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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Viagem aos USA = (Razão + Método) x (Sentimento + Improviso)


Sempre que pensava nos USA vinha aquela preocupação: visto, impaciência, transtornos básicos e caros para entrar em um processo sem saber se efetivamente entraria na América do Norte. Adiei o quanto pude, preguiça, viajei por outros mundos, preferindo manter uma saudável distância do incerto processo migratório do Tio Sam.
E tem mais uma coisa: sempre achei que a atitude dos yankees seria de total indiferença para com mais um latino americano. Preconceito da minha parte? Talvez, mas exposto aos filmes made in Hollywood, onde estrangeiros são sempre discriminados e os americanos são graduados em bullying: afinal, Carry, a Estranha (1976, com Sissy Spacek) é o protótipo das consequencias desta forma predatória de comportamento. Desconfio até que nos USA o bullying é institucionalizado como uma forma maquiavélica de selecionar os mais fortes para “construir a América”.
Filosofias e arroubos de imaginação à parte, trabalhando em uma ONG de Richmond, Virginia, fui “convidado” a comparecer por lá e fazer um treinamento-imersão no pais dos patos e camundongos. Susto passado, correria feita atrás da documentação. Tudo certo, viagem marcada, fui, um pouco preocupado. Sempre existe a possibilidade de bater no muro da imigração e ser mandado de volta, conforme eles mesmos avisam e alertam. Visto concedido não significa entrada certa.
Na entrada da migração, um baita afro-descendente (ia dizer negão, mas vivemos em tempos difíceis e o carinho de ontem é o insulto de hoje), com forte sotaque de algum terceiro mundo, confere eletronicamente minhas digitais. Me olha, olha o passaporte, folheia suas páginas, se detém na página que tem o visto para o Quênia, arregala os olhos e pergunta, afinal, o que eu andei fazendo por lá. Explico rapidamente, era uma viagem para conhecer uma ONG, acabei não indo, mas a vontade continua. Sorriso no canto dos lábios carimba meu passaporte e me despacha. Teria sua família vivido às sombras do Kilimanjaro?

Em Miami, cara de sono, meu querido cunhado Jorge toma seu café e eu o encontro. Peço um pra mim também, trocamos abraços de cunhados (dois segundos, mais que isso é intimidade demais para quem anda fazendo vocês-sabem-o-que com minha irmã), pegamos o carro, saída para a I-95, e o Jorge explica: é a principal interestadual da costa leste dos USA, que liga a Florida ao Maine, margeando toda a costa do Atlântico. Mais de 3 mil quilômetros de puro prazer e monotonia: a estrada é tão boa que dá sono. Interessante: tem limite mínimo de velocidade, o sujeito pode levar uma multa se ficar vovozando pela rodovia...
Em West Palm Beach, saímos da I-95 e entramos nos acessos. Em toda interestadual notei os mesmos muros anti-ruidos, como em muitas rodovias da Europa, para proteger os moradores que estão à margem das grandes rodovias ou vias muito movimentadas do ruído pesado do trânsito.

Chego a uma agradável casa, Karla me espera com seu big-sorriso e uma máquina que faz um café delicioso. Pão, omelete, waffles, syrup, cachorros dentro de casa entrando e saindo pela sua tradicional ‘portinha na porta’, bandeirinhas dos USA pra todo lado, estou na américa! As bandeirinhas extras haviam sido por conta da recém conquistada cidadania americana do Jorge. O gajo está feliz!
Passamos três dias muito bons, fui apresentado a uma bizarra bebida: “Licor de Merda”, importada de Portugal. Mas, pra salvar, deliciosos vinhos e cervejas. Compras feitas (família...), domingo à noite fui para Richmond.
No aeroporto a Kelsi me espera, pergunta se o vôo foi tranqüilo, se preciso de alguma coisa, como está a família, está com fome, quer alguma coisa de novo, etc. Tantas perguntas me fizeram ficar desconfiado: ué, os americanos não são fechados, self-centered, dificil de se abrirem e interessarem, e por aí vai? Parecia a recepção de meus primos em Magé, no RJ. Deve ser o jeitão dela, pensei.
O hotel parecia a volta dos tempos Vitorianos, século XIX. É um local simples, porém muito elegante, como uma senhora idosa que não tem problemas com sua idade e gosta de se vestir bem com suas jóias do passado, nos deixando à vontade em sua presença. Assim é o Linden Row Inn: tentando se manter em pé em pleno século XXI!
Dia seguinte, e assim seriam os demais, ‘as 08:30 saímos para a Children, Incorporated. Lindo predio, com a classica bandeira na entrada. Reunião do staff logo cedo. Eles se reúnem com todos, sempre (até a recepcionista-telefonista) segunda-feira pela manhã. Telefonemas, enquanto dura a reunião, caem na secretária com uma mensagem dizendo que eles estão em um momento muito importante, etc. Todos são convidados a ouvir alguns breves relatórios, a sugerir ou comentar qualquer coisa, e depois vão para suas tarefas. Na sexta-feira pela manha, nova e breve rodada: agora cada setor se reúne em tempos diferentes. Desta forma, eles começam a semana com todos juntos, e terminam a semana com as equipes reunidas para não mais que 30 minutos de informações.
Todos foram atenciosos, e logo me deixaram à vontade.
Nos dias seguintes, reuniões e conversas: aos poucos fui entendendo o jeitão do pessoal de fazer as coisas, todos bem amistosos e focados no trabalho. Resumindo, o espírito deles é o seguinte: não vamos perder tempo tentando ser educados se isto não levar a lugar nenhum (palavras de minha chefe, após eu explicar o jeitão mais cordial que racional dos brasileiros em geral). Preferem ser francos, diretos e assertivos. Já por aqui, a “diplomacia” e a “educação” muitas vezes escondem a incompetência e a enrolação. Percebi que os americanos gostam de ser mais eficientes, sem serem rudes – apenas são diretos, sem ressentimentos. Touch-down para eles.
É a velha e sempre presente tensão entre o homo-faber protestante de Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), e o homo-cordialis de Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil). Aquele, focado no resultado do empreendedor europeu e norte americano na economia (razão + método), e Holanda apontando a típica atitude do latino americano, particularmente do brasileiro, com excessivas vênias para fazer ou ter deixado de fazer qualquer coisa (sentimento + improviso). Mas esta discussão fica para sociólogos, antropólogos e cientistas da religião. Aliás, em cada país você percebe no que deu a religião predominante com as relações sociais e econômicas. O ideal seria juntar o melhor de todos.
De qualquer forma, registro aqui que, em TODOS os locais em que passei fui muito bem recebido e atendido: na organização, pelos recém-conhecidos colegas de trabalho, em restaurantes, bares, hotéis, shoppings, malls, comércio em geral. Comida servida, conferida, copo de suco ou chá, sempre gelados, nunca vazios (você apenas paga uma vez, e o copo sempre é trocado quando abaixa da metade). Seja por treinamento, seja por necessidade (as gorjetas por lá variam de 10 a 20% - e é você quem decide quanto), o fato é que existe uma cultura de serviços com qualidade. Mais um ponto.
Depois do jantar, às vezes o papo seguia pra alguma varanda, como na casa do Ryan, com vinhos e charuto (pra quem gosta), nas classicas cadeiras de embalo (rocking chair).
A única nota de serviço enrolado e frustração ficou por conta de minha mala, que a na volta a American Airlines extraviou no trecho Richmond-São Paulo. Serviço de bordo e atendimento nota dez; eficiência final questionável. A mala chegou terça-feira a noite, e observei que surrupiaram os batons M*A*C das meninas... Que Licor!!
A história americana é muito rica, casas antigas, guerra civil e seus impactos, sentimento de patriotismo em todos os lugares: casas, comércio, restaurantes, cemitérios, ruas, igrejas, carros, ... parecia que todos estavam celebrando ou lembrando, ou reforçando, o conceito: somos americanos, não nos envergonhamos disso, apesar do mundo muitas vezes pensar diferente de nós. F* the world: às vezes mal educados, mas a eficiência é inquestionável. O que você prefere? Boa educação e eficiência questionável? Ao redor do mundo parece-me que estas duas grandezas, por algum motivo, são inversamente proporcionais.
Porém, também conheci um lado dos USA que quase ninguém sabe – nem eles por lá: existem regiões de muita pobreza e abandono, crianças que literalmente passam fome, casas sem aquecimento para enfrentar o inverno, famílias abandonadas e sem acesso a serviços básicos como educação, transporte, água encanada, rede de esgoto, saúde. Na Segunda-feira ouvi um relatório de viagem de campo de um funcionário da Children. Ele voltava depois de alguns dias fora visitando uma região do Kentucky que nada devia para nossas favelas: inclusive ele não entendia como certa família, sem ter o que comer, tinha tantos cachorros... dei risada, e diante dos olhares do pessoal, disse que também conhecia esta situação. Recebi olhares de solidariedade.
A região mais crítica dos estados Unidos encontra-se na famosa “Four Corners”, único ponto dos USA onde quatro estados se encontram: Arizona, Utah, Colorado e New México. Esta área de baixa densidade populacional é uma das mais pobres da América, com muitos trabalhadores e suas famílias abandonados após os ciclos econômicos do passado (principalmente extração de carvão), e as vastas reservas indígenas. As companhias e indústrias não têm interesse por lá devido à baixa densidade demográfica e a baixa renda per capita. Estão em um círculo social e econômico vicioso. Muitas crianças que entram na idade escolar vão para os centros educacionais na segunda-feira e só retornam na sexta-feira, dada a distância de suas casas para as escolas. Imaginem o sentimento de seus pais, além delas mesmas. Com as novas políticas vigentes, existe uma esperança de melhoria de vida para estes grupos.
Nestas áreas, assim como em muitas áreas carentes de outros países, trabalha a Children, Incorporated, com seus projetos assistencialistas e de desenvolvimento comunitário (estes ainda incipientes).
No final, minha primeira passagem pelos USA foi muito boa, superou as expectativas. Confesso que esperava encontrar um país muito mais fechado, refratário e arrogante. E eu disse isso pro pessoal, que, sem se ofender, bem ao estilo americano, me agradeceram o feedback e responderam com a seguinte observação: sua atitude tornou fácil pra gente. Aí, eles quebraram minhas pernas! Agradeci também o feedback.
Ou seja: depende mais de você do que dos outros. Sempre existira uma boa alternativa diante dos dilemas e das dificuldades. Quem está aberto para aprender encontra bons professores.

Onde o rio faz a curva:
O Rio James é assim chamado por conta de seu parente Ingles, o Thames, e a região desta curva lembrava muito aos colonizadores britânicos um local bem parecido na Inglaterra, o Richmond Upon Tames. Daí então veio o nome da cidade: Richmond.

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