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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Contra-corrente



Cardumes, gado e contrafogos.
A sociedade imprime sua força, regida pelo paradigma econômico, levando as pessoas a se comportarem como peixes que vivem em cardumes, guiados por “leis e normas” determinantes de comportamentos muitas vezes absurdos. É o gado tocado pelos capitães de seus coronéis.

Em seu livreto “Contrafogos”[1], Pierre Bourdieu comenta da frustração de um diretor de escola que que se tornou, a contragosto, o policial de uma espécie de delegacia; a sua escola. O sofrimento e a angústia deste mestre que deveria ocupar-se do ensino e não da fiscalização de alunos, pais e professores o faz analisar a Mão Direita do Estado em contraposição com o que ele chama de “Mão esquerda” (referência provável às mãos de Adam Smith e Rousseau).

A mão direita é a MÃO dos banqueiros, políticos, setor público, os burocratas e gestores das finanças. A MÃO esquerda são assistentes sociais, educadores, magistrados e, cada vez mais, professores, educadores e outros que lutam para manter os valores e defender (nem que seja institucionalmente) as lutas sociais do passado.

Citando a Bíblia, Bourdieu afirma que a mão direita não quer saber da esquerda. O sistema passa a viver para si, figuras políticas que retroalimentam o aparelho do estado a partir de eleições chamadas “democráticas”. Porém, um olhar atento percebe que a democracia, onde a liberdade de escolha do indivíduo é respeitada em todas as suas instâncias, nada mais do que a representação do trocadilho inserido em seu nome: o governo do “demo”! É coisa do capeta, pois engana as massas com “opções de escolha”, sendo que assistimos apenas uma corrida de revezamento. Nas prateleiras dos supermercados, as opções de marcas iludem: na base industrial estão poucas corporações que a todos impõem seus produtos e fingem competir entre si.

O mesmo se dá na politica, na educação e nas religiões institucionalizadas.

O Estado sistematicamente ignora, finge desconhecer ou simplesmente está se retirando de esferas da vida em sociedade onde deveria ser responsável: saúde, educação, habitação, e outras áreas chamadas mais ‘sociais’. A correnteza econômica impõe até mesmo aos chamados ‘estados socialistas’ a sua força, qual avalanche vulcânica que segue inexoravelmente seu curso impulsionada por um violento fogo das profundezas.

Como resistir à pressão do grupo de brincar de um antigo jogo de crianças, “Siga Seu Mestre?”: um faz, muitos repetem, ad nausean!

Ir contra a correnteza, nadar contra a maré, ser contracultura, questionar, militar e militantes, escolher o caminho estreito, pensar, ler, estudar e esperar o fruto no tempo certo, parecem ser coisas de um mundo paralelo, onde temos nossos avatares que são despertados quando entramos em sono profundo. Um mundo que apenas existe em sonhos. A realidade é dura, companheiro... então vamos aos jogos da sobrevivência!

A educação deixou de ser dos pais, passou para a escola (Estado). Deixou de ser questão de Estado e passou para o domínio do capital, que a formatou, juntamente com todo sistema educacional, numa fábrica de mentes medíocres, intencionalmente indisciplinadas e viciadas na pressa e no consumo. Pelo desejo de consumir-ter, tudo deixou de ser.

Finalmente, as religiões, as últimas estacas (ou pilares) de nossa civilização estão cada vez mais parecidas umas com as outras, e todas com os ritos escolares (Illich), e igualmente dominadas pela indústria do consumo.

A escola deforma, a religião conforma, e a economia transforma.

Ao longe, escuto a toada do gado na canção do Zé Ramalho:
Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!...(2x)
Ooooooooooooooooh!


[1] Pierre Bourdieu. CONTRAFOGOS – Táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998

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