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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quatro amigos, um grupo de irmãos!



Assisti em DVD, enquanto estava em Florianópolis com a família, a minissérie completa “Band of Brothers”. Conta a história da companhia Easy que desembarcou na Normandia no histórico Dia D durante a Segunda Guerra. Os dez episódios iniciam com diversos co-mentários dos sobreviventes, que mantiveram sua amizade até os dias de hoje, fruto de laços de solidariedade que só possui quem dividiu perigos e dificuldades.

O título desta série vem da obra de Shakespeare, ‘A vida do rei Henrique V, ato IV, cena III.’ Esta peça contém o famoso discurso do rei, motivando a coragem de seu exército de 10 mil homens, pouco antes de entrarem no campo de batalha e derrotarem o poderoso exército francês de 60 mil soldados e cavaleiros, na épica batalha de Azincourt (1415).

Na parte final do discurso, está escrito: (...) O bom homem ensinará esta história ao seu filho, e desde este dia até o fim do mundo a festa de São Crispim e Crispiano nunca chegará sem que venha associada a nossa recordação, à lembrança do nosso pequeno exército, do nosso bando de irmãos; porque aquele que verter hoje seu sangue comigo, por muito vil que seja, será meu irmão, esta jornada enobrecerá sua condição e os cavaleiros que permanecem agora no leito da Inglaterra irão se considerar como malditos por não estarem aqui, e sentirão sua nobreza diminuída quando escutarem falar daqueles que combateram conosco no dia de São Crispim.

Amigos e irmãos

Amigos compartilham uma jornada, a vida, comprometem-se entre si, arriscam-se uns pelos outros. Defendem-se diante de qualquer ataque, dão suas vidas pelo companheiro ao lado. Possuem cumplicidade e compromisso, que vão além do "bom-dia-como-vão-as-coisas?" Amigos lutam, celebram, sofrem, riem, solidarizam-se com a nobreza, com o perdão. Não escondem os erros uns dos outros, mas com amor buscam o fortalecimento mútuo.

Amigos possuem palavras de conforto, atitudes de lealdade, não admitem injustiças feitas. Toleram manias e limitações, sem julgamento de qualquer tipo, não necessitam de ‘agrados’. Arriscam até mesmo suas reputações para fazer o bem ao que está ferido no caminho. Amigos não estipulam condições de qualquer tipo. Mesmo que um amigo erre, não há vergonha para se dizer: ele errou, mas ele é meu amigo, ele é meu irmão! Ami-gos não abandonam ou excluem os feridos pelo caminho.

Amigos passam horas em silêncio, sem se sentirem desconfortáveis. Amigos possuem a chave de seu coração, e de sua casa também, junto com a senha do alarme.

Uma frase do discurso do rei Henrique V define a base da verdadeira amizade, duradou-ra, leal: '...porque aquele que verter hoje seu sangue comigo, por muito vil que seja, será meu irmão,...' Em outras palavras: amigos se mostram dispostos ao sacrifício, seja qual tipo for, uns pelos outros. Atitudes, não discursos, definem amizades e geram compromisso. Talvez por isso, mesmo em muitas organizações e igrejas, as amizades sejam interesseiras, situacionais, oportunistas, condicionais, casuísticas. Não há senso de mis-são, não há disposição ao sacrifício, não há lealdade, apenas interesses e projetos pessoais em andamento.

Existe um mandamento para amarmos as pessoas, mas ninguém pode ser obrigado a ser amigo de outra pessoa: a vontade livre de cada um é necessária.

Quatro amigos em ação

Numa passagem do Evangelho de Marcos, um episódio chama a atenção. Quatro amigos carregam em um leito um outro amigo, paralítico, em direção a Jesus. Cafarnaum, onde Jesus costumava ficar e descansar de suas andanças, era uma vila de pescadores, situada na margem norte do Mar da Galiléia. Por ali Jesus fez bons amigos.

Naquele dia muitas pessoas estavam com o Mestre, a casa estava lotada. Do lado de fora muitos se apertavam para também tentar escutar o que ele dizia. Ninguém mais entrava. Lá dentro, Jesus falava com o pessoal: não era uma pregação formal, dessas que costu-mamos ouvir, mas uma boa conversa entre amigos, sua estratégia preferida.

Enquanto isso, na multidão, os quatro amigos iam conquistando terreno, passo a passo. O homem que carregavam estava paralisado. Na língua grega, a palavra usada significa, literalmente, “dissolvido”, prostrado, sem forças para estar de pé. Por que ele estava paralisado? O texto não informa. Junto à casa, eles pararam.

Quem deseja alguma coisa encontra um jeito. Quem não quer, uma desculpa!

Não havia mais como seguir adiante, a casa estava lotada. Vendo a porta estreita, eles poderiam ter voltado. Mas decidiram prosseguir. Olhando para o amigo na maca, conver-saram com ele. Talvez ele até pudesse ter dito, “ok, vocês fizeram o possível”. Mas amigos não fazem apenas o possível, eles seguem adiante mesmo contra todas as possibili-dades. Abandonam regras, normas vazias e institucionais, princípios legalistas, desafiam regras. Ignoram a murmuração e a reclamação das pessoas à volta, ou olhares de censura. Pensam que o impossível é possível, descobrem um novo caminho: eles tinham um plano. Olhando para cima, talvez também pedindo a orientação do alto, sabem de um espaço desocupado: o teto da casa! Sem hesitar, sobem, diante do olhar incrédulo das pessoas à volta!

Naquele tempo os tetos eram feitos de uma combinação de argamassa, cinzas, argila e resinas vegetais para impermeabilização. Às vezes, conforme o tamanho do espaço, vi-gas de madeira ou galhos eram usados na estrutura. O resultado era uma estrutura relativamente sólida, usada inclusive para se guardar pequenos animais à noite, e uma escada normalmente era construída ao lado. Com o tempo, alguma vegetação crescia sobre o mesmo. Pessoas mais ricas conseguiam reforçar o teto com pedras lisas ou algum tipo de lajota artesanal. Estruturas de madeira e telhas eram muito caras, poucos as faziam. Para se fazer um buraco no mesmo, ele deveria ser escavado com alguma dificuldade.

Demonstrando sua intenção e estratégia, os amigos tiram algumas coisas escondidas em suas roupas: colher de pedreiro, cordas. Começam a cavucar o teto. Com certeza o barulho e a poeira que começou a cair dentro da casa fizeram as pessoas de dentro se calarem e olharem para cima. Alguém deve ter informado o que estava acontecendo, criando um suspense dentro da casa. Era bem possível que a casa fosse de Jesus ou sua família. Desta forma, imaginem fazer um buraco no telhado da casa do Mestre! Imagino Jesus sorrindo e pedindo pro pessoal aguardar o desenrolar dos acontecimentos, não ficando nem um pouco irritado com a situação. Afinal, interrupções são excelentes oportunidades!

Feito o primeiro furo, agora os amigos tratam de alargar a passagem. Lá dentro, todos já meio cobertos de pó, aguardavamm, conversando, o desenrolar dos acontecimentos. Espaço feito, os quatro amigos descem o paralítico. Ele agora, deitado na maca, no chão, olha os rostos que o encaram. Imagine-se deitado no chão, um monte de gente te olhando de cima, nem todos com olhar amistoso.

Jesus, um amigo sempre possível

Jesus olha o homem deitado, recusando-se ver apenas ‘um paralítico’ e começa seu pro-cesso de cura, deixando todos espantados com sua abordagem: vendo além das aparên-cias, oferece perdão para seus pecados. O Mestre é questionado sobre sua autoridade para perdoar, mas Jesus adverte: tem coisas espirituais, mesmo psicológicas, que paralisam as pessoas. Deu a ele mais do que seus amigos pediram, completando: meu filho, levanta, pega tua maca, toma o caminho de tua casa.

Jesus não apenas curou: ele mostrou um novo caminho para aquele homem e seus amigos seguirem. Nossas atitudes determinam nosso destino.

Lições do caminho

Aprendemos com Jesus: um amigo, podendo fazer, não fala, faz. Em nossas organiza-ções, ao contrário, fala-se demais, faz-se de menos. É impressionante como Jesus fazia as pessoas se sentirem bem, mesmo quando faziam as coisas mais inesperadas, como invadir uma casa pelo teto exigindo atenção! No caminho do amor não existem regras.

Amigos são assim: nos fazem sentir confortáveis mesmo quando ligamos às duas da ma-drugada; mesmo quando chegamos sem avisar em suas casas; mesmo quando os inter-rompemos, pois para eles nós jamais seremos um incômodo, um inconveniente, uma chateação. Amigos não se escandalizam conosco. Amigos andam ao nosso lado no cami-nho, nos carregam quando não podemos mais andar, paralisados por alguma circunstân-cia da vida.

Amigos olham dentro de nós e, assim como Jesus, não focam em nossos defeitos, mas em nosso potencial. Amigos insistem. Amigos nos ajudam a encontrar uma direção quando estamos perdidos. Amigos levam à fonte de cura, libertação, conforto. Ouvem nossos sonhos, sem julgar. Amigos não ficam melindrados com opiniões contrárias, com algum “não”!

Aqueles quatro amigos do homem paralisado agiram em seu benefício, o carregaram, suportaram muitas coisas com ele, e finalmente fizeram o que tinha que ser feito diante da possibilidade de cura que se apresentou, mesmo se não houvesse cura alguma. Superando todos os obstáculos, externos e internos, foram até o fim para ajudar seu amigo. Fizeram isso motivados apenas por uma coisa: amor. Somos, ou temos, amigos assim?

Coincidentemente Jesus escolheu seus quatro primeiros discípulos naquela mesma regi-ão: Pedro, André, Tiago e João. Foram amigos com quem ele contou até o fim de sua vida. Amigos que foram fiéis, fraquejaram, foram perdoados, ousaram correr riscos, morrendo para si no caminho da vida.

São amigos e irmãos de Jesus todos os que ainda hoje estão dispostos ao sacrifício de si mesmos. Como Henrique V, Jesus também nos convida “... porque aquele que verter hoje seu sangue comigo, por muito vil que seja, será meu irmão; esta jornada enobrece-rá sua condição e os cavaleiros que permanecem agora no leito da Inglaterra irão se considerar como malditos por não estarem aqui,...” (Henrique V). Temos consciência de nossos pecados, de nossa vileza. Porém, nos tornamos nobres no caminho com Cristo e livres para sermos amigos e irmãos.

Que tenhamos uns pelos outros, seguindo o exemplo de nosso Mestre, a mesma coragem, desapego e amor. Que sejamos de fato amigos, um grupo de irmãos. Pois correm o risco de serem considerados malditos aqueles que assim não procederem, preferindo ficar à margem do Caminho!

3 comentários:

  1. Grande, Gustavo excelente post desde a citação da 2a guerra mundial até o heróico discursode Henrique V. E finalizando com o maior amigo de todos os tempos. Grande abraço Ramiro

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  2. Hoje encontro nos meus irmaos grandes amigos.
    Beijocas, mano!

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  3. Olá Gustavo ! Eu presenteei e homenageei você lá no meu blog. Visite lá e veja o o selo! www.helloquel.blogspot.com

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