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sábado, 31 de março de 2012

Mamãe, posso dar?

Mamãe, posso dar?

O que é que você quer dar, filhinha? Presta atenção, agora estou lavando umas roupas, preciso entregar tudo até o final da tarde, vá brincar...

Ela fica parada, olhando a mãe. O sol da manhã começa a esquentar.

Mais um pouco, novamente, insiste - mamãe, posso dar?

Filha,... Cansaço da vida, silêncio, uma lágrima escorre. Dar o que? Você não tem muita coisa. Já te disse, estou ocupada. Vá brincar!

Agora ela olha pra bonequinha em suas mãos: está suja, os olhinhos estragados não abrem mais. Ralos fios de cabelos cor de fome, vestidinho manchado e rasgado. Um batom feito com a caneta vermelha da irmã borra sua boquinha e chama atenção naquele rostinho de anjo encardido. A boneca é seu brinquedo favorito. Além dela, tem uma vassourinha, um fogãozinho, duas panelinhas de plástico. Brinquedo de menina é brincar de ser gente grande em miniatura.

Ela pensa, bem poderia ganhar uma bacia de plástico pra poder brincar de lavar roupa pra fora e ganhar um dinheirinho. Então ela poderia comprar aquela roupinha na loja do seu João, os docinhos, um caderno novo para as lições da escola, um estojo para seus lápis. Seu João era legal, ele até falava que se ela não tivesse dinheiro eles poderiam trocar alguma coisa da venda: se ela desse algo pra ele, ele poderia dar alguma coisa pra ela.

Mamãe, posso d....  FILHA, PELAMORDEDEUS, estou trabalhando – dá o que você quiser, me deixa em paz. E desta vez nenhuma lágrima escorreu do rosto da mãe, o sol da beira do rio secou finalmente sua fonte.

Então, com a bonequinha na mão, lá se foi sua filha pra vendinha do João. No meio do caminho, passinhos curtos, parou, apertou a bonequinha contra o peito. Quis voltar, mas prosseguiu. Envergonhada, esperou D. Lurdinha finalmente terminar o rancho na venda do João. Prendendo a respiração, entrou. Ao vê-la com sua bonequinha, seu João abriu um sorriso como se estivesse diante de uma refeição há muito esperada.

Vejam só quem está aqui, finalmente veio me visitar? Tratou logo de dar pra ela, a caminho dos fundos da venda, um pacote de doces: coloridos, açucarados, de dar água na boca! Seu João pegou sua bonequinha e a despiu. Deu um banho, penteou seus ralos cabelinhos cor de fome, deu uns beijinhos. Ela ficou admirada, seu João era muito carinhoso! Deu também uma roupinha nova e passou em sua bonequinha um batom de verdade. E os docinhos, como estavam gostosos!

Sempre que tiver vontade de trocar alguma coisa, pode voltar, disse seu João enquanto ela ia indo embora. Ele até deixou-a levar o batom! Ela voltaria, João sorria. Poucos sabiam que seu João também era especialista em bonequinhas estragadas.

Já em casa a mãe pergunta, distraída, então, minha filha, onde você estava? As roupas dobradas em cima da mesa aguardavam seu dono. Mamãe, ela disse, aconteceu uma coisa estranha hoje...

A mãe, curiosa, agora olhando para ela: o que é que foi? Aliás, onde está nossa bonequinha?

Olhando para o chão batido, responde: mãe..., a bonequinha abriu os olhos! Ficou tão bonita que agora seu João quer vender ela na vendinha! E nessa hora, uma coisa estranha aconteceu: os olhos da mãe se fecharam.

Epílogo: anos depois, seu João foi acusado de abuso e exploração. Foi absolvido. Afinal, quem liga pra bonequinhas estragadas?