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quarta-feira, 23 de março de 2011

Jesus Cristo, o Vira-lata!



Quaresma, período de introspecção, avaliação, revisão do caminho e de caminhadas. Tempo de sair da estalagem, onde às vezes paramos para recuperar as forças para enfrentar novas jornadas. Tempo de sonhar.

Lembrei-me de João, o Batista, e também do espanhol Jose Luis Perales, que em 1987 lançou o álbum “Sueño de libertad”. A canção “Me gusta la palabra libertad” chama a atenção por seus versos fortes, envolventes, e marcaram para sempre minha vida:

PREFIERO SER CAMINANTE A SER CAMINO
SER LIBRE A SER ESCLAVO
SER BESO A SER PUÑAL
(…)1

João, o Batista, foi um homem do caminho, sem pouso certo. Sua vida era a de uma pessoa simples, porém fortemente focado em seu propósito, consciente de seu chamado e missão. Sua responsabilidade foi a de preparar a passagem do Senhor Jesus Cristo, o Caminho.

Ser caminhante significa estar em movimento, como peregrinos, como discípulos e apóstolos. Sobre este tema refletiu e escreveu um teólogo latino americano, Julio de Santa Ana em “Pelas trilhas do mundo, a caminho do Reino”2 . Vale a leitura, para quem desejar aprofundar a caminhada. Algumas perguntas levaram à reflexão de Santa Ana: Onde anda Deus na América Latina? A pastoral das igrejas tem sido pertinente ao nosso tempo ou tornou-se anacrônica? Como ser, e viver, o Corpo de Cristo na sociedade? Isso em 1985, e eu começava a despertar.

Em minhas caminhadas passei pelas estalagens Metodista (RJ e Brasília), Presbiteriana (Brasília e PR) e Batista (RS e PR), que me levaram a vivenciar diferentes discursos e práticas eclesiais, com muitos acertos e erros. Me lembro, e agora falo, de um amigo, companheiro Católico do caminho durante os anos de di-faculdade no RS: Frei Beto, ou, como ele preferia, demonstrando não ficar muito confortável com qualquer tipo de título, “por favor, apenas Roberto”. Pacientemente, ele escutava minhas perguntas, me ajudando vencer desafios existenciais durante minha peregrinação pelos pampas gaúchos. De vez em quando eu ia na missa daquele Franciscano íntegro, cristão de primeira, meu primeiro ‘guru’!

Voltando mais no tempo, importante para quem deseja avançar, meus pais tinham pó-de-mico na mente, viviam provocando os filhos com perguntas e desafiando, do jeitão deles, os infantes a serem livres pensadores e assumirem o risco de viver. Meu pai é um cara sonhador, divertido e muitas vezes imprevisível: militar de formação, defensor ferrenho da “Revolução de ‘64”, mas ao mesmo tempo um revolucionário quando o assunto é igreja: sempre provocava e buscava novas leituras bíblicas, colocando-as em prática de diferentes formas, para a preocupação de alguns líderes. Para eles, deixando-os ainda mais nervosos, ele dizia: “quem tem pasto bom não se preocupa com cercas”. Isto é incompreensível para quem nunca saiu de seu cercado.

Na hora de dormir, ele cantava hinos do Hinário Evangélico e cantigas da Caserna para sua tropa familiar. Sua piscadinha de olho típica era a senha para certas canções adaptadas, com letras nem sempre respeitosas para momento tão solene, que nos fazia abafar o riso debaixo das cobertas para a mãe não perceber a mudança de enredo. Às vezes ela fingia brabeza, entrava no quarto e dava aquele olhar revolução-64 pro pai. Era então a hora do Flit, ‘se cubram’, dizia ele, bombardeando implacavelmente os pernilongos que caíam suavemente sobre todos, tocando sua derradeira sinfonia, junto com os cartuchos da Esso: as cobertas ficavam parecendo o gramado coberto de orvalho ao amanhecer. Impressionante, sobrevivemos!

Já a mãe bombardeava os filhos com literatura eclética, desde gibis, revistas e catálogos de artes (morar na Inglaterra por mais de um ano rendeu mais cultura que aventura, com inúmeras visitas a todo tipo de parques e museus). Além disso, coleções, literatura estrangeira, até as obras de Monteiro Lobato (que meu pai desconfiava ser subversivo, mas, em casa o comando da tropa era de outra pessoa – ademais, como resistir às Reinações de Narizinho e sua turma?), até livros como “Eram os deuses astronautas?” (Erich Von Daniken), e escritos do Jesuíta Teilhard de Chardin. Na sua fase egípcia, ela também dava palestras sobre história do oriente, múmias, faraós e civilizações antigas. Autodidata, reunia-se com um grupo para discutir e conversar, com projeções de slides, chás e biscoitinhos. Naquela época, me interessavam muito mais os biscoitinhos. Mas de vez em quando a mãe contava histórias e dormíamos assombrados, esperando a qualquer momento que Tutankhamon saísse de dentro de algum armário, chamando seu fiel servo, – Imohtep, Imohtep...

Éramos assinantes do Círculo do Livro, de Seleções e suas inúmeras publicações condensadas, as quais líamos preferencialmente no banheiro, local perfeito para todo tipo de fantasias, quebradas pelo soco na porta de algum irmão ou irmã com necessidades mais urgentes.

Além disso, o pai milico da aeronáutica oportunizava muitas viagens e deslocamentos. Nossa visão de mundo construiu-se sobre rodovias e aerovias, onde eu preferia enjoar a bordo do fantástico Douglas DC-3. Sempre que íamos pousar no Santos Dumont, achava que uma hora o piloto iria acertar a água. Como nunca acontecia, eu vomitava pela última vez e descia do avião.

O Vira-lata do Caminho

Resumindo assim, cresci. Percebo a clara influência e sou grato a tantas pessoas e companheiros do caminho e das ruas. Existiram – e existem – algumas pedras no caminho, que me marcaram. Mas, como Drumonnd, as identifiquei e saltei sobre elas. A respeito destas topadas, “Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”, como bem versou nosso poeta. Impossível esquecer batidas de levantar a unha do dedão! Mas como minha visão está acima do dedão, prossigo.

Uma fábula de La Fontaine ficou em minha lembrança, “O lobo e o cachorro”. Um lobo andarilho e magro encontra um cachorro gordo, que passa a se gabar da boa vida, das comodidades e vantagens da vida amansada. Em troca, dizia, apenas de alguns favores: latir e rosnar para estranhos, abanar o rabo para os conhecidos, e aprender alguns truques. Numa relação Pavloviana, havia comida, abrigo e afagos quando as coisas eram feitas com decência e ordem.

O lobo, quase convencido a aderir à vida mansa e farta de quitutes, notou uma marca no pescoço do cachorro. O que que é isso, companheiro?, pergunta. Nada..., responde evasivamente o cachorro. Como nada, explique!, insiste o lobo. Ok, responde o cachorro, dizendo: - é a marca da coleira; o dono me prende quando estou com ele! Ele me controla, só posso sair se ele deixar.

Então, o lobo faz um rápido balanço do custo-benefício e dá no pé. Melhor caminhar magro e em liberdade do que viver gordo e preso a alguma corrente! Como lobo errante, ou um vira-lata inconformado, também não gosto de coleiras. E pensar teologicamente como vira-latas é libertador.

Jesus Cristo é o maior vira-lata que já existiu! Assim como João Batista, ele gostava das ruas, dos caminhos, de andarilhos e mulheres que andavam em veredas periféricas. Ele usou o único templo à disposição, que não era nem dele e nem seria da igreja incipiente, apenas para denunciar os canis especializados em reproduzir raças teológicas. Aliás, diga-se, as principais raças brasileiras são fruto de uma cruza entre as raças americanas e européias. Às vezes sua mensagem era um discurso provocativo e inteligente. Outras vezes, um chicote criava um efeito surreal nos poodles amestrados, que fugiam com aquele latido esganiçado e irritante. Jesus veio desafiar todos os ‘ismos’ desde sua época, nos convidando a seguir no caminho, com ele. Foi ele quem disse “ide” (rua), e não “venha” (templo), não foi?

O caminho leva a uma pessoa, não a um lugar. Cristo desafia cada pessoa a ser um andarilho, um vira-latas livre de correntes e cadeias. É preciso pensar, ousar ter a autonomia como pedagogia (Paulo Freire, outro vira-latas), a liberdade como ideal, o céu como teto, o caminho como intenção. A verdade liberta, não aprisiona com correntes doutrinárias. Quem gosta de coleira é cachorro com pedigree denominacional. Seus criadores gostam de fazer concursos onde premiam os melhores da raça, em meio a tapinhas nas costas e olhares de consternação para quem está fora das cercas. Lá fora, por outro lado, os vira-latas correm atrás de qualquer coisa que ande ou voe, se enturmam, exploram novos sítios, acolhem os caídos, se contentam com o que o Mestre disponibiliza de sua farta mesa.

Correntes religiosas escravizam, prendem, deixam marcas profundas. Ser um vira-lata é estar diariamente no caminho, nas ruas, com alegria e prazer, seguindo o Mestre. Como o cachorro que vemos seguindo pela rua o caminheiro, ou carrinheiro, o catador de descartados sociais: descartados como aquele homem caído no caminho, que os cachorros gordos, a caminho do desfile, farejaram de longe e desviaram. Ou como aquela mulher samaritana, encontrada no caminho, junto ao poço de Jacó. Jacó, da extirpe dos grandes vira-latas nômades, precursores dos profetas e dos discípulos que também andaram errantes, fora dos circuitos oficiais, perseguindo um sonho de liberdade e justiça, sabendo subordinar a igreja ao Reino.

Quem sonha os sonhos do caminho não dorme,... Desperta!
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1. Perales: Se alguém desejar ver a letra toda: http://www.quedeletras.com/letra-cancion-me-gusta-la-palabra-libertad-bajar-55705/disco-sueno-de-libertad/jose-luis-perales-me-gusta-la-palabra-libertad.html
2. Santa Ana: Você pode baixar aqui o livro: http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/Pelas-Trilhas-do-Mundo-a-caminho-do-Reino.pdf

Um comentário:

  1. Eu gosto de ser vira-lata. Gosto de ser livre, andar de moto, de ser crista, mas de nao estar dentro de nenhum cercado. Surpreedno ateistas e cristaos, por conta da minha visao. Puxa, o pai disse muito bem, "quem tem pasto bom, nao se preocupa com cercas". Abracos mil. :)

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