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quinta-feira, 31 de março de 2011

A invenção do fogo e o vira-lata



Li uma história há muito tempo, acho que foi o Anthony de Mello que a contou. Fica aqui minha versão, talvez ajude você em sua caminhada.

Certa vez um vira-lata descobriu uma coisa espantosa, ao observar o fogo em uma árvore atingida por um raio: ele poderia guardar aquele fogo. Depois de muitos dias observando o fogo e dele se beneficiando, ele percebeu que poderia, com energia, produzir calor e gerar mais fogo. Sucesso!

Com a independência dos raios, ele desenvolveu alguns instrumentos para ter sua própria caixa de fósforos primitiva. Ficou tão animado que resolveu partilhar sua descoberta por aí. Encontrou uma vila, mostrou como era legal produzir seu próprio fogo, sua utilidade para aquecer, cozinha, assar, proteger, uma infinidade de coisas.
O pessoal ficou grato, e passaram a seguir o homem do fogo. Pensaram em dar uma festa em sua gratidão, mas ele sumiu antes. Ele não precisava de reconhecimento, desejava apenas o bem estar das pessoas.

Seguindo para outro povoado, fez a mesma coisa. Porém, havia ali um grupo que cultuava raios e trovões. Eles perceberam o perigo de se ter alguém que dominava sozinho a técnica do fogo. Quem iria precisar deles, se cada um pudesse fazer seu fogo e não depender mais dos sacerdotes-da-chama? Em uma de suas reuniões, acusaram o vira-lata de ser um ladrão, “o ladrão do fogo celestial”. Confiscaram suas ferramentas, o prenderam, castigaram e acabaram matando-o, por via das dúvidas.

Com o passar do tempo os religiosos passaram a ser questionados por sua atitude. Então desenvolveram uma estratégia: pegaram as ferramentas do vira-lata, fizeram seu retrato e colocaram tudo no altar do seu templo. Todos agora deveriam reverenciar aqueles objetos, a imagem e a memória do homem do fogo. Seguindo um ritual bem elaborado e controlado, o vira-lata passou a ser cultuado ao lado de uma chama eterna! No templo, a preços módicos, qualquer pessoa poderia encontrar fogo de uma maneira rápida e fácil. Em pouco tempo o pessoal esqueceu que poderia ter fogo por conta própria.

Desta forma, os sacerdotes se apropriaram da técnica do fogo e passaram a vender e exportar o processo de se fazer fogo. Para gerenciar a produção flamejante, certificam sacerdotes especializados na fabricação e no manejo do fogo, com segurança e qualidade. Qualquer fazedor de fogo vira-lata e autônomo que surgisse era banido ou morto: era um perigo muito grande brincar com fogo, qualquer criança sabia disso.

Ainda hoje algumas pessoas se iludem pensando ter o controle, enquanto outras adormecem junto a fogueiras acesas com um fogo comprado.

Um comentário:

  1. E' bem verdade. E' preciso coragem para eliminar os intermediarios!

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