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segunda-feira, 14 de março de 2011

Passarinhos na Catedral



1.
Recentemente ouvi uma história, sobre um escultor-operário que participou da edificação de uma linda catedral na Europa. Ele esculpiu um passarinho, e o colocou abrigado entre o forro e o teto da catedral, onde geralmente os passarinhos ficam e se aninham.

- Por que você fez isso, perguntaram, ninguém vai ver!
Ele respondeu, sorrindo:
- Mas Deus vai!

Naquela catedral está o nome do rei que a inaugurou, do arquiteto que a projetou, do Bispo daquela época, pessoas importantes que governavam aquele povo. Mas não contém o nome de um único construtor, de um único operário, das pessoas que realmente se sacrificaram para levantar aquele lindo edifício!

Pensei nas pessoas simples, operários, que constroem monumentos que outros inauguram. Entramos em um prédio público, em um templo, ou qualquer outra obra de engenharia, e vemos ali uma placa com o nome de autoridades e outras pessoas importantes. Mas nenhuma citação àqueles que construíram o edifício. Gostamos de inaugurações, de ter o nome e o reconhecimento das pessoas, mas geralmente ignoramos os operários - ninguém deseja tirar fotos com eles.

Ser operário é um desafio, ainda mais quando o destino é o não-reconhecimento, o esquecimento, o anonimato, a glória de outros. Sei de histórias de pessoas que brigaram “para ter seu nome na placa”, sem nunca terem feito nada para a construção. Ou de pessoas que foram injustamente omitidas, tendo dado às vezes sua vida para um projeto, sendo ofuscadas depois pelo líder de plantão do momento.

2.
Lembrei de Vinícius de Morais e de um operário, um operário em construção. Seu nome poderia ser João.

A obra era imensa, mas ele era o melhor da região.
Foi escolhido para levantar um templo, uma igreja, jamais feita por mãos.
Com o projeto na mente, preparava o terreno com dedicação.
Colocou os fundamentos, levantando aquele templo, conforme a visão.
E assim trabalhava João, não pelo dinheiro, bastando a cada dia o seu pão.
Até o dia em que foi morto, por ciúmes de um que se achava patrão.
Mas João morreu feliz, pois sabia, por incrível que pareça,
Convem que eu diminua, para que Ele cresça!
Foi assim que se tornou João
O primeiro cristão, em construção!
Assim como o operário em construção,
João aprendeu a dizer: Não!

Sua cabeça foi o primeiro tijolo de um templo ainda hoje em construção.
João não se importou em dar sua vida por que ele sabia qual era o propósito de seu trabalho. Outro operário assumiria a obra dali pra frente. Quando ele soube que este novo construtor estava na cidade, ele simplesmente disse: - convém que ele assuma agora, e que eu descanse. Ambos tinham certeza que o projeto do empreiteiro concorrente seria derrotado no final. Dito e feito, a missão de João foi cumprida com fé, dedicação e coragem.

3.
Construir vidas é mais complexo que construir edifícios. Quantas mães, pais, avós, tios e tias, vizinhos, madrinhas e padrinhos são responsáveis pela edificação de seus filhos ou filhos de outros, muitas vezes passando pela vida sem reconhecimento, no anonimato? Quantos discipuladores, professores, pessoas comuns, operários da fé, edificam vidas anonimamente? Muitos ficam frustrados, quando não compreendem seu valor e sua obra.

Artesãos de vidas, porém, que sabem para quem verdadeiramente trabalham, e por que colaboram em determinada obra, não se importam de passar seu trabalho para o Mestre dos mestres, o idealizador do projeto. O sentimento do operário da fé em construção não é um sentimento de posse, mas de gratidão pelo privilégio do chamado, e de liberalidade e generosidade para que outros também possam participar da obra.

Operários da fé ficam exultantes por terem sido escolhidos para participar do projeto de construção da igreja, que é um corpo vivo e não uma estrutura, não importando em qual etapa: no lançamento da fundação, na elevação das paredes, no acabamento. Não se importam com o crédito final, pois sabem que todo crédito é de apenas Um. Não se importam se seus companheiros possuem uma tarefa diferente da sua, sabem seu valor. Não concorrem, cooperam uns com os outros. Por mais que outros possam esquecer, ele sabe que seu nome está registrado no livro da vida dos operários, e muito bem guardado.

Apenas a concorrência deseja colocar seu nome em placas e roubar o crédito que é de apenas Um. A concorrência constrói cercas e muros, chama de seu o edifício que é de todos, plagia idéias, divide, aprisiona e oprime com cadeias e regras, persegue holofotes e nomes nas placas de bronze. O Empreiteiro concorrente, assim como seus assessores, é perito em roubar, destruir e matar – como fizeram com João. Mas João sabia que sua morte fazia parte do plano-Mestre do reino em construção. Por isso, não se importou em ser mais um operário, apenas um operário na construção.

4.
Um templo é um corpo, cada corpo é um templo. Cada célula do corpo tem uma função, conforme seu órgão: nem todas as células são iguais. Muitas se multiplicam naturalmente, com velocidade e ritmos diferentes. Porém, existem células que não se reproduzem, não crescem, apesar de sua função ser importantíssima, como as células nervosas. Por outro lado, elas podem possuir uma vida bem mais longa que as demais. Nem todo crescimento e multiplicação são indicadores de saúde. Pode ser simplesmente um câncer instalado. Entender o processo de crescimento do corpo, do templo, dentro da meta-visão de seu Arquiteto é estratégico, fundamental e vital para a saúde de todos.

Participar da construção da igreja é o que importa, mesmo que seja apenas para colocar passarinhos invisíveis no Corpo, mesmo sem as pessoas perceberem, mesmo no anonimato. Deus sabe e vê todas as coisas. Como operários, percebemos que as diferenças, os detalhes da construção, são na verdade oportunidades desenhadas e não ameaças ao projeto. Deve-se compreender também, como alertou Vinícius de Morais, incorporando o melhor do espírito profético:

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.

(se desejar o poema inteiro: http://letras.terra.com.br/vinicius-de-moraes/87332/)

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