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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Livro, um amigo (Dia do livro, 18 de Abril).

Ver o mundo num grão de areia, o paraíso numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade num momento. W. Blake


Olá, meu amigo!

No Natal, à hora da Ceia, mamãe colocava um livro debaixo do prato de cada um dos seis filhos. "Sítio do Picapau Amarelo", (Monteiro Lobato, 17 volumes capa dura, cor vermelha) e "Contos da Carochinha" (11 volumes, Livraria Quaresma, 1959 - RJ), foram meus primeiros amigos - aprendi a ler, literalmente, com eles. 'Éramos Seis' não foi apenas o livro de Dupré (D. Lola e sua família), mas também a realidade de seis irmãos e irmãs que foram juntando livros ao longo da vida, pegando amor à leitura, aprendendo a partilhar o tesouro das letras.

Após o Natal tínhamos que ler devagar, saboreando as páginas, esperando o irmão acabar sua leitura e poder então trocar os livros. Ou, na calada da noite, surripiávamos obras alheias escondendo-as no banheiro para usufruto posterior, geralmente causando a ira de quem aguardava a vez – de usar o sanitário, não o livro. Muito interessante como livros e banheiro combinavam: emoções e fantasias, tudo junto e misturado. A marca da tampa da privada aparecendo na parte de trás das coxas denunciava o leitor distraído: passara dos limites! É claro que ninguém avisava ninguém e deixávamos para a rua as gozações e imaginação da molecada pela demora no trono. 

Tanto a literatura brasileira quanto versões traduzidas da norte americana e inglesa foram enchendo nossas prateleiras e cabeças, povoando nossa imaginação. Mark Twain, Dickens, Lobatos, Machados, Josés, Arianos, Agathas, Cecílias, Marias, Manueis, Euclides, Vernes e tantos outros. Biografias, histórias de batalhas e seus heróis, romance, poesia, contos, narrativas bíblicas e livros devocionais. Tecnirama, Conhecer, enciclopédias, Círculo do Livro, Seleções Condensadas de Livros do Reader's Digest, e outros mais ou menos nobres, mais ou menos ilustrados, mais ou menos lidos e folheados, mas sempre ao alcance das mãos.

Em tempos onde a Internet era ainda ficção, para as horas de chuva e tédio restavam as brincadeiras de correria dentro de casa e os “agarra-agarra”, algazarras que acabavam sempre com alguém chorando e uma bronca generalizada. Da bronca, lá vinha o “castigo”, o pai com cara de poucos amigos: "-pega lá um livro e vá sossegar no seu canto!"

O 'canto' de cada um, numa casa de seis irmãos, era a cama onde só era permitido seu proprietário e o nosso labrador preto. Ele veio de navio da Inglaterra até o Rio de Janeiro. O Burly, apesar de inglês tinha sangue escocês, amigo fácil e fiel. Junto com ele veio o Sky, um Dálmata esnobe e cheio de classe como só um inglês sabe ser. Quando irritado, sentava virado para a parede e só saía de lá bom tempo depois, como só um inglês pode fazer. Aliás, diz a lenda que o primeiro registro de um Labrador em Brasília foi o nosso: Red Game Burly, resta conferir.

Na adolescência, digno de nota era um clássico que fazia misteriosas aparições em nossas camas: “O Corpo Humano”, de Fritz Kahn. Havia também um outro da mesma linha, nome esquecido, mas desenhos bem lembrados. Geralmente eram devolvidos no banheiro, sem comentários.

Crescemos colecionando e fazendo histórias. Hoje, colecionamos lembranças e ainda rabiscamos a vida nas páginas que nos restam. Reler um bom livro é como visitar aquele parente querido há muito tempo não visto. Recordamos aventuras, casos, emoções. Muitas vezes, lembranças paralelas são trazidas e enchem a sala com um cheirinho de saudade, como de bolinhos de chuva com canela das tardes chuvosas. Outras vezes, não suportamos as palavras e deixamos nosso amigo falando sozinho, dezenas de línguas agitadas ao vento. Alguns livros, assim como pessoas, simplesmente perdem o sentido e então os abandonamos às traças, destino final para quem nos iludiu com vãs palavras ou falsas promessas.

Ao reler ressignificamos aprendizados e lições, reforçamos idéias, consolados por encontrar alguém que “pensa como eu”! Cheiramos páginas amareladas sentindo o bafo do tempo e odores do passado, sorrisinho no canto dos lábios. Olhos atentos chegam a ouvir sons esquecidos nas prateleiras menos acessadas da memória. Aquela pequena mancha na página denuncia a emoção que escorreu pela face do leitor, selando uma amizade definitiva.

O sonho do homem para construir a máquina do tempo já foi concretizado, as pessoas apenas não se dão conta. Com os livros visitamos o passado e seus personagens reais ou imaginários, testemunhando seus feitos, romances, conquistas e tragédias: com eles vencemos gigantes, conquistamos mundos, salvamos pessoas em perigo, vivemos uma grande paixão, descobrimos uma cura, voamos no primeiro avião, ganhamos guerras, produzimos aquela peça e solucionamos os maiores mistérios.

A ficção nos lança para o futuro com a força da imaginação e, perplexos, fazemos coisas fantásticas, com um certo ar de tédio, como falar com as pessoas e ver suas imagens em um aparelho que cabe na palma da mão, ou viver em um mundo sem escolas onde cada um é protagonista de seu conhecimento e vive em paz com seu semelhante.

Dizem que um dia os livros vão acabar, substituídos por máquinas do tempo mais modernas. Pode ser. Mas enquanto isso não acontece, vou encomendar mais umas prateleiras, é sempre bom fazer novas amizades.

Obrigado, velho amigo, por tantas histórias, por tantas lembranças e pela esperança renovada em cada página!

Heim? O que é que você está perguntando? Quem seria meu amigo preferido? Difícil... são tantos, mas OK, posso dizer pelo menos um: paradoxalmente, é o cara que mais transformou e tocou vidas sem escrever nada. Pensando bem, a única coisa que escreveu foram apenas algumas palavras na areia, que quem consegue ler guarda para si. Usou a história como papel e a vida como pena. Viver, ele diz, é como pegar uma folha em branco e começar a correr o risco, sem direito a usar a borracha.

3 comentários:

  1. Muito boa a leitura! Agora vou imprimir pra reler no banheiro! Hehehehehh...

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  2. Parabens brother, muito bom mesmo, puxa, que legal!!!
    Beijos,
    Carlos Brandao

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  3. Fiquei emocionada !
    T.S.Eliot nos fala de uma múltipla possibilidade, de uma disposição a não se apegar às simplicidades ou às verdades aparentemente finais e exclusivas: "É no lar que se começa, a medida que crescemos; o mundo se torna estrangeiro,o padrão mais complicado...Devemos seguir avançando,rumo a outra intensidade, por uma nova união, uma comunhão mais profunda(...)Beijos,mãe

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