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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Vacina contra a Violência



Não se pode privar um filho de ter contato com as doenças sociais que os cercam, criando-os numa redoma de isolamento. Igualmente, não se pode criar filhos abandonando-os e achando que eles vão adquirir resistência por si mesmos às situações de risco. Em ambos os casos, estarão expostos a perigos fatais sem meios para resistirem.

Ao contrário, assim como age uma vacina, pode-se estrategicamente permitir a exposição atenuada e controlada com aquilo de que se deseja preservar: as situações de risco e doenças fatais. Educar é assumir a responsabilidade de permitir aos filhos viverem as situações de risco com defesas apropriadas. Cada nova doença social exige uma vacina e tempo para prepará-la. “Pais atentos, presentes, orientadores e comprometidos não evitarão o contato de seus filhos com a realidade da vida que estes vivem, não os subtrairão do mundo que habitam.” (S. Sinay).

Porém, a ‘vacina’ não é a exposição precoce ao álcool, drogas, sexo, turmas,... Mas a inoculação firme, paciente, amorosa e presencial de valores, espiritualidade, moral, recursos que permitam ao jovem, em sua fase de desenvolvimento, adquirir resistência para passar pelas situações de risco. Desta forma, ele terá maior consciência dos perigos e compreenderá as possíveis consequências de seus atos. Isto exige tempo e dedicação. Isto é educação.

Os filhos devem adquirir, através de seus pais, o conhecimento das manhas, artimanhas e estratégias dos agentes infeciosos da sociedade, de suas armadilhas e ciladas, saber como se comportam e camuflam, geralmente passando despercebidos ou invisíveis. É muitas vezes impossível exterminá-los, assim como a violência. Mas conhecer seus hábitos e habitat é fundamental para diminuir ou mesmo evitar acidentes ou exposições fatais.

Ao sair e se expor à vida, com todos os seus riscos inerentes, nossos filhos deverão levar em suas mochilas princípios éticos, morais, espirituais, valores e uma firme educação. Mais do que qualquer quinquilharia eletrônica ou objetos de desejo consumista, é o que eles precisarão para agir, reagir, interagir e sobreviver diante das situações limites pelas quais inevitavelmente passarão.

A vacina age ativando a resposta imune do organismo contra determinado agente infeccioso, quando exposto a ele.

A educação age ativando a resposta ética e moral contra as situações de risco social, em momentos de exposição.

Mas porque, então, não se promove a “vacinação” em massa priorizando-se a educação de qualidade em todos os níveis, combatendo os agentes que promovem as doenças sociais? Porque a ignorância favorece a virulenta indústria da violência. A população é intencional e sistematicamente enganada pelos que promovem a ignorância, a miséria e o consumismo insano, cabresteada para combater a cura:

“- Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados às pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz.” (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904).

Há muita resistência e interesses escusos contra a educação. Mas a revolução pode começar dentro de casa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Redução da Maioridade Penal? Porque não responsabilizar antes os maiores?



A solução para a violência infanto-juvenil não está na redução da MAIORIDADE PENAL. A grande questão está na omissão dos adultos, pais e mães, que vergonhosamente abandonam seus filhos e se esquivam de suas responsabilidades como educadores. 

Culpam o Estado, o Governo, as “amizades erradas”, o sistema educacional, as igrejas, as escolas, mas não disciplinam, não estabelecem limites, não educam para a vida em sociedade. E neste sentido, a condição socioeconômica não faz a mínima diferença.

Neste vácuo educacional, traficantes, bandidos, gangues, turmas, produtores, anunciantes e vendedores de álcool, manipuladores midiáticos das mentes juvenis e ainda outros diferentes grupos encontram espaço para inculcarem seus princípios e suas regras de “vida” nas mentes em formação.

A sociedade, hipocritamente, deseja reduzir a MAIORIDADE PENAL como se isso fosse resolver o problema da violência praticada por jovens. Não vai. A questão da violência não é problema nem da polícia, nem do judiciário. O cerne da discussão está em se ter um povo educado e respeitador de regras e limites. Princípios e valores que se aprendem em casa, não nas escolas e tampouco nas ruas.

A violência infanto-juvenil é primariamente o resultado da paternidade e maternidade irresponsável. A preguiça e o desejo desenfreado de ter e consumir coisas não permite tempo para educar as crianças. Todos sabem o que precisa ser feito, mas cinicamente fecham os olhos e fazem campanhas para penitenciárias de crianças. É claro, desde que as crianças presas sejam pobres, miseráveis e filhos “dos outros”!

Jovens agressores são o fruto passivo de pais indolentes. Educar dá trabalho, exige tempo e dedicação, muito mais do que o clássico “tempo de qualidade” que tenta apenas encobrir a culpa de quem não sabe estabelecer prioridades na vida.

É claro que existem exceções, mas aqui não falamos delas, mas apenas de pais FDP que geram e criam filhos idem. Desculpem o verbo.

Agora, uma pitada de ironia: tenho saudades dos “chiqueirinhos” antigos, diferentes desses de tela de hoje, quando as crianças já cresciam sabendo o que era a vida atrás das grades...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Uma (epis)tola aos amigos e irmãos do Caminho!

Os Dez Mandamentos têm sido um desafio, reconheço. Então, permitam-me ponderar algumas coisas, senti que devia fazer isso. Falo e penso pra mim mesmo...

Antes, uma xícara de café – pronto? Então:

A Bíblia é um livro fantástico, escrita por pecadores dirigidos pela mão de Deus. Possui revelações e mistérios. Possui princípios e mandamentos. Possui morte e vida. Do Gênesis ao Apocalipse, contudo, existe uma narrativa ‘espinha de peixe’: a história de cada um intercalada por (in)finitas inserções ao longo do caminho, um acontecimento inicial que leva a um determinado destino conforme as decisões de cada pessoa, que vai escrevendo sua vida de A a Z.

Tudo começou com um homem – Adão (entenda-o aqui como desejar, o primeiro homem, um troglodita bem intencionado, um símio fanfarrão...,  mas ele estava lá). Bom, depois veio outro homem, Jesus Cristo, como se fosse um segundo Adão, um novo começo. E termina sempre com um terceiro homem-personagem: você, eu, cada um de nós.

O que esses três homens possuem em comum, separados por milhares de anos? A capacidade de decidir, de transformar as coisas e o curso de sua vida e, quem sabe, da vida de outras pessoas. Fomos criados com a capacidade de tomar decisões, não somos robôs programados para determinadas tarefas e outras não. Em Cristo podemos todas as coisas, mas não devemos fazer qualquer coisa.
Podemos viver sem nenhum referencial, apenas reagindo a estímulos internos e externos, protegendo e cuidando dos queridos de nossa tribo e matando os inimigos: trogloditas modernos, animais instintivos e implacáveis, sobreviventes num mundo cruel.

Mas podemos decidir refrear nossa índole primitiva, fazendo outras escolhas e seguindo outras estradas, outros caminhos, mesmo que em dias de denso nevoeiro. Muitas vezes, percebemos o traçado do caminho apenas quando olhamos o trecho percorrido.

Se decido ir em alguma direção e me submeter a algum controle (não o social, esse é para todos, descontados os psicopatas), então devo escolher os referenciais. O que nos mantém no caminho são as referências: placas, sinalizações, o hodômetro do carro, a paisagem, todas essas coisas somadas nos dão a certeza que prosseguimos para onde planejamos ir.

E quando não existem referenciais externos? Aí usamos alguma bússola moral, ou espiritual, ou ambas. Mas deixemos a moral de lado – ela deriva da espiritual, que é mais profunda e ambígua: afinal, navegar é preciso, viver não é preciso, como diria Fernando, uma Pessoa que passou a vida a combater três grandes vilões: a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Mas voltemos à Bíblia e, mais precisamente, aos Dez Mandamentos: eles são como sinais e referenciais que escolhemos seguir, ou não, conforme nossas conveniências. Eles são apenas indicadores de um caminho. Mas caminhos levam a algum destino! Então a pergunta imperativa não é se os indicadores – sinais são válidos ou não, mas se estamos no caminho certo para atingir nosso destino e poder entender o que esses sinais significam.

Afinal, qualquer sinalização apenas tem sentido se está na rodovia certa. De que adianta a placa “Proibido Ultrapassar” se estamos em uma via de mão única? Ou, “Para Florianópolis mantenha-se à direita” se estamos cruzando os Alpes entre a Suíça e a Itália? Ou ainda, “Velocidade máxima 60” se estamos em uma Autobahn na Alemanha, onde a velocidade é livre?

Antes de compreendermos e escolhermos seguir determinada sinalização, precisamos saber se ela é coerente com o destino escolhido: a escolha do caminho depende do destino final que almejamos. Podia ser que todos os caminhos levassem a Roma, mas sabemos que nem todos levam a Deus.

Jesus disse:  - Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim (Jo 14.6). Para onde desejamos ir? Essa é a primeira pergunta. Depois, a escolha do caminho que para lá nos levará deverá ser feita, observando os sinais ou indicadores deste caminho.

A Lei dada por Deus foram as primeiras sinalizações para orientar seu povo no caminho da Terra Prometida, mas ainda era incompleta. Hoje ela apenas indica, com todas as suas incertezas e possibilidades de interpretações, que estamos num determinado momento de nossa jornada espiritual, aprendendo o caminho da disciplina, ajudando uns aos outros a aprenderem limites, a não ultrapassar em certos momentos, ir mais devagar ali ou acolá. Diz também que existem radares, sensores, como os “pardais” celestiais, que nos pegarão se ultrapassarmos certos limites. Coisa para quem ainda não tem plena consciência de sua cidadania celestial e maturidade para caminhar por conta própria, como crianças.

Controle e a vigilância é pra quem está começando a caminhada, apenas para trazer um pouco de ordem e evitar desastres uns com os outros e acidentes pessoais: “- porque a Lei foi dada por Moisés; a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Depois da Lei, a graça e a Verdade nos guiam na medida que amadurecemos.

Com a maturidade, que nada mais é que aprender a conhecer e discernir o caminho “de olhos fechados”, não precisamos mais ficar atentos a tantos sinais: sabemos, por experiência, que estamos na direção certa e começamos a apreciar também a paisagem e deixar tantas placas de lado. A velocidade, as ultrapassagens, os retornos, as conversões (ops!), sabemos já como agir, o que fazer, o que evitar. É até mesmo possível que encontremos outros trajetos sem perdermos a direção.

Por isso Jesus (Lucas 10.27) e Paulo (Gálatas 5.14) resumem bem: Amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a você mesmo.
Nem todos somos Fernando, mas somos pessoas, navegadores em uma vida imprecisa, e a bússola espiritual nos guia pois sabemos qual é nosso destino!

E termino contando uma historinha, tentando resumir:

Um dia Alice, aquela do País das Maravilhas do conto de Lewis Carol, chegou a uma encruzilhada. Havia placas indicando muitos caminhos, e ela parou, em dúvida. Vendo o Sr. Gato em cima da árvore,  ela perguntou:
- Sr. Gato, qual caminho eu devo pegar?
Em vez de responder, o Sr. Gato perguntou:
- Alice, para onde você está indo?
- Eu não sei..., ela disse.
O Gato, piscando: - Então, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve!

Abraços.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Pais & filhos



Só vou voltar depois das três (...)

Todos os dias, todas as noites, milhares de adolescentes e jovens saem de casa, perambulando por ruas, baladas, carros, festas, botecos, programas. A pé, de ônibus, de carro, cada um conforme sua condição socioeconômica, mas todos se aventurando de uma maneira ou de outra e vivenciando situações de risco físico ou psicológico. Na maioria das vezes chegam depois em casa, sóbrios ou bêbados, felizes pela liberdade consentida, tolerada ou ignorada por seus pais.

Alguns, porém, não voltam para casa. Cabe aos pais a triste missão de reconhecê-los em necrotérios ou cenas de acidentes. Alguns filhos simplesmente desaparecem para sempre, o pior dos cenários, impedindo o luto que também traz a possibilidade de cura ao fechar um ciclo. Não falo das tragédias inevitáveis, inerentes ao ser e à existência humana. Mas das que poderiam ter sido evitadas.

Conforme a classe social, o noticiário alimenta a dor e a tragédia buscando culpar o Estado, a bebida, o tráfico, o excesso de velocidade, as “amizades erradas”, ou genericamente, “a violência”. De forma quase unânime, até para se respeitar a dor da perda, buscam-se culpados fora do ambiente doméstico. Falar de uma possível responsabilidade dos pais nessa hora é um tabu, seja em que ambiente for: “o que seu filhos adolescente estava fazendo na rua às três horas da manhã?”

Mas é preciso ter coragem e ousadia. É preciso considerar a possibilidade. E é preciso reconhecer e colocar para fora o que está silenciosamente na mente de pais e mães após uma tragédia com seus filhos: será que esta tragédia poderia ter sido evitada?

Algumas vezes, não. Mas em muitas situações, sim! 

Vivemos hoje uma situação narcisista de pais que pensam apenas em si: muitos filhos vieram para resolver algum problema do casamento, ou por imposição social. Ou foram resultado de namoros, festas, bebedeiras ou qualquer outra irresponsabilidade em nome da liberdade e da alegria. Ninguém questiona comportamentos e é proibido proibir. Recusando-se a amadurecer e aprender com seus erros, estes pais, jovens ou não, continuam depois a alimentar seu narcisismo.

Desejam que seus filhos sejam seus amigos e confidentes. Nada contra a “amizade” com filhos e filhas, mas ela deve ser subordinada ao papel de pais. A paternidade responsável possui regras, limites, horários, comportamentos aceitáveis para uma convivência familiar sadia em uma sociedade cada vez mais sem normas.

Os pais acabaram seduzidos por psicologias baratas estritamente comerciais, gerando mensagens confusas para seus filhos. Infantilizados, desculpam-se com conceitos como “tempo de qualidade” para justificar sua ausência. Na verdade, ao abandonar os rígidos limites de gerações “castradoras” do passado abandonaram também sua responsabilidade de criar filhos e filhas com ética e valores sociais adequados à construção de uma sociedade que compartilha o mesmo teto.

Muitas instituições alimentam a alienação dos pais e a distância com os filhos. Além da correria semanal, nos finais de semana existe a correria das igrejas, dos clubes, das associações: pais e filhos deixam de conviver  uns com os outros pois precisam cumprir uma agenda apertada de reuniões e programas, paradoxalmente, focados "na família"! 

Como disse Sergio Sinay*, pais confusos confundem “cumplicidade com amor, condescendência afetiva com presença emocional e autonomia pessoal com ausência de vínculos”. Em outras palavras, não fazem nada que possa gerar algum tipo de “trauma, conflito ou decepção” ao filhinho/a mimado. Praticamente transferem aos filhos a responsabilidade de criarem-se a si mesmos. Ou terceirizam sua responsabilidade à escola ou igrejas.

Pais investem na educação centrada na aparência, ou na desculpa de permitir aos filhos “vivências” sociais necessárias à sua inserção em um mercado altamente competitivo. Afinal, os filhos devem aprender a “serem eles mesmos”! Gastam nas melhores escolas, melhores cursos, viagens sem fim de seus pimpolhos, para receberem o olhar de admiração de colegas e amigos. Mas não sabem o que fazer com eles quando estão todos juntos.

Esses pais passaram a temer seus filhos, imitá-los (até no vestuário!), assimilar suas preferências, vivendo debaixo da tirania de uma sociedade de consumo que impõe produtos, parafernália e experiências “necessárias e importantes” para sua formação. Por serem narcisistas, sucumbem aos modismos mercadológicos para serem aceitos diante dos outros pais. 
Depois ficam horrorizados quando os filhos se matam, roubam, traficam, promiscuem, embebedam-se, e chegam em casa com netos precoces.

Esses filhos, sem exemplo e referências em casa, buscam então ídolos que são tão consistentes como a fumaça do baseado ou que já morreram de overdose. Aprendem a manipular pais passivos que aceitam essa manipulação devido a sentimentos de culpa.

Filhos mimados e com acessos de birra aprenderam a manipular seus pais dando ‘shows’ em shoppings, festas ou reuniões de família para conseguirem a satisfação de seus desejos. Depois, tornam-se assassinos de outros filhos através da ira misturada a drogas, álcool, armas ou direção irresponsável. Por não terem tido limites e educação em casa, tornam-se políticos corruptos, bandidos, manipuladores midiáticos, sexistas, reproduzindo uma sociedade de consumo sem limites e que existe para lhes satisfazer os desejos.

Quando esses filhos soltos e irresponsáveis finalmente enfrentam uma situação de risco que escapa ao controle, acontecem as tragédias para si e para outros inocentes passivos em seu caminho. Aí, tardiamente, alguns pais despertam.

Ficam perplexos, atordoados, sem entender o que aconteceu, buscando culpados fora de casa. O caminho é, um dia, acordar e começar a fazer as perguntas pós-tragédias antes das mesmas acontecerem: como fui deixar meu filho/a tomar decisões que competiam a mim?

Será que...
(...) São meus filhos
Que tomam conta de mim (?).
(Pais e Filhos, Legião Urbana)

*Sergio Sinay - A Sociedade dos Filhos Órfãos. Best Seller.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sobre a pedra


Estive em dois funerais recentemente. Um cristão, outro judaico. Privilégio de quem observa e não está diretamente envolvido no clima emocional, percebi cada um com seus detalhes,  apesar de compartilhar a dor e a tristeza dos meus queridos amigos e suas imensas perdas: dois pais, muito triste.

A morte, inevitável companheira para a travessia final, sempre está ao nosso lado. Da mesma forma, a vida. Cada um é tocado por ambas diferentemente durante sua existência, reagindo conforme os condicionamentos e aprendizados adquiridos, até que uma das duas nos leve adiante.

No enterro judaico, durante o caminho para a sepultura, as conversas eram raras e a solenidade tomava conta do ambiente. Meu amigo ofereceu-me um kippah, coloquei-o. Falava-se baixo e no caminho até a sepultura ocorreram diversas pausas seguidas de orações, pareciam hesitar em deixar o morto seguir seu destino ao pó. Caixão na terra, sem laje ou cimento. Achei o simbolismo muito rico.

No ofício cristão, dentro da capela o clima era mais descontraído, algumas pessoas falando alto, risadas e brincadeiras entre conhecidos tentavam evitar o tema daquele encontro numa fria e chuvosa tarde. Fui persuadido pelo oficiante e pelos familiares a participar da cerimônia. Divididas as falas da solenidade, passou-se ao oficio fúnebre. Num determinado momento o oficiante me chama para conduzir uma parte e, ops..., não era hora: era o momento de a filha trazer um testemunho sobre o pai falecido. A vermelhidão traiu a pressa do pastor, mas o sorriso da filha em minha direção dissipou qualquer tensão.

Achando que a fala alongava-se, novamente o oficiante chegou-se a mim e sussurrou-me ao ouvido: “-chega perto para ela saber que já deve ir encerrando”. O que é que tinha de errado com ele, pensei? Olhei para a amiga, lágrimas escorrendo em seu rosto e voz embargada ao contar a dramática história de seu pai, professor perseguido por militares em Santa Catarina durante o período do golpe militar. Resisti à idéia e respondi: quando ela terminar está bom, vamos aguardar. Eu estava aproveitando o Kairós e nem um pouco preocupado com o Cronos.

Enquanto ela falava, reparei que o corpo estava depositado sobre um pesado bloco de pedra. Não pensei em repouso, mas em origens. Michelangelo e suas esculturas vieram à mente, Davi, Pietá, Moises e tantas outras igualmente extraídas da rocha, pacientemente, com arte, martelo e cinzel. O corpo morto deitado sobre o granito deu-me uma breve visão da vida e das pessoas. Ali estava deitado um homem que viera do pó.

Nascemos pedras brutas. Diferentes mãos, o martelo do tempo e muitos cinzéis vão dando forma ao bloco do qual somos extraídos. As primeiras batidas são dadas pelos pais, esculpindo seus filhos com algumas imagens na cabeça: desejam que ele seja “alguém. Cabe a eles começar o trabalho e apresentar sua arte para o mundo. Faltam muito detalhes, mas a estrutura básica está lá. Eventuais trincas surgem neste processo e serão levadas vida afora, pois o bloco não pode ser substituído. Ano após ano os pais vão trabalhando, toc, toc, toc...

Com certa força e habilidade eles vão dando forma e conteúdo ao ser. Então um dia essa pessoa em construção será levada para a escola. Surgem outras crises, novas rachaduras no granito: o sistema educacional e os amigos darão suas marteladas com uma visão diferenciada da dos pais, usando outros cinzéis, tec, tec, tec...

Ao longo dos anos, a família e o sistema educacional vão trabalhando o granito, cada um com suas marteladas, muitas vezes um desmanchando o trabalho do outro. Depois de muitas pancadas e pó, a rocha adquire forma definida, uma pessoa: de pedra! Ela também aprende a usar as ferramentas do processo e vai batendo e lapidando a si própria, trabalhando detalhes: tic, tic, tic...

De vez em quando, entrega o cinzel para outros: a esposa, o marido, um patrão e por aí vai. Ela mesma aprende a dar marteladinhas nas esculturas alheias. A habilidade de cada um em permitir ou não que mãos estranhas interfiram em sua estrutura determinará cada vez mais a sua forma final. O mercado, o trabalho e a vida vão fazendo sua parte sem pedir licença: tac, tac, tac..., em ciclos até soar a última martelada.

Tocs e tecs das talhadeiras, tics e tacs do tempo, revelando a pessoa-produto da família, sistema educacional e profissionalização: foram talhados para o trabalho! A estátua é destinada para seu fim e exposta em salas, fábricas, consultórios, cabines, praças, fábricas, ruas, quartéis, cada uma ocupando seu espaço. O Mercado produz ídolos com o seu toque, como uma grande Medusa que transforma em pedra todos os que dela se aproximam.

Cada um assume uma forma, lapidados por condicionamentos seculares. Interessante é que a cor do granito e sua origem determinam seu valor. Algumas pessoas possuem riqueza de detalhes, outras, mais brutas, são usadas para fins menos nobres. O domínio da estética sobre a ética fascina mais do que o contrário.

Porém existe um mistério, que ainda fascina as pessoas. Por algum motivo, algumas estátuas começam a escutar o silêncio, percebendo sons inaudíveis. É um som surdo, denso, rítmico, tuc, tutuc, tuc... tuc, tutuc, tuc...

Que som é esse? Como em um momento de iluminação, a origem é finalmente identificada por quem procura: vem de dentro da estátua, um som abafado, contido, como se fosse um código, o código da vida. Um coração batendo, desejando sair de sua cápsula de pedra, tuc, tutuc, tuc!

Por algum motivo inexplicável há vida dentro da pedra. Porém, camadas de rocha impedem o acesso ao interior e se alguém desejar libertar o coração, o peito deverá ser aberto. A estátua, porém, corre o risco de se partir: a ousadia pode custar caro. Mas na vida tudo que é bom é arriscado.

Estruturas que aprisionam, escravizam e determinam comportamentos devem ser partidas para liberar a vida. Quem não estiver disposto a sacrificar seus ídolos não poderá crescer, mas quem desejar correr o risco verá o coração de pedra transformar-se em um coração de carne e vibrante. Quem ouve o silêncio interior chega a um momento de escolha. Cada pessoa deverá olhar para dentro de si e tomar sua decisão: continuar idolatrando o TER ou reconhecer que um novo caminho pode ser trilhado. A verdadeira crise não é externa, mas interna: é a crise da consciência e da coerência, despertando para a nova vida, para o SER.

Superar esta crise exige renúncia. Libertar-se de tantos condicionamentos exige disciplina. Cada passo nesse caminho é como a martelada com o cinzel no peito, dia a dia, até atingir o coração e libertá-lo. Neste momento um milagre acontece: o corpo adquire sensibilidade, flexibilidade e consegue sair da rocha! É a vida saindo da rocha como o Cristo ressurreto, após morrer para si mesmo.

É preciso saber pausar, é preciso aprender a ouvir, é preciso sentir. A pausa dará a capacidade de perceber os sons da alma e o ritmo da vida, mesmo em meio ao burburinho do dia a dia. Entramos no mundo através da primeira inspiração, e dele saímos entregando a última expiração. Temos a data de entrada, mas não sabemos a da saída.

Viver é ter consciência do que é feito no intervalo deste breve momento. 

domingo, 3 de junho de 2012

Poeira do caminho



Poeira do caminho

Lembranças, como breves instantes
São como poeira na velha estrada
Guardam histórias de viajantes
Que passam pela vida, em sua jornada.

Dos viajantes restam fragmentos
Sobrepondo histórias no caminho
Sorrindo prosseguem, sem lamento
Reconhecendo que não andam sozinhos.

Empoeirado por tantas lembranças,
Prossegue sereno o caminhante
Confundindo a memória com a esperança,
E a esperança com o instante.


Photo by Paulo Brabo

sábado, 2 de junho de 2012

Eu não marcho, ando!

   *

Eu não marcho, ando.

Como "marcha" gospel, a ação “Marcha Para Jesus” está coerente com sua proposta. O ‘Jesus marchado’ é o JG, o queridinho e insonso "Jesus Gospel", o cara das paradas de sucesso e campeão de vendas. Se em 1990 o ‘Engenheiros do Hawaii’ descobriu que o Papa é Pop, hoje sabemos que Pop é Jesus!

O nome-de-jesus vende qualquer coisa: salvação, bandas, músicas, teologias, prosperidade, igrejas, denominações, propriedades. Vende viagens, veículos, camisetas, livros e pirulitos. Vende graças, curas e bênçãos no atacado e no varejo. O nome-de-jesus é hétero, é gay, é milionário, é pobre, é opressor e oprimido, é discurso, vende até atitude. Vamos alavancar as vendas e marchar, mostrando a força de nossos produtos!

Jesus é Pop, Jesus é gospel, o nome-de-jesus vende. Aproveitem a liquidação, do Gólgota aos Shoppings, de Jerusalém para o mundo, Jesus-for-sale! O nome de Jesus não é mais o nome sobre todo nome, apenas a marca sobre qualquer outra marca: lascas da cruz com o nome de Jesus!

No nome-de-jesus se elegem e trocam-se votos e favores, fundam-se e derrubam-se impérios e nações, justificam-se homicídios em nome de guerras santas e omissões em nome da missão.

No nome-de-jesus abrem-se e fecham-se faculdades teológicas, admiráveis mundos novos de vocações ancestrais. Pra estudar tem que pagar, invista em sua carreira! Não tem grana, não tem vocação. No rito do poder, fantasiados de pompa e solenidade, mestres e doutores trocam títulos entre si e pavoneiam-se em rapapés, arrogantes 'memes fuckyea'.

No nome-de-jesus campanhas bem intencionadas são feitas, alimentos, roupas, panelas, brinquedos para todos, relatórios apaziguadores para os contribuintes, mas não se mudam os hábitos consumistas-alimentares de uma geração glutona cuja fome é o planeta. Doam-se as sobras de mesas fartas para instituições que terceirizaram o bem fazer. A culpa é paga mensalmente em templos cada vez maiores, aceita-se cash, carnê e cartões de crédito: amortize sua culpa em até dez vezes! Dízimo com quem andas e te direi quem és.

No nome-de-jesus a unidade cristã é vendida em algumas horas de marcha, mas quem paga a conta é a hipocrisia ao longo do ano. Depois da festa, cada um vai para sua trincheira teológica, como gado obediente recolhendo-se ao curral no final do dia.

É esse Jesus Pop que marcha pregado pelos arautos do “Féstfood”, ajustados à demanda do mercado. Os templos tornaram-se verdadeiras zonas-fazendas de conforto. Neles são arrebanhados crentes e teólogos, gente sincera e gente com muita cera, cada um se acomodando em seu espaço. Pessoas descoladas, revoltadas, caretas, iludidas, doentes e ativistas de teatro que também aprendem a representar uma fé conveniente a cada ocasião.

A igreja confundiu-se com templo e denominação. Nela se refugiam corajosos visionários de outrora, touros indomáveis, agora domesticados, castrados, bois reacionários de plantão. Saem de seus redis para marcharem com suas torcidas organizadas, mostrando a força e as cores de seu time. O boi manso, depois de servir aos propósitos alheios, segue para o abate mugindo tristemente. Ao fundo, ouve-se acanção lamento do Profeta Zé Ramalho, Admirável Gado Novo, misturado e religioso.

Sapateados e coreografias ensaiadas, dentro e fora dos templos, anunciam bem alto, Jesus is Pop, Jesus is chic! Jesus se transformou no ícone mais popular do século XX e entrou no século XXI com a força de um tsunami, Jesus Chic is the Latest Fashion Trend! T-Shirts for sale!

Jesus Pop, Jesus Chic, a marca mais transada do mercado! Produto de marketing com um apelo de consumo irresistível: a aparência do bem. Poderiam começar a vender camisetas e charutos, CHE-sus, viva la revolucion, vamos conquistar o mundo, vamos eleger os discípulos de Jesus Pop! - Zaqueu, desce desse carro de som! – Quem, eu? Tá me confundindo, meu lugar é no topo, sou filho do rei!

O barbudo de Cuba marchou, foi preso e acabou fuzilado. O barbudo da Galiléia marchou, foi preso e acabou crucificado. Mas ambos não marcharam apenas um dia, uma vez por ano: andaram todos os dias, semana após semana, ano após ano até encontrarem seu destino. Foram coerentes com sua missão. Os dois conheciam muito bem os riscos de seu caminho e abraçaram conscientemente seu destino, sem direito a racionalização, escorregadelas teológicas ou políticas na hora do aperto.

Marchar uma vez por ano fazendo barulho com as pomponetes e atraindo a mídia é gospel, é pop, é voto. Mas atenção, o ministério evangélico adverte: barbudos andarilhos acabam fuzilados ou crucificados, afastem-se deles!

"Se alguém quiser andar comigo, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.” Acho que isso é um pouco diferente do que seguir um carro de som, gritar palavras de ordem, rezar nas ruas e ser contra gays e maconheiros. Jesus é Pop, mas a cruz não é. Jesus é in, a cruz é out, fora dos centros de consumo. Alternativas?  

Ao invés de apenas uma vez por ano, com saudações mútuas nas praças, as marchas deveriam se transformar em caminhadas de vida: ocupando favelas, abraçando seus irmãos e entregando alimentos, roupas e brinquedos diretamente a quem precisa. Ocupando espaços e ruas abandonados, plantando árvores e flores. Ocupando cargos públicos com ética e preocupação com cidades e mundos sustentáveis, fazendo uma limpeza nos poderes.

Ocupem rios e mananciais com ações de limpeza. Pintem prédios pichados, restaurem escolas e creches abandonadas. Consolem os doentes, visitem os presos, acolham crianças, órfãos e viúvas abandonadas. Separem o lixo, reduzam o consumo, construam cisternas e fontes, parques e jardins. Andem à noite, muitas noites seguidas, levando luz onde as trevas dominam. Expulsem de seu meio aqueles que, dizendo-se ‘irmão’, não passam de oportunistas.

Marchar para Jesus uma vez por ano ou aos domingos é fácil e conveniente. Andar com ele dia a dia, a vida inteira, é outra história. Experimenta marchar outros fins de semana para algum lugar diferente do seu templo, da sua zona de conforto, de sua Meca semanal. Ande dia a dia com ética, dignidade, honestidade, trabalho, partilha e gentileza.

Pula fora do caminhão-de-som existencial, aprenda ouvir e fazer perguntas, deixe o vento fresco bater em seu rosto, sinta a terra em seus pés. A realidade está lá fora. Sorria e comece a ter tempo para sair com os amigos, reúna-se sem agenda religiosa. Transforme orações e cânticos em atitudes.

Que a marcha se torne uma caminhada sem pressa, atenta à paisagem, às pessoas, aos sons e às cores. Quando você começar a despertar e tomar consciência você encontrará o Caminho. E quem encontra o Caminho não precisa mais marchar, pois chegou ao seu destino.

PS: aos familiares, amigos e irmãos que ainda transitam nas instituições: sei que são sinceros, sei que algumas coisas boas acontecem, mas sei também que um dia tudo isso passará e vocês encontrarão sentido e descanso para suas almas.
*Foto: Friendships are essential to our sense of who we are. Photograph: Guardian

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A semente, o solo e o semeador (para quem semeia)



Discutiam certo dia
A semente, o solo e o semeador
Culpa de quem seria
A semente que não deu flor?

Do solo, certamente
Diz o esforçado semeador
Que ao lançar a semente
Esperava sua flor

E se for mentirosa a semente,
Pergunta o solo duvidoso
Eu a acolhi de boa mente
Afirma, orgulhoso

Transpassada pela dor
Grita ferida a semente
Quem sabe então, o semeador
Seja o enviado da serpente?

Só mente a semente
Se mentiroso for o semeador
Pois seu trabalho somente
É semear por amor.

domingo, 29 de abril de 2012

Amor, Paixão, Vigiar & Orar


Conversávamos animadamente durante um jantar de casamento, três maridos. Cada um com seu tempo dedicado à mesma mulher (32, 28 e 22 anos de casamento), sentimos que éramos veteranos e ficamos à vontade para falar sobre a festa e vaticinar sobre a vida alheia. Contrariando o senso comum, nem Padre nem Pastor, apenas o Juiz de Paz. Aí ele correu um risco danado e se deu mal: em vez de cumprir seu papel secular tentou dar uma mensagem religiosa sem falar de Deus. Em determinado momento parecia uma máquina de costura descontrolada suturando idéias desconexas. Aplausos de todos pelo final, a máquina silencia e a festa continua.

Por conta disso nos distraímos conversando sobre o que mantém um casamento: a paixão? O amor? Os filhos? A boa vontade? Finanças? Interesses em comum? Isso nos motivou a conversar sobre relacionamentos, paixão, amor, ética e perseverança no bom caminho. O papo ficou muito agradável e foi adquirindo contornos de coisa séria conversada com bom humor, uma ótima combinação.

As esposas se distraíram com sua conversa e nós, estreitando o semicírculo, nos aproximamos. Surgiram algumas frases e comentários bem interessantes envolvendo casamento, política e trabalho. Estes temas caíram todos dentro do mesmo balaio: a diferença está na atitude das pessoas diante dos desafios da vida. Religião não é sinônimo de salvação, de casamento duradouro ou de ética nos negócios.

Quero ver quando a paixão acabar, disse um. Pois é, completei – aí eles deverão tomar uma decisão, esquecer os votos ou amar um ao outro, pois o amor é o que o amor faz de pois que acaba a paixão: gestos, atitudes e palavras, vencendo no dia a dia suas tentações e desafios.

Bom, disse ainda o outro amigo, então é preciso muita oração pra vencer a tentação... E ele mesmo completou: mas antes é preciso ter uma atitude de vigilância. Vigiar vem antes de rezar! E então ele contou uma história sobre uma tentativa de corrupção que sofrera e, se não estivesse atento, teria caído numa cilada. Enquanto falava fiquei absorto com o que ele dissera no início, como se diante de uma revelação – ou insight. Vigiar e orar...

A festa seguiu seu curso, diferentes e deliciosas entradas antes do grand finale da janta. Os docinhos, pecados em pedaços. Abraços, promessas de ‘vamos nos encontrar mais’, final de noite. Mas antes, os noivos apareceram para as formalidades, ‘quem são vocês?’, perguntaram. Olhamos um para o outro, rimos, ‘somos apenas os maridos das esposas que trabalham com sua mãe!’ Sinal dos tempos.

# O casamento

O casamento é uma terra virgem (nem tanto hoje) adquirida por um casal. Ela tem fronteiras e limites estabelecidos. Talvez, por não entenderem de casamento ou de limites, alguns resolvam pular a cerca e explorar outros campos. Ou ainda, existem aqueles sem terra que resolvem invadir campos alheios, gerando conflitos e disputas muitas vezes insolúveis nesta vida. Por conta disso, muitas terras ficam abandonadas.

Cabe à paixão preparar a nova terra. A paixão é por natureza intensa, vibrante, uma energia transformadora e motivadora. Mãos no arado, o casal segue adiante e não olha mais para trás. Nada existe que possa resistir à sua força: retiram pedras e tocos do caminho, contornam obstáculos, superam tempos difíceis, queimam com a chama que arde no peito o mato, limpando o caminho.

Motivados por um sonho comum, assumem compromissos e responsabilidades, registrando publicamente seu campo. Ao dizerem o ‘sim’ um para o outro, dizem ‘não’ para todas as outras possibilidades: sua palavra é sua honra, e o papel passado de mão em mão é a testemunha silenciosa deste pacto. Juntas e apaixonadas vão trabalhando a terra, deixando sulcos de esperança no solo.

# Amor & paixão

Campo preparado, corpos suados e cansados, sorriso nos lábios: final do dia, o último sulco de terra foi arado, a paixão finalmente começa a encontrar seu descanso, os dias passam. Aos poucos, pequenos e delicados detalhes são engolidos um a um pela sucuri da rotina, insaciável. Sorrateiramente ela desliza pela casa engolindo sentimentos, prioridades, palavras e o tempo do casal. Acaba se aninhando na cama do casal, bem entre os dois, que passam a abraçá-la ao dormirem. Finalmente ela engole a paixão, dá um arroto de boa noite e dorme seu longo sono. Será despertada com os filhos, que também serão engolidos sem maiores cerimônias.

O que aconteceu? A paixão foi consumida, desapareceu. O corpo e a mente, cansados, pedem naturalmente um descanso. É impossível viver sempre apaixonado, aquela energia toda, o tempo todo consumindo as forças! Mas e agora? O campo todo arado, a terra pronta, a rotina estabelecida, desejada ou não, necessária ou não, mas definitivamente instalada e acomodada na vida dos dois. Sinais de mato e problemas vão surgindo.

Aos poucos o casal percebe que alguma coisa precisa ser feita, desafios e decisões surgem no horizonte. Eles conversam, discutem, brigam... Se olharem para trás verão a possibilidade de renovar a emoção e o sentimento da paixão do passado, da adrenalina da conquista. Sairão em busca de outros campos, desejando reviver um passado que não existe mais. A renúncia faz parte da maturidade. Como transformar a paixão – ou o que dela sobrou – em amor? É preciso dar um jeito, fazer alguma coisa. Ou, como criança que cansou de seu brinquedo, sair em busca de outra diversão. Mas um dia mesmo a criança mais teimosa vai ter que amadurecer. Quanto mais resistir, mais vai sofrer.

Fazer alguma coisa ou dar um jeito não significa encontrar um novo sentimento, mas decidir dar um passo alem, transformar o sentimento atual tomando decisões e assumindo as consequências: dar o passo adiante da paixão, querer aprender o caminho do amor! O amor “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” não é amor, é paixão. A paixão é apenas o primeiro passo em um relacionamento.

A chama serve pra queimar muita energia e mato, mas e depois? A paixão deve ser lembrada e reverenciada, acolhida e bem querida, mas depois precisa ser transformada em algo que dure enquanto dure a vida. Descobrir o fogo pode ser obra do acaso ou do destino, mas aprender a dominá-lo é uma arte intencional. O fogo faz parte do amor, mas não é o amor. Ele convida para o aconchego e para o calor e, nessas horas, lembrar-se do campo virgem e da terra arada é celebrar a paixão mediada pelo amor.

A paixão prepara a terra, o amor semeia, cuida e colhe seus frutos ao longo dos anos. No casamento, na terra da promessa, a vida floresce mesmo enfrentando as maiores adversidades. Cada semente começa com uma mesma letra, “D”, e termina com “A”: decisão e ação.

Nos relacionamentos a desculpa da “alma-gêmea” que se encontra depois de casado é apenas uma racionalização infantil de gente grande mimada, sempre à procura de um brinquedo novo. O amor não surge “de repente”, do nada, ele é cultivado intencionalmente pelas pessoas. O amor é o produto da paixão amadurecida.

Ninguém casa por amor – e aí está uma baita confusão, pois confundimos muitos outros sentimentos legítimos com o amor. Não é o amor que é cego, é a paixão e o desejo. O amor você decide aprender depois. O amor é decisão e não sentimento. A paixão é energia pura, rapadura e açúcar! O amor é fermentado, destilado, gota a gota, dia a dia...

O primeiro e verdadeiro gesto de amor não tem nada a ver com abrir portas, pagar a conta, comprar um presente, falar palavras bonitas, sexo ou se enfeitar: é decidir honrar e manter a palavra dada num momento de paixão. As sementes guardadas enquanto a terra era preparada pela paixão agora podem ser lançadas ao solo. Elas vão germinando e crescendo através de pequenas ações de cuidado até darem seus frutos, até na velhice. Se abandonarmos o terreno arado, se abandonarmos o cuidado do campo, vai dar m.... mato!

# Vigiar & Orar

Acontece com todos: somos eventualmente tentados por uma linda mulher ou um belo homem, ou por alguma outra coisa que nos seduz. Nas horas seguintes teremos que tomar decisões significativas: seguir o caminho do prazer ou do desejo, ou, dizer não, obrigado e manter-se dentro dos limites da promessa, da palavra empenhada, do caráter e da ética. O caráter é a crença em ação. Safadas são as pessoas de oração que não agem de acordo com seus valores.

É preciso estar atento, vigilante, as ciladas são muitas e sutis. Na hora da tentação, como agir? Existem apenas dois caminhos, independente do tamanho ou da complexidade da situação: o certo ou o errado. Dois caminhos que darão frutos muito diferentes. Cada passo dado numa direção ou noutra trará suas consequências. Vale lembrar que uma palavra dada refere-se não apenas à fidelidade numa união, mas a situações de trabalho, esportes, lazer, contratos, da vida como um todo, onde se apresentam muitas oportunidades para a mentira, para o jeitinho, para a malandragem de querer levar vantagem às custas de alguém. Quando nossas crenças afetam outras pessoas, tornam-se questões éticas.

Fomos ensinados desde pequenos: “-Vigiem e orem para que não caiam em tentação.” Compreendemos bem a dimensão da oração, nossa devoção a Deus em comunhão e intimidade. Se não acreditamos em Deus, torcemos para que um conjunto de normas e valores seja estabelecido: isso também é um tipo de fé. Mas de nada adianta a oração ou o desejo sem uma atitude de atenção e cuidado. Jesus estava no Getsêmani com alguns amigos, orando. Pedro foi acordado com ele falando ao seu ouvido: “nem uma horinha vocês puderam vigiar comigo?” Quem não consegue ficar alerta na escuridão não percebe a luz chegando. O sentinela que dorme no posto não percebe o inimigo se aproximando.

Orar é estar com Deus em comunhão, vigiar é a oração em ação. Posso orar sozinho, mas a vigília é comunitária: eu oro, nós vigiamos. No casamento, a vigília faz a diferença.

Oração é entrega e rendição diante de Deus; vigilância é atitude diante das pessoas. Orar é amar a Deus sobre todas as coisas; vigiar é amar ao próximo como a si mesmo: o que desejo para ele, desejo para mim. Orar sem agir, ou agir sem orar são ações de alto risco. A oração adquire significância quando se compreende o que está acontecendo. Orar é discernir por que se vigia. Vigiar é a atitude da sentinela, o uso da razão, do poder de observação, de crítica e proatividade. É análise de conjuntura, de cenários reais e possíveis, de atenção a movimentos e sons suspeitos, interpretando o contexto para poder tomar a melhor decisão.

Na oração temos nossa mente disciplinada e focada em Deus pelo Espírito. Na vigília usamos os órgãos dos sentidos para perceber, refletir e agir com sabedoria: olhos, ouvidos, pele, olfato, tudo ao mesmo tempo sendo processado pela mente, sendo elaborado, adquirindo significado. Atenção e alerta, estímulo e resposta, prontidão para a atitude adequada conforme cada situação. Se estiver atento, posso dar conta da rotina antes que ela cresça e sufoque o casamento. Quem vigia percebe os indicadores de sua presença.

Do grego “gregoréo”, a palavra “vigiar” remete à Grécia antiga, onde os romanos em suas conquistas encontraram a primeira cidade-estado habitada pelos ‘grekkoi’. Eram guerreiros de espírito alerta. O conjunto de estados da região era conhecido como Hélade e eles se chamavam Helenos. Associar os “grekkoi” à uma atitude de “alerta” deu origem à palavra latina ‘vigilius’. No Século VII o Papa Gregório (vigilante) I introduziu uma série de músicas especiais para as horas de vigília, que depois ficaram conhecidas como Canto Gregoriano.

A atitude de vigília é a capacidade de estar alerta contra os inimigos. Simbolicamente, a queda do homem foi devido à falta de vigilância do primeiro casal. Eles viviam em constante comunhão com Deus no Jardim do Éden. Mas não vigiaram, caíram numa cilada, seduzidos pela primeira sucuri existencial. Cansados de Deus, cansados da rotina de cuidar de seu campo, onde também estava o jardim, resolveram experimentar outras emoções.

No Getsêmani Jesus redime a história da humanidade em outro jardim, o Jardim de Oração. Ali ele tomou a decisão de pagar o preço e tomar o cálice da coerência. Viveu com paixão a sua missão, e morreu conscientemente pelo que acreditava. Por isso ele alertou Pedro e seus amigos: vigiem e orem! O espírito está pronto, mas a mente precisa estar alerta contra as ciladas! Habacuque, outro profeta do passado, fez a seguinte declaração diante dos desafios pelos quais passava: “Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a muralha (vigiar); aguardarei para ver o que Deus me dirá” (oração).

Onde estão os postos de vigia no casamento? Quem está alerta? Certa vez visitei o morro do Cindacta em Urubici, SC. Estava um frio medonho, cheguei junto à guarita da Aeronáutica e não vi ninguém. Filho de militar que sou, sabia que tinha alguma coisa errada: guarita abandonada? Problema sério. Liguei a filmadora fui entrando e chamando... Encontrei os soldados dormindo, ouvia seus roncos! Se acordasse os caras, poderiam se assustar, atirar e depois perguntar. Melhor sair de fininho.

Casamentos acabam. Por que? Vários motivos. Arrisco dizer que o principal é devido ao abandono dos postos de vigia, da atitude de alerta e atenção mútuas, levando a riscos desnecessários e ciladas. Um adultério, uma mentira, provocações, ciúmes doentios, inveja, indelicadeza, abandonar o bem querer ou o querer bem, melindres de crianças mimadas, egoísmo (“meus direitos!”), preguiça de fazer o bem, e por aí vai. No dia a dia a negligência das pequenas ações, a decisão de não cuidar, levam a uma situação típica: grandes arapucas sendo armadas.

Aí um dia as pessoas acordam e dizem: “o amor acabou”! Acabou nada, foi morto. A paixão se foi e o amor não amadureceu, morreu nas mãos de algum inimigo, de pessoas negligentes. A semente chegou a crescer, promessa de linda árvore no jardim, gostosos frutos, mas depois foi abandonada. O espaço é dado para as ciladas. A responsabilidade é individual, apesar de sempre se tentar jogar a culpa no outro ou em Deus.

Apesar das atividades religiosas e das rezas durante a semana, os desencontros se sucedem. Um relacionamento se constrói com atitudes e não apenas com orações.

Oportunidade de trair o cônjuge? Apenas diga não, perceba a cilada bajulando sua vaidade. Oportunidade de uma fraude? Diga não, cuidado com atalhos, não abandone seu posto.

Vigie sua vida. Vigie seus hábitos. Vigie sua boca. Vigie seus olhos. Vigie suas mãos. Vigie seu coração. Vigie sua mente. Vigie se sua devoção a Deus não se tornou uma desculpa para abandonar seu lar. Seja o senhor de seu destino. Pare, olhe, escute, desperte: o inimigo está ao lado, permaneça firme em sua posição. Seja proativo e não deixe a rotina crescer e sufocar a semente do amor plantada com tanta paixão!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Livro, um amigo (Dia do livro, 18 de Abril).

Ver o mundo num grão de areia, o paraíso numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade num momento. W. Blake


Olá, meu amigo!

No Natal, à hora da Ceia, mamãe colocava um livro debaixo do prato de cada um dos seis filhos. "Sítio do Picapau Amarelo", (Monteiro Lobato, 17 volumes capa dura, cor vermelha) e "Contos da Carochinha" (11 volumes, Livraria Quaresma, 1959 - RJ), foram meus primeiros amigos - aprendi a ler, literalmente, com eles. 'Éramos Seis' não foi apenas o livro de Dupré (D. Lola e sua família), mas também a realidade de seis irmãos e irmãs que foram juntando livros ao longo da vida, pegando amor à leitura, aprendendo a partilhar o tesouro das letras.

Após o Natal tínhamos que ler devagar, saboreando as páginas, esperando o irmão acabar sua leitura e poder então trocar os livros. Ou, na calada da noite, surripiávamos obras alheias escondendo-as no banheiro para usufruto posterior, geralmente causando a ira de quem aguardava a vez – de usar o sanitário, não o livro. Muito interessante como livros e banheiro combinavam: emoções e fantasias, tudo junto e misturado. A marca da tampa da privada aparecendo na parte de trás das coxas denunciava o leitor distraído: passara dos limites! É claro que ninguém avisava ninguém e deixávamos para a rua as gozações e imaginação da molecada pela demora no trono. 

Tanto a literatura brasileira quanto versões traduzidas da norte americana e inglesa foram enchendo nossas prateleiras e cabeças, povoando nossa imaginação. Mark Twain, Dickens, Lobatos, Machados, Josés, Arianos, Agathas, Cecílias, Marias, Manueis, Euclides, Vernes e tantos outros. Biografias, histórias de batalhas e seus heróis, romance, poesia, contos, narrativas bíblicas e livros devocionais. Tecnirama, Conhecer, enciclopédias, Círculo do Livro, Seleções Condensadas de Livros do Reader's Digest, e outros mais ou menos nobres, mais ou menos ilustrados, mais ou menos lidos e folheados, mas sempre ao alcance das mãos.

Em tempos onde a Internet era ainda ficção, para as horas de chuva e tédio restavam as brincadeiras de correria dentro de casa e os “agarra-agarra”, algazarras que acabavam sempre com alguém chorando e uma bronca generalizada. Da bronca, lá vinha o “castigo”, o pai com cara de poucos amigos: "-pega lá um livro e vá sossegar no seu canto!"

O 'canto' de cada um, numa casa de seis irmãos, era a cama onde só era permitido seu proprietário e o nosso labrador preto. Ele veio de navio da Inglaterra até o Rio de Janeiro. O Burly, apesar de inglês tinha sangue escocês, amigo fácil e fiel. Junto com ele veio o Sky, um Dálmata esnobe e cheio de classe como só um inglês sabe ser. Quando irritado, sentava virado para a parede e só saía de lá bom tempo depois, como só um inglês pode fazer. Aliás, diz a lenda que o primeiro registro de um Labrador em Brasília foi o nosso: Red Game Burly, resta conferir.

Na adolescência, digno de nota era um clássico que fazia misteriosas aparições em nossas camas: “O Corpo Humano”, de Fritz Kahn. Havia também um outro da mesma linha, nome esquecido, mas desenhos bem lembrados. Geralmente eram devolvidos no banheiro, sem comentários.

Crescemos colecionando e fazendo histórias. Hoje, colecionamos lembranças e ainda rabiscamos a vida nas páginas que nos restam. Reler um bom livro é como visitar aquele parente querido há muito tempo não visto. Recordamos aventuras, casos, emoções. Muitas vezes, lembranças paralelas são trazidas e enchem a sala com um cheirinho de saudade, como de bolinhos de chuva com canela das tardes chuvosas. Outras vezes, não suportamos as palavras e deixamos nosso amigo falando sozinho, dezenas de línguas agitadas ao vento. Alguns livros, assim como pessoas, simplesmente perdem o sentido e então os abandonamos às traças, destino final para quem nos iludiu com vãs palavras ou falsas promessas.

Ao reler ressignificamos aprendizados e lições, reforçamos idéias, consolados por encontrar alguém que “pensa como eu”! Cheiramos páginas amareladas sentindo o bafo do tempo e odores do passado, sorrisinho no canto dos lábios. Olhos atentos chegam a ouvir sons esquecidos nas prateleiras menos acessadas da memória. Aquela pequena mancha na página denuncia a emoção que escorreu pela face do leitor, selando uma amizade definitiva.

O sonho do homem para construir a máquina do tempo já foi concretizado, as pessoas apenas não se dão conta. Com os livros visitamos o passado e seus personagens reais ou imaginários, testemunhando seus feitos, romances, conquistas e tragédias: com eles vencemos gigantes, conquistamos mundos, salvamos pessoas em perigo, vivemos uma grande paixão, descobrimos uma cura, voamos no primeiro avião, ganhamos guerras, produzimos aquela peça e solucionamos os maiores mistérios.

A ficção nos lança para o futuro com a força da imaginação e, perplexos, fazemos coisas fantásticas, com um certo ar de tédio, como falar com as pessoas e ver suas imagens em um aparelho que cabe na palma da mão, ou viver em um mundo sem escolas onde cada um é protagonista de seu conhecimento e vive em paz com seu semelhante.

Dizem que um dia os livros vão acabar, substituídos por máquinas do tempo mais modernas. Pode ser. Mas enquanto isso não acontece, vou encomendar mais umas prateleiras, é sempre bom fazer novas amizades.

Obrigado, velho amigo, por tantas histórias, por tantas lembranças e pela esperança renovada em cada página!

Heim? O que é que você está perguntando? Quem seria meu amigo preferido? Difícil... são tantos, mas OK, posso dizer pelo menos um: paradoxalmente, é o cara que mais transformou e tocou vidas sem escrever nada. Pensando bem, a única coisa que escreveu foram apenas algumas palavras na areia, que quem consegue ler guarda para si. Usou a história como papel e a vida como pena. Viver, ele diz, é como pegar uma folha em branco e começar a correr o risco, sem direito a usar a borracha.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sem palavras


A agência de notícias France Presse ganhou seu primeiro Pulitzer nesta segunda-feira (16) na categoria "Foto Últimas Notícias", com a imagem comovente de uma menina que grita horrorizada logo depois de um ataque suicida num templo xiita, lotado de pessoas em Cabul. A fotografia foi assinada pelo afegão Massoud Hossaini, de 30 anos.
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1076978-foto-de-menina-chorando-em-cabul-ganha-pulitzer.shtml

domingo, 8 de abril de 2012

Apenas um amigo pra conversar

Ele era um construtor: sua alegria estava em organizar, construir e criar novas paisagens, ainda num tempo que não se precisavam pagar propinas. Entendia de tudo o suficiente, era um artista e um mestre em sua arte. Sua formação foi às antigas, também no tempo em que diplomas não atestavam a ignorância de ninguém: aos pés do pai, meticulosa, detalhista, paciente. Juntos eram insuperáveis, apesar das muitas tentativas de imitação que se seguiram.

As pessoas diziam que quando ele estava trabalhando o tempo parava, como naquele instante que uma bola arremessada deixa de subir e ainda não começou a cair. Naquele exato momento, dizia sorrindo, qualquer coisa poderia ser feita!

Acertadamente alguns sabiam que sua imagem estava refletida em cada peça criada e sua assinatura era curiosa, um pequeno espelho na entrada de tudo que ele fazia. Ficou muito famoso, conquistou a admiração de muitas pessoas. Outros, o temiam. Porém, apesar de suas magníficas obras era uma pessoa simples, não se destacava no meio da multidão, por isso a maioria simplesmente o ignorava: muitos cruzavam com ele pelo caminho sem se dar conta da pessoa que acabara de passar.

A vida dá alguns presentes que recebemos sem merecer e sem entender. Foi assim que certa vez eu o encontrei – ou melhor, ele me encontrou. Na verdade, batemos um no outro num cruzamento: era Páscoa e eu saía rapidamente da cafeteria, ainda saboreando um espresso no copinho de isopor quando, ao dobrar a esquina, batemos um no outro indo ambos para o chão, o café indo para os ares. Antes que pudesse levantar, ele já de pé estendia a mão, sorriso aberto, desculpe, estava distraído, disse. Quando estendi a mão em sua direção ele me olhava fixamente e senti que me puxava pelo coração.

Sem saber porque, deixei-me levar pelo momento. Nunca havia olhado por tanto tempo um homem nos olhos, nem meu pai. Coisas de nossa formação, avessa a olhares e toques estranhos e socialmente formatados. Ele quebrou o gelo, piscou um de seus olhos, perguntou se estava bem. Percebi que ele não estava com pressa. Meu compromisso também pareceu, naquele momento, não ter tanta importância.

Trocamos algumas palavras, não foi nada, que que é isso, estou bem, não, não precisa comprar outro café, eu é que estava distraído. Quando notei já estávamos sentados em um banco da pracinha próximo à cafeteria. Poucas pessoas circulavam naquela manhã de sábado, a maioria eram idosos que seguiam devagar: quando se envelhece os passos ficam curtos, a velocidade diminui como se o corpo buscasse instintivamente adiar o amanhecer do último dia. Na velhice o tempo vai se alongando até ser engolido pela eternidade.

Pensei na sua fama e nas obras que havia feito. Admirado por sua humildade em gastar tempo comigo, antecipava a cara dos amigos ao contar depois o encontro que tivera. Desejando uma informação íntima para reforçar minha história, ousei perguntar qual teria sido sua maior obra, a que dera mais alegria. Mais uma vez, ele sorriu. Em seguida, silenciosamente chorou e depois de um minuto que pareceu durar mil anos ele contou uma história.

Havia decidido enfrentar o maior desafio de sua vida: transformar uma grande área, devastada por eras de abandono, destruição e escuridão num imenso e vivo jardim. No princípio ele pensou em um tipo de zoológico sem cercas: preparou o solo, fontes de água, vegetação exuberante. Começou a testar diferentes espécies enquanto ia construindo tudo. Algumas não resistiam e sumiam, mas outras foram se adaptando e permanecendo.

Colocando em ação todo seu conhecimento e habilidade, foi dando forma ao caos existente. A topografia era admirável, paisagens incríveis! No final conseguiu fazer com que diferentes espécies estabelecessem entre si um pacto de equilíbrio. As cores, cheiros, sons eram um desafio aos sentidos e deixavam cada espaço como sendo uma experiência única, não dava pra dizer que ‘este-era-melhor-que-aquele’. A beleza estava exatamente na diversidade, ninguém era melhor nem pior, todos eram igualmente diferentes uns dos outros.

Gostou tanto do que fez que também resolveu construir uma casa para si, discreta, confortável, espaçosa. Ficava num ponto especial, onde um grande rio se dividia em quatro braços, formando um delta extremamente fértil, compondo a paisagem de um jardim que era um paraíso! Por isso batizou sua casa de “O Jardim”. Feliz, animado, esfregou suas mãos e sentou na varanda admirando toda sua obra. Mas um sentimento o incomodava.

Sabe aquela sensação que você tem quando viaja, vendo coisas diferentes, mas, sem poder compartilhar nada com ninguém? Como você se sente, perguntou, interrompendo a narrativa. Pensei um pouco, respirei fundo, fechei os olhos e revisitei vários lugares onde havia passado, com pressa ou devagar, apenas com alguma missão na cabeça. Havia um sentimento comum em cada um destes lugares, que era muito forte principalmente à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Respondi: solidão.

Porque, perguntou novamente. Ora, respondi, porque não havia ninguém para conversar, pra bater um papo e trocar idéias sobre o que havia visto e estava acontecendo! Acabava no barzinho do hotel, ou em algum restaurante, às vezes flertando com o perigo para me distrair. Ora, quando conversamos sobre alguma coisa damos a ela um significado especial, dividimos um tesouro, fixamos melhor os acontecimentos do dia, sei lá, completei meio desanimado por não ter podido explicar de forma decente um sentimento muito real. Uma coisa é certa: é muito legal ter alguém ao lado, nem que nada precise ser dito.

Pois é, ele então continuou: as pessoas dizem que eu construí aquele imenso jardim pra receber um elogio, ser reconhecido como um grande construtor ou artista, receber algum louvor ou glória. Nada disso. Na verdade, eu fiz e faço novas coisas para momentos como este, para poder conversar com um amigo. Todos gostam de compartilhar sentimentos, emoções, trabalho, alegria, dor. Compartilhar é a base dos relacionamentos.

Ao fazer minha casa no jardim, à beira do rio, eu tinha um grande desejo: hospedar pessoas, ter alguém para conversar, dialogar, compartilhar tudo. Ter pessoas pra pescar junto comigo, colher umas frutas ou fazer uma caminhada, apreciando a paisagem. De que adianta uma bela paisagem e um local maravilhoso (modéstia à parte) se tudo isso não pode ser compartilhado com mais ninguém? É quando vemos com o coração, e não os com os olhos, que descobrimos o sentido e o propósito de todas as coisas! E o coração, pra poder ver direito, deve ter outro coração ao lado: assim como os olhos.

O compasso do coração que bate sozinho é o da solidão. Você sabe disso, experimentou em suas viagens. Por isso você tira fotos, compartilha, conta histórias de suas andanças: você precisa ouvir comentários, ver as pessoas reagirem a eles e às imagens que trouxe para poder então ressignificar o que você experimentou: é a maneira de dar algum valor e transformar uma experiência solitária em um evento comunitário. Fomos feitos para o diálogo e para construir relacionamentos! Tudo que vai contra isso não é bom, principalmente se te ilude com atalhos como “curtir” ou “compartilhar”.

Então, como estava dizendo: não preciso de elogios – sei que o que faço é muito bom. Mas gosto de me relacionar com as pessoas, por isso construí o jardim com a possibilidade de outras moradas. Mas não é fácil mantê-lo. Fiz uma primeira experiência, convidei um casal bem bacana. Mas eles trouxeram outra pessoa pra morar junto, sem falar comigo, deu a maior confusão, acabaram tendo que ir embora. Resolvi então ir com calma.

Ao longo do tempo tenho convidado pessoas para desfrutar o jardim. Ficam primeiro morando comigo. Poucos se adaptam e constroem suas casas junto à minha. Afinal, alguns princípios são importantes. O jardim é muito grande, eu deixo as pessoas morarem, mas elas precisam seguir duas regras básicas: ajudar a cuidar do jardim e serem amigas umas das outras. Afinal, foi para isso que as convidei. A maioria, porém, degrada o jardim, oprime a vizinhança e depois passa a me ignorar. Não sei o que há de errado com essas pessoas. Então, quando não tenho mais alternativas eu as mando embora.

Percebi, nesse momento, que nossos corações estavam batendo juntos, no mesmo ritmo. Aquele encontro não fora obra do acaso, uma trombada no caminho. Naquele sábado de Páscoa eu estava recebendo um convite: o cara queria ser meu amigo, estava dizendo que se eu quisesse eu poderia morar com ele! Fiquei sem saber o que dizer, sem saber o que fazer.

Ele gentilmente me convidava, dizendo  ainda: foi muito bom conversar com você! A propósito, feliz Páscoa.

Dizendo isso, levantou-se. Eu sabia para onde ele estava indo e fiquei com uma vontade imensa de seguir com ele pelo caminho. 

Alguns passos adiante, ele parou, voltou-se em minha direção e perguntou: até amanhã? Não pude responder, pois nesse mesmo instante olhei para o chão, atraído pelo som do copo de café que acabara de cair.