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quarta-feira, 22 de junho de 2011

LEI DA MORDAÇA - Com esta postagem, encerro a tríade! Esta é do Caio.

Fosse esta proposição PLc 122 (há de ser sempre minúscula a 'câmara' de pensamentos mínimos) travestida de legalidade, seu efeito seria a legitimidade dos pensamentos!
LEI DA MORDAÇA

Amanhã haverá grande manifestação em Brasília contra a PLC122, cujo texto de projeto de lei pode ser lido no seguinte site:http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/diarios/pdf/sf/2006/12/14122006/38854.pdf

Muita gente vem me escrevendo acerca do tal Lei Contra a Homofobia pedindo de mim uma opinião, a qual, tendo em vista que em geral os “religiosos” são homofóbicos mesmo, não me interessei nem em ver o texto e menos ainda em discuti-lo.

Ontem, no entanto, atendendo ao pedido de uma pessoa amiga que ocupa o cargo de Senador da Republica, li o texto a fim de dar a minha opinião. Ora, a simples leitura do texto do projeto de lei me evidenciou, de saída, o fato de que o tal projeto não apenas incorre em várias inconstitucionalidades, mas, também, muito além disso, cria precedentes hostis e perversos, sem falar que dá, em tal caso, aos queixosos homossexuais, um poder de arbítrio sobre inúmeras áreas da vida comum, gerando o espaço legal para grande quantidade de exageros e exacerbações.

Em minha opinião o projeto de lei é inconstitucional na forma como está redigido, pois, gera uma soberania de direito ao grupo que demanda tal direito, que, pela própria natureza da formulação legal, anula outros direitos superiores e bem mais antigos em sua legitimidade.

Por exemplo, por tal lei, no caso de ela um dia vigorar, os demais direitos universais (como o de expressão de opinião de qualquer natureza, se for contrária às manifestações homossexuais, ainda que escandalosas), serão subjugados pelos direitos de qualidade “Homocráticas” de tal grupo, posto que, pelo bojo da proposta, declara-se mesmo a impossibilidade de discordar publicamente de práticas ou ideologias de conteúdo homossexual.

Ora, a tal PL122 supostamente se fundamenta em direitos inalienáveis, como os que protegem condições intrínsecas dos humanos, como raça, etnia e cor, mas, apesar de tudo, evoca os direitos da própria expressão religiosa (um dos direitos inalienáveis da Constituição), pondo-se em equivalência com aquilo que sendo objetivo não necessita nem de demonstração e nem de prova, como é o caso de uma raça ou etnia.

Uma raça é uma raça. Uma etnia é uma etnia. Portanto, são realidades universais e objetivas em sua constituição.

Não é a mesma coisa com a condição homossexual, a qual, como se sabe, tem casos de homossexualidade inata e intrínseca, tanto quanto também possui uma enorme quantidade de casos que não carregam traços inatos da condição, mas apenas configuram uma “escolha”, não sendo, dessa forma, em hipótese alguma, algo que possa ser universalizado como universal é o direito de uma raça ou etnia.

Isso sem falar que a PL 122 também cria, de modo inerente, uma espécie de vitaliciedade empregatícia. Sim! Pois com as descrições de direito que teria um suposto homossexual ante um patrão (podendo ele alegar pela via da simples queixa que está sendo objeto de discriminação, não importando o grau de objetividade e de constatabilidade da denuncia) — todos os patrões são postos na difícil situação de temer despedir um funcionário homossexual, por qualquer que seja a razão trabalhista ou funcional, em razão de que sob ele pesará a possibilidade de ser condenado pela subjetividade ou até mesmo esperteza e ou maldade do funcionário queixoso.

Há de se ter leis que protejam os homossexuais de toda forma de discriminação real e objetiva. Do mesmo modo, há de se ter sempre leis que ao garantirem os direitos de minorias não o façam contra a expressão da maioria.

A presente PL 122, todavia, vai além da proteção aos direitos dos homossexuais, e, por outra via, passa a ser uma lei de Homossexualismo ao invés de ser um lei de proteção ao direito de ser homossexual numa sociedade democrática e pluralista.

Acho fundamental aqui fazer duas distinções que julgo importantes:

  1. Homossexualidade não é homossexualismo. Homossexualidade pode ser uma condição psíquica ou até congênita (ainda a ser completamente provada, e, até agora, relacionada à minoria dos casos), a qual, na maior parte das vezes, é praticada com descrição e recato natural, assim como deve proceder um heterossexual sadio. Já o homossexualismo é ideológico, político, impositivo, catequético, fundamentalista em seu fervor fanático, e, sobretudo, trata-se de um movimento “sindicalizante” e hostil. Ora, a presente PL 122 é tipicamente um projeto de lei homossexualista e altamente ideológico.
      
  1. Direitos Universais são caracterizados pela inafastabilidade objetiva da condição existente. Assim, etnias e raças carregam a si mesmas em seus direitos universais. Ora, o mesmo não se pode dizer da homossexualidade, a qual existe em estado de profunda subjetividade, além de que está há anos luz de distancia de qualquer coisa que se possa chamar de condição universal. Desse modo, creio que a presente PL 122 faz universal um particular da existência humana. Ora, em tal caso, creio que uma outra PL deve ser proposta, mas que não carregue em si “direitos” que soneguem outros direitos universais já estabelecidos e por todos aceitos como fruto do bom senso.

Aqui me eximo de falar sobre outras implicações do presente Projeto de Lei 122, posto que a meu ver são apenas reações angustiadas ante a desvairada propositura da PL122, mas que não tratam das questões de sua inviabilidade Constitucional.

Isto posto de modo muito rápido, concluo dizendo que creio que o que de melhor se faria seria derrubar tal PL122, e, no lugar dela, que parlamentares equilibrados e que, portanto, não fossem nem militantes homofóbicos e nem militantes homossexualistas propusessem um novo projeto de lei, o qual deveria dar respeito e dignidade aos homossexuais em nossa sociedade ao mesmo tempo em que eles não fossem feitos os juizes e os executores de leis conforme se prevê nesta fatídica PL122.

O meu temor agora é pelas manifestações de amanhã, como Silas, Linhares e Cia. Ltda. vociferando ódios, de um lado; enquanto, do outro lado, os “homossexualistas” ganham mais um argumento apenas assistindo ao destilar do ódio de seus opositores.

A PL 122 é uma desgraça. Pena que não é apenas ela, pois, sendo justo, tem-se que admitir que os modos da refutação sejam tão cheios de ódio e de homofobia, que, por tal razão, até quem está errado fica certo pelo ódio do antagonista.

A verdade tem que ser seguida em amor. Pois, do contrário, até a verdade se torna mentira quando os modos são os do ódio.

Podendo escrever muitas outras coisas, mas atendo-me apenas a estas, peço as orações de todos, pois, o resultado de tudo isto pode ser a criação de muito mais ódio numa sociedade que está perdendo por completo o amor e a reverência pelo próximo.
   
No espírito que Dele tenho aprendido,
  
 Caio
 24/06/08
Lago Norte
Brasília
DF

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Viagem aos USA = (Razão + Método) x (Sentimento + Improviso)


Sempre que pensava nos USA vinha aquela preocupação: visto, impaciência, transtornos básicos e caros para entrar em um processo sem saber se efetivamente entraria na América do Norte. Adiei o quanto pude, preguiça, viajei por outros mundos, preferindo manter uma saudável distância do incerto processo migratório do Tio Sam.
E tem mais uma coisa: sempre achei que a atitude dos yankees seria de total indiferença para com mais um latino americano. Preconceito da minha parte? Talvez, mas exposto aos filmes made in Hollywood, onde estrangeiros são sempre discriminados e os americanos são graduados em bullying: afinal, Carry, a Estranha (1976, com Sissy Spacek) é o protótipo das consequencias desta forma predatória de comportamento. Desconfio até que nos USA o bullying é institucionalizado como uma forma maquiavélica de selecionar os mais fortes para “construir a América”.
Filosofias e arroubos de imaginação à parte, trabalhando em uma ONG de Richmond, Virginia, fui “convidado” a comparecer por lá e fazer um treinamento-imersão no pais dos patos e camundongos. Susto passado, correria feita atrás da documentação. Tudo certo, viagem marcada, fui, um pouco preocupado. Sempre existe a possibilidade de bater no muro da imigração e ser mandado de volta, conforme eles mesmos avisam e alertam. Visto concedido não significa entrada certa.
Na entrada da migração, um baita afro-descendente (ia dizer negão, mas vivemos em tempos difíceis e o carinho de ontem é o insulto de hoje), com forte sotaque de algum terceiro mundo, confere eletronicamente minhas digitais. Me olha, olha o passaporte, folheia suas páginas, se detém na página que tem o visto para o Quênia, arregala os olhos e pergunta, afinal, o que eu andei fazendo por lá. Explico rapidamente, era uma viagem para conhecer uma ONG, acabei não indo, mas a vontade continua. Sorriso no canto dos lábios carimba meu passaporte e me despacha. Teria sua família vivido às sombras do Kilimanjaro?

Em Miami, cara de sono, meu querido cunhado Jorge toma seu café e eu o encontro. Peço um pra mim também, trocamos abraços de cunhados (dois segundos, mais que isso é intimidade demais para quem anda fazendo vocês-sabem-o-que com minha irmã), pegamos o carro, saída para a I-95, e o Jorge explica: é a principal interestadual da costa leste dos USA, que liga a Florida ao Maine, margeando toda a costa do Atlântico. Mais de 3 mil quilômetros de puro prazer e monotonia: a estrada é tão boa que dá sono. Interessante: tem limite mínimo de velocidade, o sujeito pode levar uma multa se ficar vovozando pela rodovia...
Em West Palm Beach, saímos da I-95 e entramos nos acessos. Em toda interestadual notei os mesmos muros anti-ruidos, como em muitas rodovias da Europa, para proteger os moradores que estão à margem das grandes rodovias ou vias muito movimentadas do ruído pesado do trânsito.

Chego a uma agradável casa, Karla me espera com seu big-sorriso e uma máquina que faz um café delicioso. Pão, omelete, waffles, syrup, cachorros dentro de casa entrando e saindo pela sua tradicional ‘portinha na porta’, bandeirinhas dos USA pra todo lado, estou na américa! As bandeirinhas extras haviam sido por conta da recém conquistada cidadania americana do Jorge. O gajo está feliz!
Passamos três dias muito bons, fui apresentado a uma bizarra bebida: “Licor de Merda”, importada de Portugal. Mas, pra salvar, deliciosos vinhos e cervejas. Compras feitas (família...), domingo à noite fui para Richmond.
No aeroporto a Kelsi me espera, pergunta se o vôo foi tranqüilo, se preciso de alguma coisa, como está a família, está com fome, quer alguma coisa de novo, etc. Tantas perguntas me fizeram ficar desconfiado: ué, os americanos não são fechados, self-centered, dificil de se abrirem e interessarem, e por aí vai? Parecia a recepção de meus primos em Magé, no RJ. Deve ser o jeitão dela, pensei.
O hotel parecia a volta dos tempos Vitorianos, século XIX. É um local simples, porém muito elegante, como uma senhora idosa que não tem problemas com sua idade e gosta de se vestir bem com suas jóias do passado, nos deixando à vontade em sua presença. Assim é o Linden Row Inn: tentando se manter em pé em pleno século XXI!
Dia seguinte, e assim seriam os demais, ‘as 08:30 saímos para a Children, Incorporated. Lindo predio, com a classica bandeira na entrada. Reunião do staff logo cedo. Eles se reúnem com todos, sempre (até a recepcionista-telefonista) segunda-feira pela manhã. Telefonemas, enquanto dura a reunião, caem na secretária com uma mensagem dizendo que eles estão em um momento muito importante, etc. Todos são convidados a ouvir alguns breves relatórios, a sugerir ou comentar qualquer coisa, e depois vão para suas tarefas. Na sexta-feira pela manha, nova e breve rodada: agora cada setor se reúne em tempos diferentes. Desta forma, eles começam a semana com todos juntos, e terminam a semana com as equipes reunidas para não mais que 30 minutos de informações.
Todos foram atenciosos, e logo me deixaram à vontade.
Nos dias seguintes, reuniões e conversas: aos poucos fui entendendo o jeitão do pessoal de fazer as coisas, todos bem amistosos e focados no trabalho. Resumindo, o espírito deles é o seguinte: não vamos perder tempo tentando ser educados se isto não levar a lugar nenhum (palavras de minha chefe, após eu explicar o jeitão mais cordial que racional dos brasileiros em geral). Preferem ser francos, diretos e assertivos. Já por aqui, a “diplomacia” e a “educação” muitas vezes escondem a incompetência e a enrolação. Percebi que os americanos gostam de ser mais eficientes, sem serem rudes – apenas são diretos, sem ressentimentos. Touch-down para eles.
É a velha e sempre presente tensão entre o homo-faber protestante de Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), e o homo-cordialis de Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil). Aquele, focado no resultado do empreendedor europeu e norte americano na economia (razão + método), e Holanda apontando a típica atitude do latino americano, particularmente do brasileiro, com excessivas vênias para fazer ou ter deixado de fazer qualquer coisa (sentimento + improviso). Mas esta discussão fica para sociólogos, antropólogos e cientistas da religião. Aliás, em cada país você percebe no que deu a religião predominante com as relações sociais e econômicas. O ideal seria juntar o melhor de todos.
De qualquer forma, registro aqui que, em TODOS os locais em que passei fui muito bem recebido e atendido: na organização, pelos recém-conhecidos colegas de trabalho, em restaurantes, bares, hotéis, shoppings, malls, comércio em geral. Comida servida, conferida, copo de suco ou chá, sempre gelados, nunca vazios (você apenas paga uma vez, e o copo sempre é trocado quando abaixa da metade). Seja por treinamento, seja por necessidade (as gorjetas por lá variam de 10 a 20% - e é você quem decide quanto), o fato é que existe uma cultura de serviços com qualidade. Mais um ponto.
Depois do jantar, às vezes o papo seguia pra alguma varanda, como na casa do Ryan, com vinhos e charuto (pra quem gosta), nas classicas cadeiras de embalo (rocking chair).
A única nota de serviço enrolado e frustração ficou por conta de minha mala, que a na volta a American Airlines extraviou no trecho Richmond-São Paulo. Serviço de bordo e atendimento nota dez; eficiência final questionável. A mala chegou terça-feira a noite, e observei que surrupiaram os batons M*A*C das meninas... Que Licor!!
A história americana é muito rica, casas antigas, guerra civil e seus impactos, sentimento de patriotismo em todos os lugares: casas, comércio, restaurantes, cemitérios, ruas, igrejas, carros, ... parecia que todos estavam celebrando ou lembrando, ou reforçando, o conceito: somos americanos, não nos envergonhamos disso, apesar do mundo muitas vezes pensar diferente de nós. F* the world: às vezes mal educados, mas a eficiência é inquestionável. O que você prefere? Boa educação e eficiência questionável? Ao redor do mundo parece-me que estas duas grandezas, por algum motivo, são inversamente proporcionais.
Porém, também conheci um lado dos USA que quase ninguém sabe – nem eles por lá: existem regiões de muita pobreza e abandono, crianças que literalmente passam fome, casas sem aquecimento para enfrentar o inverno, famílias abandonadas e sem acesso a serviços básicos como educação, transporte, água encanada, rede de esgoto, saúde. Na Segunda-feira ouvi um relatório de viagem de campo de um funcionário da Children. Ele voltava depois de alguns dias fora visitando uma região do Kentucky que nada devia para nossas favelas: inclusive ele não entendia como certa família, sem ter o que comer, tinha tantos cachorros... dei risada, e diante dos olhares do pessoal, disse que também conhecia esta situação. Recebi olhares de solidariedade.
A região mais crítica dos estados Unidos encontra-se na famosa “Four Corners”, único ponto dos USA onde quatro estados se encontram: Arizona, Utah, Colorado e New México. Esta área de baixa densidade populacional é uma das mais pobres da América, com muitos trabalhadores e suas famílias abandonados após os ciclos econômicos do passado (principalmente extração de carvão), e as vastas reservas indígenas. As companhias e indústrias não têm interesse por lá devido à baixa densidade demográfica e a baixa renda per capita. Estão em um círculo social e econômico vicioso. Muitas crianças que entram na idade escolar vão para os centros educacionais na segunda-feira e só retornam na sexta-feira, dada a distância de suas casas para as escolas. Imaginem o sentimento de seus pais, além delas mesmas. Com as novas políticas vigentes, existe uma esperança de melhoria de vida para estes grupos.
Nestas áreas, assim como em muitas áreas carentes de outros países, trabalha a Children, Incorporated, com seus projetos assistencialistas e de desenvolvimento comunitário (estes ainda incipientes).
No final, minha primeira passagem pelos USA foi muito boa, superou as expectativas. Confesso que esperava encontrar um país muito mais fechado, refratário e arrogante. E eu disse isso pro pessoal, que, sem se ofender, bem ao estilo americano, me agradeceram o feedback e responderam com a seguinte observação: sua atitude tornou fácil pra gente. Aí, eles quebraram minhas pernas! Agradeci também o feedback.
Ou seja: depende mais de você do que dos outros. Sempre existira uma boa alternativa diante dos dilemas e das dificuldades. Quem está aberto para aprender encontra bons professores.

Onde o rio faz a curva:
O Rio James é assim chamado por conta de seu parente Ingles, o Thames, e a região desta curva lembrava muito aos colonizadores britânicos um local bem parecido na Inglaterra, o Richmond Upon Tames. Daí então veio o nome da cidade: Richmond.

terça-feira, 14 de junho de 2011

SOBRE O PL 122 - Lei da "Homofobia"

Recebi mais um texto, de outro amigo, e também sua autorização para postar aqui. 
Trata do mesmo tema anterior, ainda em debate.
Deixo também com voces, acho importante, gostei da forma & conteúdo!
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Mauricio Cunha – Diretor de Programas / Visão Mundial
Nos últimos tempos ficou notória a mobilização da Igreja cristã em torno do polêmico projeto de lei 122, a chamada lei da “Homofobia”. Embora o projeto traga equívocos claros e mereça ser debatido, gostaria de aproveitar esta oportunidade para fazer uma análise crítica em relação ao posicionamento e a ação da igreja evangélica (falando aqui em termos genéricos) neste episódio.
Na minha visão, é lamentável que a Igreja, que há muito tempo tem ignorado a questão da homossexualidade, suas complexidades e implicações, esteja se manifestando de forma tão veemente acerca desta questão apenas quando um dos seus direitos (no caso, da livre expressão a partir da liberdade de consciência) é ameaçado. Desta forma, a Igreja age com qualquer outro grupo na defesa dos seus direitos, não representando nenhum diferencial na arena social.
É lícito, numa democracia, um grupo manifestar-se e procurar mobilizar a sociedade em defesa da sua visão de mundo e dos seus ideais. Mas é triste perceber que toda esta capacidade de mobilização da Igreja não se dá da mesma forma em temas–chave da Reforma social e da Justiça do Reino, como pobreza, violência, corrupção, gênero, etc. A verdade é que a Igreja evangélica continua obcecada pela sexualidade e os seus “pecados”. Como exemplo, cito o fato de que recentemente, estamos tendo a discussão sobre o novo Código Florestal Brasileiro, tema de fundamental importância relacionado à mordomia da Criação e ao futuro das próximas gerações, mas onde e de que forma está a igreja cristã se mobilizando?
Como conseqüência desta tendência, assistimos a uma polarização entre os evangélicos e os movimentos GLBTT e segmentos da imprensa que só tem fortalecido estes últimos. Pior: ao invés de atrair os homossexuais para o amor de Deus, temo que estamos afastando-os cada vez mais da oportunidade de conhecer a graça regeneradora e salvadora de Jesus Cristo, da qual todos (“homos”, “héteros”, “bis”, e o que quer que seja) igualmente carecem desesperadamente.
Ainda estamos muito longe, como Igreja, de um projeto de militância e de reforma social mais abrangente e integral, embasado biblicamente e alicerçado no serviço.
Como Igreja, dizemos que não somos homofóbicos, mas lamento constatar que sim, somos, apesar do velho discurso “condenamos o homossexualismo, mas amamos os homossexuais”. O fato é que tememos tudo aquilo que não entendemos bem. E está claro e notório neste episódio que a igreja não tem se aprofundado nas complexas questões ligadas à homossexualidade, pelo discurso que ainda reina de “opção” sexual (como se alguém escolhesse, num joguinho de “par ou ímpar”, se vai ser homo ou hétero), e não de “orientação” sexual, profundamente arraigada na identidade pessoal. Ou na confusão entre união civil e casamento, na incompreensão acerca do papel que um Estado laico deve ter na defesa dos direitos dos seus cidadãos (mesmo que esses não professem a mesma moralidade que eu), ou até mesmo por achar que assistir a uma novela vai tornar alguém homossexual.
Não se trata aqui de defender ou não a prática homossexual, tampouco de ignorar as influências da aceitação de determinadas práticas culturais no comportamento de indivíduos. trata-se, sim, de fazer uma análise crítica do posicionamento político da igreja brasileira nesta questão.  Na minha visão, deveria ter sido a Igreja a primeira a propor (através dos seus representantes nas esferas políticas e de seus formadores de opinião) uma lei ou um movimento contra a homofobia, equilibrado e consistente. Aliás, contra qualquer forma de discriminação e violência de toda ordem contra grupos minoritários, formados por pessoas humilhadas, desprezadas, e oprimidas da nossa sociedade. 
Precisamos entender que a redenção na esfera política (entendida aqui como a esfera de poder e influência na sociedade) vai muito além de defender os próprios direitos e interesses, mas sim lutar pela justiça. Isso sim seria o agir de uma Igreja verdadeiramente transformadora.