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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FRANCIELE, FELIZ NATAL!

Deus ouviu o choro do menino, (...) lá onde você o deixou. Genesis 21.17

Há muitos anos uma menininha, como tantas outras, nasceu em uma casa pobre. Sua mãe e seu pai, alcoólatras e viciados, faziam com que sua infância fosse um inferno: marcas de violência se espalhavam pelo seu corpo, os ossos saltavam de sua pele. Na época, ela pesava 1/3 do peso de minha filha que, coincidentemente, tinha a mesma idade.

Quando visitei a Franciele pela primeira vez, a pedido de alguns vizinhos que não sabiam o que fazer, percebi que ela estava morrendo. Fiquei sem saber o que fazer. A sua mãe me recebeu, tentou empurrar um cafezinho, que recusei: o cenário não estava para amenidades. Em um determinado momento ela pediu licença e me deixou sozinho com a menina, um bom tempo. Cansado de esperar pela sua volta, fui embora. Retornei horas depois com uma amiga. Encontrei a casa ainda vazia. Apenas a Franciele estava ali, deitada em sua imundice. Olhos arregalados, a barriga parecendo um cupinzeiro em terra árida. Em seu rosto, antigas lágrimas haviam deixado uma trilha de sofrimento, um choro que ninguém escutou.

Olhei pra minha amiga. Ela me olhou de volta e antes de poder terminar seu discurso de advertência já estávamos no carro, Franciele no seu colo, indo para casa. Deixei meu número de telefone com a vizinha e pedi para avisarem à mãe – que não me ligou para saber da filha. Uma amiga pediatra deu as orientações de emergência, minha esposa, que também é médica, deu um bom banho naquela bonequinha de porcelana. Assustada, ela apenas fazia cara de choro, mas sem emitir nenhum som.

Medicação, vermífugos, suplementos, atenção. Minha mãe aderiu ao socorro, amigos ajudaram. A Franciele, aos dois anos, pela primeira vez percebia pessoas à sua volta que não a machucavam. Voltamos àquela família, informamos que estávamos tentando salvar a vida da criança. A mãe tentou chorar, mas apenas riu e disse que queria a menina de volta. Ok, depois, eu disse. E se ela achasse ruim, que fosse reclamar pra polícia.

Com o coração partido, mas sabendo que precisava fazer isso, um dia entregamos a Franciele de volta, saudável, com um enxoval muito bom, alimentos e promessas de visita regulares para “acompanhar seu desenvolvimento”. Em pouco mais de duas semanas, ela estava novamente marcada e o alimento havia “acabado”. Aos poucos, percebemos que sua situação se agravava. Alertamos a mãe: iríamos tomar atitudes mais drásticas, Conselho Tutelar, cara de poucos amigos.

Um dia, ao fazer a visita de costume, não encontramos ninguém. Fomos aos vizinhos, que informaram que a madrinha da Franciele aparecera e levara a criança embora. Tentamos ainda falar com sua mãe, sem sucesso. Ficamos felizes, pois sabíamos que a Franciele estaria longe daquele local. De vez em quando retornávamos e os vizinhos falavam que a Franciele não havia voltado. E nunca mais voltou.

Neste Natal lembrei-me de você, Franciele. Por onde você andará? Espero que hoje, aos vinte e três anos de idade, você esteja bem. Que você, assim como minha filha, possa sorrir e estar vivendo em paz. Que você tenha esperança. Que todas as crianças tenham também oportunidade, amor, cuidado, justiça e direito a uma vida digna. Quero também te agradecer, Franciele, pois a partir do que você me ensinou e mostrou o Natal passou a ser diferente. Deus a abençoe: Ele ouviu o seu choro e viu suas lágrimas, lá onde você estava.