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segunda-feira, 30 de abril de 2012

A semente, o solo e o semeador (para quem semeia)



Discutiam certo dia
A semente, o solo e o semeador
Culpa de quem seria
A semente que não deu flor?

Do solo, certamente
Diz o esforçado semeador
Que ao lançar a semente
Esperava sua flor

E se for mentirosa a semente,
Pergunta o solo duvidoso
Eu a acolhi de boa mente
Afirma, orgulhoso

Transpassada pela dor
Grita ferida a semente
Quem sabe então, o semeador
Seja o enviado da serpente?

Só mente a semente
Se mentiroso for o semeador
Pois seu trabalho somente
É semear por amor.

domingo, 29 de abril de 2012

Amor, Paixão, Vigiar & Orar


Conversávamos animadamente durante um jantar de casamento, três maridos. Cada um com seu tempo dedicado à mesma mulher (32, 28 e 22 anos de casamento), sentimos que éramos veteranos e ficamos à vontade para falar sobre a festa e vaticinar sobre a vida alheia. Contrariando o senso comum, nem Padre nem Pastor, apenas o Juiz de Paz. Aí ele correu um risco danado e se deu mal: em vez de cumprir seu papel secular tentou dar uma mensagem religiosa sem falar de Deus. Em determinado momento parecia uma máquina de costura descontrolada suturando idéias desconexas. Aplausos de todos pelo final, a máquina silencia e a festa continua.

Por conta disso nos distraímos conversando sobre o que mantém um casamento: a paixão? O amor? Os filhos? A boa vontade? Finanças? Interesses em comum? Isso nos motivou a conversar sobre relacionamentos, paixão, amor, ética e perseverança no bom caminho. O papo ficou muito agradável e foi adquirindo contornos de coisa séria conversada com bom humor, uma ótima combinação.

As esposas se distraíram com sua conversa e nós, estreitando o semicírculo, nos aproximamos. Surgiram algumas frases e comentários bem interessantes envolvendo casamento, política e trabalho. Estes temas caíram todos dentro do mesmo balaio: a diferença está na atitude das pessoas diante dos desafios da vida. Religião não é sinônimo de salvação, de casamento duradouro ou de ética nos negócios.

Quero ver quando a paixão acabar, disse um. Pois é, completei – aí eles deverão tomar uma decisão, esquecer os votos ou amar um ao outro, pois o amor é o que o amor faz de pois que acaba a paixão: gestos, atitudes e palavras, vencendo no dia a dia suas tentações e desafios.

Bom, disse ainda o outro amigo, então é preciso muita oração pra vencer a tentação... E ele mesmo completou: mas antes é preciso ter uma atitude de vigilância. Vigiar vem antes de rezar! E então ele contou uma história sobre uma tentativa de corrupção que sofrera e, se não estivesse atento, teria caído numa cilada. Enquanto falava fiquei absorto com o que ele dissera no início, como se diante de uma revelação – ou insight. Vigiar e orar...

A festa seguiu seu curso, diferentes e deliciosas entradas antes do grand finale da janta. Os docinhos, pecados em pedaços. Abraços, promessas de ‘vamos nos encontrar mais’, final de noite. Mas antes, os noivos apareceram para as formalidades, ‘quem são vocês?’, perguntaram. Olhamos um para o outro, rimos, ‘somos apenas os maridos das esposas que trabalham com sua mãe!’ Sinal dos tempos.

# O casamento

O casamento é uma terra virgem (nem tanto hoje) adquirida por um casal. Ela tem fronteiras e limites estabelecidos. Talvez, por não entenderem de casamento ou de limites, alguns resolvam pular a cerca e explorar outros campos. Ou ainda, existem aqueles sem terra que resolvem invadir campos alheios, gerando conflitos e disputas muitas vezes insolúveis nesta vida. Por conta disso, muitas terras ficam abandonadas.

Cabe à paixão preparar a nova terra. A paixão é por natureza intensa, vibrante, uma energia transformadora e motivadora. Mãos no arado, o casal segue adiante e não olha mais para trás. Nada existe que possa resistir à sua força: retiram pedras e tocos do caminho, contornam obstáculos, superam tempos difíceis, queimam com a chama que arde no peito o mato, limpando o caminho.

Motivados por um sonho comum, assumem compromissos e responsabilidades, registrando publicamente seu campo. Ao dizerem o ‘sim’ um para o outro, dizem ‘não’ para todas as outras possibilidades: sua palavra é sua honra, e o papel passado de mão em mão é a testemunha silenciosa deste pacto. Juntas e apaixonadas vão trabalhando a terra, deixando sulcos de esperança no solo.

# Amor & paixão

Campo preparado, corpos suados e cansados, sorriso nos lábios: final do dia, o último sulco de terra foi arado, a paixão finalmente começa a encontrar seu descanso, os dias passam. Aos poucos, pequenos e delicados detalhes são engolidos um a um pela sucuri da rotina, insaciável. Sorrateiramente ela desliza pela casa engolindo sentimentos, prioridades, palavras e o tempo do casal. Acaba se aninhando na cama do casal, bem entre os dois, que passam a abraçá-la ao dormirem. Finalmente ela engole a paixão, dá um arroto de boa noite e dorme seu longo sono. Será despertada com os filhos, que também serão engolidos sem maiores cerimônias.

O que aconteceu? A paixão foi consumida, desapareceu. O corpo e a mente, cansados, pedem naturalmente um descanso. É impossível viver sempre apaixonado, aquela energia toda, o tempo todo consumindo as forças! Mas e agora? O campo todo arado, a terra pronta, a rotina estabelecida, desejada ou não, necessária ou não, mas definitivamente instalada e acomodada na vida dos dois. Sinais de mato e problemas vão surgindo.

Aos poucos o casal percebe que alguma coisa precisa ser feita, desafios e decisões surgem no horizonte. Eles conversam, discutem, brigam... Se olharem para trás verão a possibilidade de renovar a emoção e o sentimento da paixão do passado, da adrenalina da conquista. Sairão em busca de outros campos, desejando reviver um passado que não existe mais. A renúncia faz parte da maturidade. Como transformar a paixão – ou o que dela sobrou – em amor? É preciso dar um jeito, fazer alguma coisa. Ou, como criança que cansou de seu brinquedo, sair em busca de outra diversão. Mas um dia mesmo a criança mais teimosa vai ter que amadurecer. Quanto mais resistir, mais vai sofrer.

Fazer alguma coisa ou dar um jeito não significa encontrar um novo sentimento, mas decidir dar um passo alem, transformar o sentimento atual tomando decisões e assumindo as consequências: dar o passo adiante da paixão, querer aprender o caminho do amor! O amor “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” não é amor, é paixão. A paixão é apenas o primeiro passo em um relacionamento.

A chama serve pra queimar muita energia e mato, mas e depois? A paixão deve ser lembrada e reverenciada, acolhida e bem querida, mas depois precisa ser transformada em algo que dure enquanto dure a vida. Descobrir o fogo pode ser obra do acaso ou do destino, mas aprender a dominá-lo é uma arte intencional. O fogo faz parte do amor, mas não é o amor. Ele convida para o aconchego e para o calor e, nessas horas, lembrar-se do campo virgem e da terra arada é celebrar a paixão mediada pelo amor.

A paixão prepara a terra, o amor semeia, cuida e colhe seus frutos ao longo dos anos. No casamento, na terra da promessa, a vida floresce mesmo enfrentando as maiores adversidades. Cada semente começa com uma mesma letra, “D”, e termina com “A”: decisão e ação.

Nos relacionamentos a desculpa da “alma-gêmea” que se encontra depois de casado é apenas uma racionalização infantil de gente grande mimada, sempre à procura de um brinquedo novo. O amor não surge “de repente”, do nada, ele é cultivado intencionalmente pelas pessoas. O amor é o produto da paixão amadurecida.

Ninguém casa por amor – e aí está uma baita confusão, pois confundimos muitos outros sentimentos legítimos com o amor. Não é o amor que é cego, é a paixão e o desejo. O amor você decide aprender depois. O amor é decisão e não sentimento. A paixão é energia pura, rapadura e açúcar! O amor é fermentado, destilado, gota a gota, dia a dia...

O primeiro e verdadeiro gesto de amor não tem nada a ver com abrir portas, pagar a conta, comprar um presente, falar palavras bonitas, sexo ou se enfeitar: é decidir honrar e manter a palavra dada num momento de paixão. As sementes guardadas enquanto a terra era preparada pela paixão agora podem ser lançadas ao solo. Elas vão germinando e crescendo através de pequenas ações de cuidado até darem seus frutos, até na velhice. Se abandonarmos o terreno arado, se abandonarmos o cuidado do campo, vai dar m.... mato!

# Vigiar & Orar

Acontece com todos: somos eventualmente tentados por uma linda mulher ou um belo homem, ou por alguma outra coisa que nos seduz. Nas horas seguintes teremos que tomar decisões significativas: seguir o caminho do prazer ou do desejo, ou, dizer não, obrigado e manter-se dentro dos limites da promessa, da palavra empenhada, do caráter e da ética. O caráter é a crença em ação. Safadas são as pessoas de oração que não agem de acordo com seus valores.

É preciso estar atento, vigilante, as ciladas são muitas e sutis. Na hora da tentação, como agir? Existem apenas dois caminhos, independente do tamanho ou da complexidade da situação: o certo ou o errado. Dois caminhos que darão frutos muito diferentes. Cada passo dado numa direção ou noutra trará suas consequências. Vale lembrar que uma palavra dada refere-se não apenas à fidelidade numa união, mas a situações de trabalho, esportes, lazer, contratos, da vida como um todo, onde se apresentam muitas oportunidades para a mentira, para o jeitinho, para a malandragem de querer levar vantagem às custas de alguém. Quando nossas crenças afetam outras pessoas, tornam-se questões éticas.

Fomos ensinados desde pequenos: “-Vigiem e orem para que não caiam em tentação.” Compreendemos bem a dimensão da oração, nossa devoção a Deus em comunhão e intimidade. Se não acreditamos em Deus, torcemos para que um conjunto de normas e valores seja estabelecido: isso também é um tipo de fé. Mas de nada adianta a oração ou o desejo sem uma atitude de atenção e cuidado. Jesus estava no Getsêmani com alguns amigos, orando. Pedro foi acordado com ele falando ao seu ouvido: “nem uma horinha vocês puderam vigiar comigo?” Quem não consegue ficar alerta na escuridão não percebe a luz chegando. O sentinela que dorme no posto não percebe o inimigo se aproximando.

Orar é estar com Deus em comunhão, vigiar é a oração em ação. Posso orar sozinho, mas a vigília é comunitária: eu oro, nós vigiamos. No casamento, a vigília faz a diferença.

Oração é entrega e rendição diante de Deus; vigilância é atitude diante das pessoas. Orar é amar a Deus sobre todas as coisas; vigiar é amar ao próximo como a si mesmo: o que desejo para ele, desejo para mim. Orar sem agir, ou agir sem orar são ações de alto risco. A oração adquire significância quando se compreende o que está acontecendo. Orar é discernir por que se vigia. Vigiar é a atitude da sentinela, o uso da razão, do poder de observação, de crítica e proatividade. É análise de conjuntura, de cenários reais e possíveis, de atenção a movimentos e sons suspeitos, interpretando o contexto para poder tomar a melhor decisão.

Na oração temos nossa mente disciplinada e focada em Deus pelo Espírito. Na vigília usamos os órgãos dos sentidos para perceber, refletir e agir com sabedoria: olhos, ouvidos, pele, olfato, tudo ao mesmo tempo sendo processado pela mente, sendo elaborado, adquirindo significado. Atenção e alerta, estímulo e resposta, prontidão para a atitude adequada conforme cada situação. Se estiver atento, posso dar conta da rotina antes que ela cresça e sufoque o casamento. Quem vigia percebe os indicadores de sua presença.

Do grego “gregoréo”, a palavra “vigiar” remete à Grécia antiga, onde os romanos em suas conquistas encontraram a primeira cidade-estado habitada pelos ‘grekkoi’. Eram guerreiros de espírito alerta. O conjunto de estados da região era conhecido como Hélade e eles se chamavam Helenos. Associar os “grekkoi” à uma atitude de “alerta” deu origem à palavra latina ‘vigilius’. No Século VII o Papa Gregório (vigilante) I introduziu uma série de músicas especiais para as horas de vigília, que depois ficaram conhecidas como Canto Gregoriano.

A atitude de vigília é a capacidade de estar alerta contra os inimigos. Simbolicamente, a queda do homem foi devido à falta de vigilância do primeiro casal. Eles viviam em constante comunhão com Deus no Jardim do Éden. Mas não vigiaram, caíram numa cilada, seduzidos pela primeira sucuri existencial. Cansados de Deus, cansados da rotina de cuidar de seu campo, onde também estava o jardim, resolveram experimentar outras emoções.

No Getsêmani Jesus redime a história da humanidade em outro jardim, o Jardim de Oração. Ali ele tomou a decisão de pagar o preço e tomar o cálice da coerência. Viveu com paixão a sua missão, e morreu conscientemente pelo que acreditava. Por isso ele alertou Pedro e seus amigos: vigiem e orem! O espírito está pronto, mas a mente precisa estar alerta contra as ciladas! Habacuque, outro profeta do passado, fez a seguinte declaração diante dos desafios pelos quais passava: “Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a muralha (vigiar); aguardarei para ver o que Deus me dirá” (oração).

Onde estão os postos de vigia no casamento? Quem está alerta? Certa vez visitei o morro do Cindacta em Urubici, SC. Estava um frio medonho, cheguei junto à guarita da Aeronáutica e não vi ninguém. Filho de militar que sou, sabia que tinha alguma coisa errada: guarita abandonada? Problema sério. Liguei a filmadora fui entrando e chamando... Encontrei os soldados dormindo, ouvia seus roncos! Se acordasse os caras, poderiam se assustar, atirar e depois perguntar. Melhor sair de fininho.

Casamentos acabam. Por que? Vários motivos. Arrisco dizer que o principal é devido ao abandono dos postos de vigia, da atitude de alerta e atenção mútuas, levando a riscos desnecessários e ciladas. Um adultério, uma mentira, provocações, ciúmes doentios, inveja, indelicadeza, abandonar o bem querer ou o querer bem, melindres de crianças mimadas, egoísmo (“meus direitos!”), preguiça de fazer o bem, e por aí vai. No dia a dia a negligência das pequenas ações, a decisão de não cuidar, levam a uma situação típica: grandes arapucas sendo armadas.

Aí um dia as pessoas acordam e dizem: “o amor acabou”! Acabou nada, foi morto. A paixão se foi e o amor não amadureceu, morreu nas mãos de algum inimigo, de pessoas negligentes. A semente chegou a crescer, promessa de linda árvore no jardim, gostosos frutos, mas depois foi abandonada. O espaço é dado para as ciladas. A responsabilidade é individual, apesar de sempre se tentar jogar a culpa no outro ou em Deus.

Apesar das atividades religiosas e das rezas durante a semana, os desencontros se sucedem. Um relacionamento se constrói com atitudes e não apenas com orações.

Oportunidade de trair o cônjuge? Apenas diga não, perceba a cilada bajulando sua vaidade. Oportunidade de uma fraude? Diga não, cuidado com atalhos, não abandone seu posto.

Vigie sua vida. Vigie seus hábitos. Vigie sua boca. Vigie seus olhos. Vigie suas mãos. Vigie seu coração. Vigie sua mente. Vigie se sua devoção a Deus não se tornou uma desculpa para abandonar seu lar. Seja o senhor de seu destino. Pare, olhe, escute, desperte: o inimigo está ao lado, permaneça firme em sua posição. Seja proativo e não deixe a rotina crescer e sufocar a semente do amor plantada com tanta paixão!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Livro, um amigo (Dia do livro, 18 de Abril).

Ver o mundo num grão de areia, o paraíso numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade num momento. W. Blake


Olá, meu amigo!

No Natal, à hora da Ceia, mamãe colocava um livro debaixo do prato de cada um dos seis filhos. "Sítio do Picapau Amarelo", (Monteiro Lobato, 17 volumes capa dura, cor vermelha) e "Contos da Carochinha" (11 volumes, Livraria Quaresma, 1959 - RJ), foram meus primeiros amigos - aprendi a ler, literalmente, com eles. 'Éramos Seis' não foi apenas o livro de Dupré (D. Lola e sua família), mas também a realidade de seis irmãos e irmãs que foram juntando livros ao longo da vida, pegando amor à leitura, aprendendo a partilhar o tesouro das letras.

Após o Natal tínhamos que ler devagar, saboreando as páginas, esperando o irmão acabar sua leitura e poder então trocar os livros. Ou, na calada da noite, surripiávamos obras alheias escondendo-as no banheiro para usufruto posterior, geralmente causando a ira de quem aguardava a vez – de usar o sanitário, não o livro. Muito interessante como livros e banheiro combinavam: emoções e fantasias, tudo junto e misturado. A marca da tampa da privada aparecendo na parte de trás das coxas denunciava o leitor distraído: passara dos limites! É claro que ninguém avisava ninguém e deixávamos para a rua as gozações e imaginação da molecada pela demora no trono. 

Tanto a literatura brasileira quanto versões traduzidas da norte americana e inglesa foram enchendo nossas prateleiras e cabeças, povoando nossa imaginação. Mark Twain, Dickens, Lobatos, Machados, Josés, Arianos, Agathas, Cecílias, Marias, Manueis, Euclides, Vernes e tantos outros. Biografias, histórias de batalhas e seus heróis, romance, poesia, contos, narrativas bíblicas e livros devocionais. Tecnirama, Conhecer, enciclopédias, Círculo do Livro, Seleções Condensadas de Livros do Reader's Digest, e outros mais ou menos nobres, mais ou menos ilustrados, mais ou menos lidos e folheados, mas sempre ao alcance das mãos.

Em tempos onde a Internet era ainda ficção, para as horas de chuva e tédio restavam as brincadeiras de correria dentro de casa e os “agarra-agarra”, algazarras que acabavam sempre com alguém chorando e uma bronca generalizada. Da bronca, lá vinha o “castigo”, o pai com cara de poucos amigos: "-pega lá um livro e vá sossegar no seu canto!"

O 'canto' de cada um, numa casa de seis irmãos, era a cama onde só era permitido seu proprietário e o nosso labrador preto. Ele veio de navio da Inglaterra até o Rio de Janeiro. O Burly, apesar de inglês tinha sangue escocês, amigo fácil e fiel. Junto com ele veio o Sky, um Dálmata esnobe e cheio de classe como só um inglês sabe ser. Quando irritado, sentava virado para a parede e só saía de lá bom tempo depois, como só um inglês pode fazer. Aliás, diz a lenda que o primeiro registro de um Labrador em Brasília foi o nosso: Red Game Burly, resta conferir.

Na adolescência, digno de nota era um clássico que fazia misteriosas aparições em nossas camas: “O Corpo Humano”, de Fritz Kahn. Havia também um outro da mesma linha, nome esquecido, mas desenhos bem lembrados. Geralmente eram devolvidos no banheiro, sem comentários.

Crescemos colecionando e fazendo histórias. Hoje, colecionamos lembranças e ainda rabiscamos a vida nas páginas que nos restam. Reler um bom livro é como visitar aquele parente querido há muito tempo não visto. Recordamos aventuras, casos, emoções. Muitas vezes, lembranças paralelas são trazidas e enchem a sala com um cheirinho de saudade, como de bolinhos de chuva com canela das tardes chuvosas. Outras vezes, não suportamos as palavras e deixamos nosso amigo falando sozinho, dezenas de línguas agitadas ao vento. Alguns livros, assim como pessoas, simplesmente perdem o sentido e então os abandonamos às traças, destino final para quem nos iludiu com vãs palavras ou falsas promessas.

Ao reler ressignificamos aprendizados e lições, reforçamos idéias, consolados por encontrar alguém que “pensa como eu”! Cheiramos páginas amareladas sentindo o bafo do tempo e odores do passado, sorrisinho no canto dos lábios. Olhos atentos chegam a ouvir sons esquecidos nas prateleiras menos acessadas da memória. Aquela pequena mancha na página denuncia a emoção que escorreu pela face do leitor, selando uma amizade definitiva.

O sonho do homem para construir a máquina do tempo já foi concretizado, as pessoas apenas não se dão conta. Com os livros visitamos o passado e seus personagens reais ou imaginários, testemunhando seus feitos, romances, conquistas e tragédias: com eles vencemos gigantes, conquistamos mundos, salvamos pessoas em perigo, vivemos uma grande paixão, descobrimos uma cura, voamos no primeiro avião, ganhamos guerras, produzimos aquela peça e solucionamos os maiores mistérios.

A ficção nos lança para o futuro com a força da imaginação e, perplexos, fazemos coisas fantásticas, com um certo ar de tédio, como falar com as pessoas e ver suas imagens em um aparelho que cabe na palma da mão, ou viver em um mundo sem escolas onde cada um é protagonista de seu conhecimento e vive em paz com seu semelhante.

Dizem que um dia os livros vão acabar, substituídos por máquinas do tempo mais modernas. Pode ser. Mas enquanto isso não acontece, vou encomendar mais umas prateleiras, é sempre bom fazer novas amizades.

Obrigado, velho amigo, por tantas histórias, por tantas lembranças e pela esperança renovada em cada página!

Heim? O que é que você está perguntando? Quem seria meu amigo preferido? Difícil... são tantos, mas OK, posso dizer pelo menos um: paradoxalmente, é o cara que mais transformou e tocou vidas sem escrever nada. Pensando bem, a única coisa que escreveu foram apenas algumas palavras na areia, que quem consegue ler guarda para si. Usou a história como papel e a vida como pena. Viver, ele diz, é como pegar uma folha em branco e começar a correr o risco, sem direito a usar a borracha.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sem palavras


A agência de notícias France Presse ganhou seu primeiro Pulitzer nesta segunda-feira (16) na categoria "Foto Últimas Notícias", com a imagem comovente de uma menina que grita horrorizada logo depois de um ataque suicida num templo xiita, lotado de pessoas em Cabul. A fotografia foi assinada pelo afegão Massoud Hossaini, de 30 anos.
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1076978-foto-de-menina-chorando-em-cabul-ganha-pulitzer.shtml

domingo, 8 de abril de 2012

Apenas um amigo pra conversar

Ele era um construtor: sua alegria estava em organizar, construir e criar novas paisagens, ainda num tempo que não se precisavam pagar propinas. Entendia de tudo o suficiente, era um artista e um mestre em sua arte. Sua formação foi às antigas, também no tempo em que diplomas não atestavam a ignorância de ninguém: aos pés do pai, meticulosa, detalhista, paciente. Juntos eram insuperáveis, apesar das muitas tentativas de imitação que se seguiram.

As pessoas diziam que quando ele estava trabalhando o tempo parava, como naquele instante que uma bola arremessada deixa de subir e ainda não começou a cair. Naquele exato momento, dizia sorrindo, qualquer coisa poderia ser feita!

Acertadamente alguns sabiam que sua imagem estava refletida em cada peça criada e sua assinatura era curiosa, um pequeno espelho na entrada de tudo que ele fazia. Ficou muito famoso, conquistou a admiração de muitas pessoas. Outros, o temiam. Porém, apesar de suas magníficas obras era uma pessoa simples, não se destacava no meio da multidão, por isso a maioria simplesmente o ignorava: muitos cruzavam com ele pelo caminho sem se dar conta da pessoa que acabara de passar.

A vida dá alguns presentes que recebemos sem merecer e sem entender. Foi assim que certa vez eu o encontrei – ou melhor, ele me encontrou. Na verdade, batemos um no outro num cruzamento: era Páscoa e eu saía rapidamente da cafeteria, ainda saboreando um espresso no copinho de isopor quando, ao dobrar a esquina, batemos um no outro indo ambos para o chão, o café indo para os ares. Antes que pudesse levantar, ele já de pé estendia a mão, sorriso aberto, desculpe, estava distraído, disse. Quando estendi a mão em sua direção ele me olhava fixamente e senti que me puxava pelo coração.

Sem saber porque, deixei-me levar pelo momento. Nunca havia olhado por tanto tempo um homem nos olhos, nem meu pai. Coisas de nossa formação, avessa a olhares e toques estranhos e socialmente formatados. Ele quebrou o gelo, piscou um de seus olhos, perguntou se estava bem. Percebi que ele não estava com pressa. Meu compromisso também pareceu, naquele momento, não ter tanta importância.

Trocamos algumas palavras, não foi nada, que que é isso, estou bem, não, não precisa comprar outro café, eu é que estava distraído. Quando notei já estávamos sentados em um banco da pracinha próximo à cafeteria. Poucas pessoas circulavam naquela manhã de sábado, a maioria eram idosos que seguiam devagar: quando se envelhece os passos ficam curtos, a velocidade diminui como se o corpo buscasse instintivamente adiar o amanhecer do último dia. Na velhice o tempo vai se alongando até ser engolido pela eternidade.

Pensei na sua fama e nas obras que havia feito. Admirado por sua humildade em gastar tempo comigo, antecipava a cara dos amigos ao contar depois o encontro que tivera. Desejando uma informação íntima para reforçar minha história, ousei perguntar qual teria sido sua maior obra, a que dera mais alegria. Mais uma vez, ele sorriu. Em seguida, silenciosamente chorou e depois de um minuto que pareceu durar mil anos ele contou uma história.

Havia decidido enfrentar o maior desafio de sua vida: transformar uma grande área, devastada por eras de abandono, destruição e escuridão num imenso e vivo jardim. No princípio ele pensou em um tipo de zoológico sem cercas: preparou o solo, fontes de água, vegetação exuberante. Começou a testar diferentes espécies enquanto ia construindo tudo. Algumas não resistiam e sumiam, mas outras foram se adaptando e permanecendo.

Colocando em ação todo seu conhecimento e habilidade, foi dando forma ao caos existente. A topografia era admirável, paisagens incríveis! No final conseguiu fazer com que diferentes espécies estabelecessem entre si um pacto de equilíbrio. As cores, cheiros, sons eram um desafio aos sentidos e deixavam cada espaço como sendo uma experiência única, não dava pra dizer que ‘este-era-melhor-que-aquele’. A beleza estava exatamente na diversidade, ninguém era melhor nem pior, todos eram igualmente diferentes uns dos outros.

Gostou tanto do que fez que também resolveu construir uma casa para si, discreta, confortável, espaçosa. Ficava num ponto especial, onde um grande rio se dividia em quatro braços, formando um delta extremamente fértil, compondo a paisagem de um jardim que era um paraíso! Por isso batizou sua casa de “O Jardim”. Feliz, animado, esfregou suas mãos e sentou na varanda admirando toda sua obra. Mas um sentimento o incomodava.

Sabe aquela sensação que você tem quando viaja, vendo coisas diferentes, mas, sem poder compartilhar nada com ninguém? Como você se sente, perguntou, interrompendo a narrativa. Pensei um pouco, respirei fundo, fechei os olhos e revisitei vários lugares onde havia passado, com pressa ou devagar, apenas com alguma missão na cabeça. Havia um sentimento comum em cada um destes lugares, que era muito forte principalmente à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Respondi: solidão.

Porque, perguntou novamente. Ora, respondi, porque não havia ninguém para conversar, pra bater um papo e trocar idéias sobre o que havia visto e estava acontecendo! Acabava no barzinho do hotel, ou em algum restaurante, às vezes flertando com o perigo para me distrair. Ora, quando conversamos sobre alguma coisa damos a ela um significado especial, dividimos um tesouro, fixamos melhor os acontecimentos do dia, sei lá, completei meio desanimado por não ter podido explicar de forma decente um sentimento muito real. Uma coisa é certa: é muito legal ter alguém ao lado, nem que nada precise ser dito.

Pois é, ele então continuou: as pessoas dizem que eu construí aquele imenso jardim pra receber um elogio, ser reconhecido como um grande construtor ou artista, receber algum louvor ou glória. Nada disso. Na verdade, eu fiz e faço novas coisas para momentos como este, para poder conversar com um amigo. Todos gostam de compartilhar sentimentos, emoções, trabalho, alegria, dor. Compartilhar é a base dos relacionamentos.

Ao fazer minha casa no jardim, à beira do rio, eu tinha um grande desejo: hospedar pessoas, ter alguém para conversar, dialogar, compartilhar tudo. Ter pessoas pra pescar junto comigo, colher umas frutas ou fazer uma caminhada, apreciando a paisagem. De que adianta uma bela paisagem e um local maravilhoso (modéstia à parte) se tudo isso não pode ser compartilhado com mais ninguém? É quando vemos com o coração, e não os com os olhos, que descobrimos o sentido e o propósito de todas as coisas! E o coração, pra poder ver direito, deve ter outro coração ao lado: assim como os olhos.

O compasso do coração que bate sozinho é o da solidão. Você sabe disso, experimentou em suas viagens. Por isso você tira fotos, compartilha, conta histórias de suas andanças: você precisa ouvir comentários, ver as pessoas reagirem a eles e às imagens que trouxe para poder então ressignificar o que você experimentou: é a maneira de dar algum valor e transformar uma experiência solitária em um evento comunitário. Fomos feitos para o diálogo e para construir relacionamentos! Tudo que vai contra isso não é bom, principalmente se te ilude com atalhos como “curtir” ou “compartilhar”.

Então, como estava dizendo: não preciso de elogios – sei que o que faço é muito bom. Mas gosto de me relacionar com as pessoas, por isso construí o jardim com a possibilidade de outras moradas. Mas não é fácil mantê-lo. Fiz uma primeira experiência, convidei um casal bem bacana. Mas eles trouxeram outra pessoa pra morar junto, sem falar comigo, deu a maior confusão, acabaram tendo que ir embora. Resolvi então ir com calma.

Ao longo do tempo tenho convidado pessoas para desfrutar o jardim. Ficam primeiro morando comigo. Poucos se adaptam e constroem suas casas junto à minha. Afinal, alguns princípios são importantes. O jardim é muito grande, eu deixo as pessoas morarem, mas elas precisam seguir duas regras básicas: ajudar a cuidar do jardim e serem amigas umas das outras. Afinal, foi para isso que as convidei. A maioria, porém, degrada o jardim, oprime a vizinhança e depois passa a me ignorar. Não sei o que há de errado com essas pessoas. Então, quando não tenho mais alternativas eu as mando embora.

Percebi, nesse momento, que nossos corações estavam batendo juntos, no mesmo ritmo. Aquele encontro não fora obra do acaso, uma trombada no caminho. Naquele sábado de Páscoa eu estava recebendo um convite: o cara queria ser meu amigo, estava dizendo que se eu quisesse eu poderia morar com ele! Fiquei sem saber o que dizer, sem saber o que fazer.

Ele gentilmente me convidava, dizendo  ainda: foi muito bom conversar com você! A propósito, feliz Páscoa.

Dizendo isso, levantou-se. Eu sabia para onde ele estava indo e fiquei com uma vontade imensa de seguir com ele pelo caminho. 

Alguns passos adiante, ele parou, voltou-se em minha direção e perguntou: até amanhã? Não pude responder, pois nesse mesmo instante olhei para o chão, atraído pelo som do copo de café que acabara de cair.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Páscoa: Quarta-feira, o dia da traição



Quarta-feira da Semana Santa, o dia da traição.

Aproximando-se a Páscoa, Judas procurou alguns líderes e fez a seguinte pergunta: “Quanto vocês me pagam para eu entregar Jesus?” E lhe pagaram trinta moedas de prata. A partir daí, passou a buscar a melhor oportunidade. Na sexta-feira, antes do amanhecer, ela se apresentou. Naquela madrugada, saudando seu Mestre com a “paz” e com um beijo, Judas entregou seu amigo. Às três horas da tarde daquele dia, Jesus estava morto.

Judas traiu seu querido amigo: fraqueza, desilusão, desencanto, ganância, covardia,...?

Neste dia lembramos as traições que acontecem ao longo da vida. Lembramos as promessas e palavras de bem e paz que se mostraram falsas e cruéis. Lembramos beijos e gestos de carinho que iludiram, machucaram e magoaram mais do que a verdade poderia machucar. Esposas, maridos, pais e filhos, amigos traídos e entregues à dor.

Na família, nos relacionamentos, no trabalho, na igreja, nos esportes, na política, na vida: a traição é o sentimento mais duro, mais difícil, mais doloroso que alguém pode passar, ainda mais quando feita por uma pessoa íntima e querida. Mas, a pior de todas é a traição que cometemos contra nós mesmos ao vender nossa consciência em troca de seja lá o que for.

Nesta semana humildemente refletimos e cobrimos de cinzas nossas cabeças: diante de nós está a morte ou o poder da ressurreição e de uma nova vida. Fomos Traídos? Porém, honestamente, sabemos que também já traímos – e de diversas formas! O que fazer?

Devemos buscar dentro de nós palavras escondidas como honra, caráter, fidelidade, amor. Buscar acima de tudo fé e coragem para perdoar, para pedir perdão, para se perdoar e prosseguir no caminho antes que laços de angústia e morte se fechem em nosso pescoço. Judas se deixou levar por algum motivo, depois pela vergonha e pela culpa: quando se enforcou ele já estava morto.

Mas a Páscoa não é nem a celebração da traição nem da morte: é a afirmação de que uma nova oportunidade, uma nova vida e um recomeço são possíveis! A madrugada da vergonha e da traição se transformou na madrugada da glória e da ressurreição. Levante sua face diante de Deus e prossiga em sua jornada. A vida vence a morte!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Páscoa: Frutos e Sombras no Caminho

Um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha. Foi procurar fruto nela, e não achou nenhum. Por isso disse ao que cuidava da vinha: ‘Já faz três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não acho. Corte-a! Por que deixá-la inutilizar a terra? Respondeu o homem: ‘Senhor, deixe-a por mais um ano, e eu cavarei ao redor dela e a adubarei. Se der fruto no ano que vem, muito bem! Se não, corte-a’! Lucas 13.6-9. Viu de longe uma figueira cheia de folhas e foi até lá para ver se havia figos. Quando chegou perto, encontrou somente folhas porque não era tempo de figos. Então disse à figueira: - Que nunca mais ninguém coma das suas frutas! E os seus discípulos ouviram isso. Mc 11.13,14

O fundamento maior do cristianismo não é a encarnação da Palavra de Deus entre nós, mas a Palavra encarnada em cada um de nós. Não é o Natal, mas a Páscoa! Se no Natal temos a promessa, na Páscoa temos sua concretização, como disse Paulo, “se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm.” Entre um evento e outro está escrita a história da nossa redenção.

Nossa jornada espiritual tem início com o Natal: o Verbo foi semeado em nosso meio e começou a crescer. Como você sabe, a promessa da semente não é uma nova árvore, mas, um novo fruto com novas sementes, em uma espiral cíclica eterna. Em outras palavras, a promessa da semente é nova vida e não apenas crescer pra fazer sombra!

Próximo à Pascoa, Jesus alertou: a figueira sem frutos não completou sua missão. Uma árvore sem frutos é uma existência ensimesmada, e por mais que possa oferecer algum benefício não cumpre sua missão: frutificar e lançar ao solo novas sementes. Desta forma, irá secar e desaparecer. Dura metáfora às vésperas da Paixão.

A ressurreição é a explosão da sementeira de Deus, o cumprimento do ciclo da vida, a transformação da semente! A semente deu sua árvore, a árvore deu seu fruto que cresceu, amadureceu, caiu no solo, morreu. Ao morrer, novas sementes foram lançadas: uma, duas, dezenas, centenas, milhares, milhões que também completam seu ciclo: morrer para si mesmas e gerar novas árvores frutíferas. A Páscoa é a celebração da eternidade em nós, sementes que morrem para gerar vida por meio de um caminhar diário de fé.

O trabalho que temos diante de nós é o cuidado com nossa árvore-corpo. Esta árvore faz parte de um sistema complexo e interdependente e deve gerar bons frutos. Nosso oikos-habitat exige cuidados uns com os outros, galhos entrelaçados que se amparam. Exige cuidado de todos com a terra onde estamos inseridos e de onde tiramos nosso sustento. Viemos da terra e a ela retornaremos, é o destino da semente. Somos jardineiros e somos também as árvores do jardim. A construção de relacionamentos que possam gerar frutos é a responsabilidade maior que devemos ter enquanto vivemos e aguardamos nossa própria Páscoa.

Para gerar bons frutos, frutos que permaneçam, devemos acolher com naturalidade a dimensão sacrificial da existência: a semente deve morrer. O sacrifício é inerente à vida. A vida é feita de escolhas e cada escolha deve ser a renúncia madura a tudo mais em favor de uma determinada opção. Apenas decisões e frutas maduras podem ser saboreadas. A qualidade de vida tem a ver com a capacidade de fazer escolhas-renúncias ao longo do tempo. A vida abundante prometida é uma conquista a ser alcançada todos os dias.

A escolha da verdade é a renúncia de todas as outras possibilidades. A escolha de um caminho é a renúncia das demais alternativas. Da mesma forma as escolhas referentes ao cuidado, à fidelidade, ao domínio próprio, ao respeito, ao próximo, à honestidade, ao consumo, ao corpo e à mente, e assim por diante. Cada escolha traz em si sua cota de renúncia e revela a maturidade de cada decisão.

Paradoxalmente, para muitos o maior sofrimento está exatamente na liberdade de escolha: poder escolher e não apenas agir por reflexo condicionado ou instintivamente tem seu peso. Por isso muitos renunciam a esta liberdade optando viver como escravos: dos outros, de opiniões, de suas paixões e interesses pessoais. Serão árvores infrutíferas.

O mistério do sacrifício cristão está em escolher Cristo e renunciar o resto, vivendo Cristo em cada decisão, em cada passo no caminho. Isto é impossível segundo o paradigma do “eu”. Mas é possível pela fé no poder da ressurreição: o bom fruto é o indicador desta fé em ação todos os dias! Uma árvore que não frutifica deve ser adubada: o “eu” lançado ao solo é o fertilizante natural para que uma árvore estéril possa dar bons frutos.

Na Páscoa relembramos a maior de todas as escolhas possíveis e também o maior de todos os sacrifícios: a entrega voluntária de Deus em favor de cada um nós, através de Jesus Cristo. A semente divina foi lançada ao solo, morreu e ressurgiu gerando vida abundante para todos! A Páscoa de Cristo lembra a cada um a sua páscoa pessoal: morrer para si e frutificar.

Sem a Páscoa existem apenas promessas, árvores sem frutos, sombras no caminho.

Na Páscoa celebramos o cumprimento da promessa, o fruto da vida que venceu a morte, o poder da ressurreição, Cristo em nós, a vida eterna com Deus.

Boas escolhas, feliz Páscoa!