ver com a capacidade de fazer escolhas-renúncias ao longo do tempo. A vida abundante prometida é uma conquista a ser alcançada todos os dias.

A escolha da verdade é a renúncia de todas as outras possibilidades. A escolha de um caminho é a renúncia das demais alternativas. Da mesma forma as escolhas referentes ao cuidado, à fidelidade, ao domínio próprio, ao respeito, ao próximo, à honestidade, ao consumo, ao corpo e à mente, e assim por diante. Cada escolha traz em si sua cota de renúncia e revela a maturidade de cada decisão.

Paradoxalmente, para muitos o maior sofrimento está exatamente na liberdade de escolha: poder escolher e não apenas agir por reflexo condicionado ou instintivamente tem seu peso. Por isso muitos renunciam a esta liberdade optando viver como escravos: dos outros, de opiniões, de suas paixões e interesses pessoais. Serão árvores infrutíferas.

O mistério do sacrifício cristão está em escolher Cristo e renunciar o resto, vivendo Cristo em cada decisão, em cada passo no caminho. Isto é impossível segundo o paradigma do “eu”. Mas é possível pela fé no poder da ressurreição: o bom fruto é o indicador desta fé em ação todos os dias! Uma árvore que não frutifica deve ser adubada: o “eu” lançado ao solo é o fertilizante natural para que uma árvore estéril possa dar bons frutos.

Na Páscoa relembramos a maior de todas as escolhas possíveis e também o maior de todos os sacrifícios: a entrega voluntária de Deus em favor de cada um nós, através de Jesus Cristo. A semente divina foi lançada ao solo, morreu e ressurgiu gerando vida abundante para todos! A Páscoa de Cristo lembra a cada um a sua páscoa pessoal: morrer para si e frutificar.

Sem a Páscoa existem apenas promessas, árvores sem frutos, sombras no caminho.

Na Páscoa celebramos o cumprimento da promessa, o fruto da vida que venceu a morte, o poder da ressurreição, Cristo em nós, a vida eterna com Deus.

Boas escolhas, feliz Páscoa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário