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domingo, 8 de abril de 2012

Apenas um amigo pra conversar

Ele era um construtor: sua alegria estava em organizar, construir e criar novas paisagens, ainda num tempo que não se precisavam pagar propinas. Entendia de tudo o suficiente, era um artista e um mestre em sua arte. Sua formação foi às antigas, também no tempo em que diplomas não atestavam a ignorância de ninguém: aos pés do pai, meticulosa, detalhista, paciente. Juntos eram insuperáveis, apesar das muitas tentativas de imitação que se seguiram.

As pessoas diziam que quando ele estava trabalhando o tempo parava, como naquele instante que uma bola arremessada deixa de subir e ainda não começou a cair. Naquele exato momento, dizia sorrindo, qualquer coisa poderia ser feita!

Acertadamente alguns sabiam que sua imagem estava refletida em cada peça criada e sua assinatura era curiosa, um pequeno espelho na entrada de tudo que ele fazia. Ficou muito famoso, conquistou a admiração de muitas pessoas. Outros, o temiam. Porém, apesar de suas magníficas obras era uma pessoa simples, não se destacava no meio da multidão, por isso a maioria simplesmente o ignorava: muitos cruzavam com ele pelo caminho sem se dar conta da pessoa que acabara de passar.

A vida dá alguns presentes que recebemos sem merecer e sem entender. Foi assim que certa vez eu o encontrei – ou melhor, ele me encontrou. Na verdade, batemos um no outro num cruzamento: era Páscoa e eu saía rapidamente da cafeteria, ainda saboreando um espresso no copinho de isopor quando, ao dobrar a esquina, batemos um no outro indo ambos para o chão, o café indo para os ares. Antes que pudesse levantar, ele já de pé estendia a mão, sorriso aberto, desculpe, estava distraído, disse. Quando estendi a mão em sua direção ele me olhava fixamente e senti que me puxava pelo coração.

Sem saber porque, deixei-me levar pelo momento. Nunca havia olhado por tanto tempo um homem nos olhos, nem meu pai. Coisas de nossa formação, avessa a olhares e toques estranhos e socialmente formatados. Ele quebrou o gelo, piscou um de seus olhos, perguntou se estava bem. Percebi que ele não estava com pressa. Meu compromisso também pareceu, naquele momento, não ter tanta importância.

Trocamos algumas palavras, não foi nada, que que é isso, estou bem, não, não precisa comprar outro café, eu é que estava distraído. Quando notei já estávamos sentados em um banco da pracinha próximo à cafeteria. Poucas pessoas circulavam naquela manhã de sábado, a maioria eram idosos que seguiam devagar: quando se envelhece os passos ficam curtos, a velocidade diminui como se o corpo buscasse instintivamente adiar o amanhecer do último dia. Na velhice o tempo vai se alongando até ser engolido pela eternidade.

Pensei na sua fama e nas obras que havia feito. Admirado por sua humildade em gastar tempo comigo, antecipava a cara dos amigos ao contar depois o encontro que tivera. Desejando uma informação íntima para reforçar minha história, ousei perguntar qual teria sido sua maior obra, a que dera mais alegria. Mais uma vez, ele sorriu. Em seguida, silenciosamente chorou e depois de um minuto que pareceu durar mil anos ele contou uma história.

Havia decidido enfrentar o maior desafio de sua vida: transformar uma grande área, devastada por eras de abandono, destruição e escuridão num imenso e vivo jardim. No princípio ele pensou em um tipo de zoológico sem cercas: preparou o solo, fontes de água, vegetação exuberante. Começou a testar diferentes espécies enquanto ia construindo tudo. Algumas não resistiam e sumiam, mas outras foram se adaptando e permanecendo.

Colocando em ação todo seu conhecimento e habilidade, foi dando forma ao caos existente. A topografia era admirável, paisagens incríveis! No final conseguiu fazer com que diferentes espécies estabelecessem entre si um pacto de equilíbrio. As cores, cheiros, sons eram um desafio aos sentidos e deixavam cada espaço como sendo uma experiência única, não dava pra dizer que ‘este-era-melhor-que-aquele’. A beleza estava exatamente na diversidade, ninguém era melhor nem pior, todos eram igualmente diferentes uns dos outros.

Gostou tanto do que fez que também resolveu construir uma casa para si, discreta, confortável, espaçosa. Ficava num ponto especial, onde um grande rio se dividia em quatro braços, formando um delta extremamente fértil, compondo a paisagem de um jardim que era um paraíso! Por isso batizou sua casa de “O Jardim”. Feliz, animado, esfregou suas mãos e sentou na varanda admirando toda sua obra. Mas um sentimento o incomodava.

Sabe aquela sensação que você tem quando viaja, vendo coisas diferentes, mas, sem poder compartilhar nada com ninguém? Como você se sente, perguntou, interrompendo a narrativa. Pensei um pouco, respirei fundo, fechei os olhos e revisitei vários lugares onde havia passado, com pressa ou devagar, apenas com alguma missão na cabeça. Havia um sentimento comum em cada um destes lugares, que era muito forte principalmente à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Respondi: solidão.

Porque, perguntou novamente. Ora, respondi, porque não havia ninguém para conversar, pra bater um papo e trocar idéias sobre o que havia visto e estava acontecendo! Acabava no barzinho do hotel, ou em algum restaurante, às vezes flertando com o perigo para me distrair. Ora, quando conversamos sobre alguma coisa damos a ela um significado especial, dividimos um tesouro, fixamos melhor os acontecimentos do dia, sei lá, completei meio desanimado por não ter podido explicar de forma decente um sentimento muito real. Uma coisa é certa: é muito legal ter alguém ao lado, nem que nada precise ser dito.

Pois é, ele então continuou: as pessoas dizem que eu construí aquele imenso jardim pra receber um elogio, ser reconhecido como um grande construtor ou artista, receber algum louvor ou glória. Nada disso. Na verdade, eu fiz e faço novas coisas para momentos como este, para poder conversar com um amigo. Todos gostam de compartilhar sentimentos, emoções, trabalho, alegria, dor. Compartilhar é a base dos relacionamentos.

Ao fazer minha casa no jardim, à beira do rio, eu tinha um grande desejo: hospedar pessoas, ter alguém para conversar, dialogar, compartilhar tudo. Ter pessoas pra pescar junto comigo, colher umas frutas ou fazer uma caminhada, apreciando a paisagem. De que adianta uma bela paisagem e um local maravilhoso (modéstia à parte) se tudo isso não pode ser compartilhado com mais ninguém? É quando vemos com o coração, e não os com os olhos, que descobrimos o sentido e o propósito de todas as coisas! E o coração, pra poder ver direito, deve ter outro coração ao lado: assim como os olhos.

O compasso do coração que bate sozinho é o da solidão. Você sabe disso, experimentou em suas viagens. Por isso você tira fotos, compartilha, conta histórias de suas andanças: você precisa ouvir comentários, ver as pessoas reagirem a eles e às imagens que trouxe para poder então ressignificar o que você experimentou: é a maneira de dar algum valor e transformar uma experiência solitária em um evento comunitário. Fomos feitos para o diálogo e para construir relacionamentos! Tudo que vai contra isso não é bom, principalmente se te ilude com atalhos como “curtir” ou “compartilhar”.

Então, como estava dizendo: não preciso de elogios – sei que o que faço é muito bom. Mas gosto de me relacionar com as pessoas, por isso construí o jardim com a possibilidade de outras moradas. Mas não é fácil mantê-lo. Fiz uma primeira experiência, convidei um casal bem bacana. Mas eles trouxeram outra pessoa pra morar junto, sem falar comigo, deu a maior confusão, acabaram tendo que ir embora. Resolvi então ir com calma.

Ao longo do tempo tenho convidado pessoas para desfrutar o jardim. Ficam primeiro morando comigo. Poucos se adaptam e constroem suas casas junto à minha. Afinal, alguns princípios são importantes. O jardim é muito grande, eu deixo as pessoas morarem, mas elas precisam seguir duas regras básicas: ajudar a cuidar do jardim e serem amigas umas das outras. Afinal, foi para isso que as convidei. A maioria, porém, degrada o jardim, oprime a vizinhança e depois passa a me ignorar. Não sei o que há de errado com essas pessoas. Então, quando não tenho mais alternativas eu as mando embora.

Percebi, nesse momento, que nossos corações estavam batendo juntos, no mesmo ritmo. Aquele encontro não fora obra do acaso, uma trombada no caminho. Naquele sábado de Páscoa eu estava recebendo um convite: o cara queria ser meu amigo, estava dizendo que se eu quisesse eu poderia morar com ele! Fiquei sem saber o que dizer, sem saber o que fazer.

Ele gentilmente me convidava, dizendo  ainda: foi muito bom conversar com você! A propósito, feliz Páscoa.

Dizendo isso, levantou-se. Eu sabia para onde ele estava indo e fiquei com uma vontade imensa de seguir com ele pelo caminho. 

Alguns passos adiante, ele parou, voltou-se em minha direção e perguntou: até amanhã? Não pude responder, pois nesse mesmo instante olhei para o chão, atraído pelo som do copo de café que acabara de cair.

3 comentários:

  1. Muito inspirador. Vou ter que imprimir para reler! Deus te abencoe, mano.

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  2. Legal!
    Muito bom mesmo amado irmao.
    Gostei da leitura. o jardim, o tempo parando, a possibilidade de paz e tranquilidade no sentar na companhia de alguem, admirando a paisagem. Lembro da cerimonia do cha, quando no norte da Africa. Ali senta-se para se gozar da companhia de uma pessoa, para se honrar um hospede, para se ter o prazer de conversar, entabular conversa e fazer nova amizade.
    Que belo texto. Carlos B

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  3. "É quando vemos com o coração, e não os com os olhos, que descobrimos o sentido e o propósito de todas as coisas! E o coração, pra poder ver direito, deve ter outro coração ao lado: assim como os olhos."

    Não seria esta a base ou a intenção do "Grupo"... Parabéns! Marcelo Piccoli

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