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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FRANCIELE, FELIZ NATAL!

Deus ouviu o choro do menino, (...) lá onde você o deixou. Genesis 21.17

Há muitos anos uma menininha, como tantas outras, nasceu em uma casa pobre. Sua mãe e seu pai, alcoólatras e viciados, faziam com que sua infância fosse um inferno: marcas de violência se espalhavam pelo seu corpo, os ossos saltavam de sua pele. Na época, ela pesava 1/3 do peso de minha filha que, coincidentemente, tinha a mesma idade.

Quando visitei a Franciele pela primeira vez, a pedido de alguns vizinhos que não sabiam o que fazer, percebi que ela estava morrendo. Fiquei sem saber o que fazer. A sua mãe me recebeu, tentou empurrar um cafezinho, que recusei: o cenário não estava para amenidades. Em um determinado momento ela pediu licença e me deixou sozinho com a menina, um bom tempo. Cansado de esperar pela sua volta, fui embora. Retornei horas depois com uma amiga. Encontrei a casa ainda vazia. Apenas a Franciele estava ali, deitada em sua imundice. Olhos arregalados, a barriga parecendo um cupinzeiro em terra árida. Em seu rosto, antigas lágrimas haviam deixado uma trilha de sofrimento, um choro que ninguém escutou.

Olhei pra minha amiga. Ela me olhou de volta e antes de poder terminar seu discurso de advertência já estávamos no carro, Franciele no seu colo, indo para casa. Deixei meu número de telefone com a vizinha e pedi para avisarem à mãe – que não me ligou para saber da filha. Uma amiga pediatra deu as orientações de emergência, minha esposa, que também é médica, deu um bom banho naquela bonequinha de porcelana. Assustada, ela apenas fazia cara de choro, mas sem emitir nenhum som.

Medicação, vermífugos, suplementos, atenção. Minha mãe aderiu ao socorro, amigos ajudaram. A Franciele, aos dois anos, pela primeira vez percebia pessoas à sua volta que não a machucavam. Voltamos àquela família, informamos que estávamos tentando salvar a vida da criança. A mãe tentou chorar, mas apenas riu e disse que queria a menina de volta. Ok, depois, eu disse. E se ela achasse ruim, que fosse reclamar pra polícia.

Com o coração partido, mas sabendo que precisava fazer isso, um dia entregamos a Franciele de volta, saudável, com um enxoval muito bom, alimentos e promessas de visita regulares para “acompanhar seu desenvolvimento”. Em pouco mais de duas semanas, ela estava novamente marcada e o alimento havia “acabado”. Aos poucos, percebemos que sua situação se agravava. Alertamos a mãe: iríamos tomar atitudes mais drásticas, Conselho Tutelar, cara de poucos amigos.

Um dia, ao fazer a visita de costume, não encontramos ninguém. Fomos aos vizinhos, que informaram que a madrinha da Franciele aparecera e levara a criança embora. Tentamos ainda falar com sua mãe, sem sucesso. Ficamos felizes, pois sabíamos que a Franciele estaria longe daquele local. De vez em quando retornávamos e os vizinhos falavam que a Franciele não havia voltado. E nunca mais voltou.

Neste Natal lembrei-me de você, Franciele. Por onde você andará? Espero que hoje, aos vinte e três anos de idade, você esteja bem. Que você, assim como minha filha, possa sorrir e estar vivendo em paz. Que você tenha esperança. Que todas as crianças tenham também oportunidade, amor, cuidado, justiça e direito a uma vida digna. Quero também te agradecer, Franciele, pois a partir do que você me ensinou e mostrou o Natal passou a ser diferente. Deus a abençoe: Ele ouviu o seu choro e viu suas lágrimas, lá onde você estava.




terça-feira, 22 de novembro de 2011

Café com rapadura

Caríssimos irmãos do caminho,
A eucaristia foi ótima, bolo de fubá, rapadura e café.

Li hoje pela manhã uma frase que entendo fazer sentido para voces, lembrando-me de nossa prosa com rabiscos. Está em um livro que comecei a ler: 'a fantástica vida breve de Wao' - do autor dominicano Junot Diaz:

"- As mudanças desejadas nunca são as que mudam tudo". Faz sentido?

Lembrando de nosso papo, deixo correr o risco solto, alimentando idéias e ideais.

A fria e, para nós curitibanos, surpreendente pesquisa do IBGE, nossos devaneios e apostas, profecias incipientes, possibilidades partindo da resiliência de cada um, cenário com matizes apocalípticas e horizontes infinitos, realidade compreendida mas perdida; o desenho do Brabo 'pronto pra beber', ver os filhos a crescer, filhos crescidos; as ocupações de tantos espaços públicos, mas a percepção do espaço íntimo intacto nesta selva existencial. Tudo isso e mais um um pouco vai tomando todo tempo da gente, surpreendendo e nos movendo numa direção, como um tsunami que a todos leva. Mas é possível resistir.

Paulo, você disse que eu e o Cláudio somos uma amizade improvável: concordo, e mais, somos três amizades improváveis, nestes tempos onde qualquer amizade verdadeira é improvável: temos "fontes", temos "contatos", "curtimos" uns aos outros, as redes sociais denunciando a superficialidade de nossas relações. Mas Jesus vem e escandaliza nossos interesses, subverte nossa agenda, provoca comunhão entre pecadores casca grossa, pesca em mar estéril e alimenta multidões com peixes igualmente improváveis. Aí está o mistério, a subversão da ordem pelo posicionamento diante de uma proposta ainda mais improvável: a gentileza, que é o amor traduzido em atitudes.

Ser gentil é permirtir-se ser ocupado e possuído, mas jamais violentado; é ser manso sem ser fraco, ser humilde sem ser chato, ser justo sem ser violento.

A gentileza não é um estado de espírito, mas uma atitude com propósito, a revolução silenciosa e interior que quebra estruturas e subverte ordens, gostos, preferencias pessoais. 

Ser gentil é aceitar sem condescender e poder viver sem explicações pra todas as coisas, sem provas ou teses, sem apostas, apenas ser o que é possível e aceitar o possível do outro ser.

Ser gentil é aceitar a surpresa e o mistério. É saber ouvir. É saber pensar depois de ouvir. É escolher agir depois de pensar e não reagir sem pensar.

Gentileza é abrir mão de se ter respostas para tudo, é saber-se limitado, incapaz de resolver todos os problemas. É escolher a simplicidade e a alegria de poder debater sem precisar vencer!

Ninguém é gentil sozinho, ninguém ama sozinho. A gentileza, assim como o amor, precisa do TU para dialogar com o EU, em um equilíbrio dinâmico, não estático. Ser gentil é saber  e poder ajustar o fulcro da balança para o próximo não ser prejudicado. Na essência, o amor é gentil, pois escolhe se relacionar, sem se importar em esvaziar-se para isso. Sem medo, sem maiores expectativas, dando-se sem esperar nada em troca, pisando o chão da humanidade de cada um.

Bom, talvez aí esteja o desafio e a chave da gentileza: retirar seu conteúdo comercial, de troca, e simplesmente ser gentil. As mudanças que mudam tudo não são aquelas desejadas, mas as apreendias. O mistério da verdadeira revolução está no escândalo de Dulcinéia para seu D. Quixote:

"Tapas e abusos eu posso levar e devolver, mas a ternura eu não posso suportar!"

Eu também preciso ser gentil. Obrigado pelas horas, meus amigos!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O que você não está preparado para ouvir





OBS.: Deverasmente atual, compartilho o texto do Paulo Brabo, devidamente autorizado: por que tentar ser original se ele foi ao ponto com maestria?


De tudo que não sinto falta na experiência do cristianismo institucional (e a lista só tende a aumentar) há três ou quatro coisas cuja mera lembrança me leva o estômago a recuar em sincera repulsa. Tanto depois, hesito mesmo mencioná-las.


Aqui está uma: estar numa sala com um ou mais líderes, conversando livremente sobre qualquer assunto, até que alguém interrompe uma pausa com um suspiro e uma observação:


– Mas o povo não está preparado para ouvir isso.


Ou às vezes, com pureza ainda mais declarada de coração:


– Pena que o povo não está preparado para ouvir isso.


Nessa única frase e no silêncio solidário que a acompanhava nos congratulávamos por sermos naquela sala líderes esclarecidos tratando de assuntos controversos que uma parcela dos nossos ouvintes potenciais – dentre eles talvez você, potencialmente imaturo leitor, – não considerávamos pronta para enfrentar. Desejávamos que fosse diferente; queríamos muito que você fosse um cara maduro e que não corresse o risco de desmoronar diante do que teríamos para revelar. Mas a realidade era dura e determinadas coisas sentíamo-nos heroicamente obrigados a calar. Para poupar você.


Testemunhei esta cena tantas vezes, em tantos contextos com tantos protagonistas diferentes, que tenho de concluir que pelo menos metade dos líderes e pastores de todos os matizes (e isso para mencionar só a porção evangélica do cristianismo) propaga e endossa publicamente uma versão menos controversa da sua crença do que aquela que realmente abraça, e escondem essa falsidade ideológica por trás da conveniente piedade de estarem protegendo da confusão e da apostasia a porção mais despreparada (e, supõe-se, mais numerosa) do seu rebanho.


Naturalmente ninguém é obrigado a propagar aos quatro ventos aquilo em que realmente crê; eu mesmo deixei de fazer isso há muito tempo. Mas esses são caras que fizeram de propagar a sua fé a sua vocação e o seu modo de vida; são sujeitos que afirmam que o destino de cada um, inclusive o deles mesmos, depende de se abraçar e de se professar de modo sincero e consistente aquilo em que se crê. E o meu testemunho é este: grande parte desses caras (talvez a maioria) sonega da sua pregação pública aquilo em que realmente acredita. Alegam estar protegendo os mais fracos da controvérsia e da perplexidade, mas nisso protegem apenas a si mesmos. Porque, graças a Deus, o povo não está preparado para ouvir, então ninguém deve dizer.


Na prática isso quer dizer que muitos pastores e líderes estão deixando de partilhar informações, convicções e dúvidas que poderiam se mostrar grandemente libertadoras para pelo menos parte de seus ouvintes. E o fazem protegidos pelo álibi da melhor das intenções.


Para trazer à memória um exemplo espetacular dessa mentalidade, basta lembrar (e que seja entre nós a última vez) a omissão dos três últimos capítulos na edição brasileira de Culpa e graça, de Paul Tournier. Como ficou provado, a porção mais controversa, menos ortodoxa e mais libertadora do livro foi sumariamente sonegada dos leitores brasileiros – isso, porque, sem margem de dúvida, algum punhado de líderes decidiu muito piedosamente que aquilo “o povo não estava preparado para ouvir”.


Renira Cirelli, que foi com sua irmã gêmea uma das tradutoras originais do livro, mandou-me um email alguns dias depois de ler meu artigo sobre o assunto. Sua mensagem, da qual cito a seguir alguns parágrafos, fornece confirmação para uma história que já não se requeria grande esforço para reconstruir:

Brabo,
Que pena [que você não me contatou antes de escrever sobre o assunto]! Você ficaria conhecendo toda a verdade de uma testemunha ocular, auditiva e dinossáurica desde os idos de 1975 a 76. Isso mesmo, foi quando entreguei a versão completíssima nas mãos dos responsáveis pela Editora da ABU na época.
Demoraram dez anos para editar e publicar! Fizeram modificações na tradução, não mantiveram o estilo coloquial do Paul Tournier e cortaram os três últimos capítulos por acharem que a ABU seria hostilizada e estigmatizada como universalista.
Entregamos todos os 24 capítulos; não recebemos quase nada pelo trabalho (fizemos mesmo como missão), mas ficamos apaixonadas pelo Paul Tournier (ainda traduzi outra obra dele muitos anos depois). Fiquei muito brava com todos, porque só então descobri que cortariam os três últimos capítulos. Lembro-me como se fosse hoje do diálogo que mantivemos, eu em pé, vinda de ônibus, com um bloco imenso de folhas sulfite datilografadas nas mãos:
“Mas gente, o livro vai ter 18 capítulos sobre culpa e só 3 sobre graça! Vocês já vão alterar bastante o título original. Cada um que leia tudo e tenha seu próprio discernimento. Escrevam uma linha dizendo que a editora não se responsabiliza pelas ideias do autor, sei lá… isso não está certo!”
Voz vencida, mera serviçal do Reino… ainda fiz a tradução e versão das várias cartas daqui pra lá e de lá para cá (entre ABU e Delachaux & Niestlé, na Suíça). As cartas solicitavam a permissão da editora e do autor para serem retirados os três últimos capítulos. Eles concederam a permissão sem muita dificuldade.
Foi só desse modo, com seu conteúdo mais controverso devidamente represado, que o Culpa e graçachegou ao mercado e ao leitor brasileiro. Foi só desse modo que chegou às minhas mãos, talvez às suas: depois que gente mais iluminada do que nós certificou-se que só restava no volume impresso o que estávamos preparados para ouvir.


Culpa e graça foi publicado em 1985, mas fato é que – terceiro milênio adentro – estamos longe de abandonar a mentalidade que levou à mutilação do seu texto, porque ela é alimentada pela nossa própria obsessão em infantilizar e sermos infantilizados. A questão de meses eu conversava com um editor cristão que se via diante de dilema semelhante (e de tentação semelhante) com relação à publicação da tradução de um autor contemporâneo – e tratava-se de um texto em grande parte mais ortodoxo do que o de Tournier.


Ainda resta, e em todos nós, a tentação piedosa de censurar. John Stott era reconhecidamente conservador, mas opinou publicamente que o relato da criação em seis dias não deve ser tomado literalmente, e que o ser humano evoluiu a partir de formas de vida menos sofisticadas. Talvez você compartilhe dessa mesma convicção – mas concordará que essa é uma opinião que “o povo” está “preparado para ouvir”?


Parte do problema, naturalmente, está na importância excessiva doentia que atribuímos à opinião de pastores e líderes – para grande proveito deles, mas com a nossa conivência. É como se, se seu pastor por acaso se declarasse à favor da união entre homossexuais, você mesmo fosse obrigado a concordar com ele – ou a se casar com ele. Como se, se seu líder opinasse que a virgindade de Maria não deve ser entendida literalmente, você devesse imediatamente deixar de se ajoelhar diante de Jesus. Porque, em grande parte, estamos ligados à liderança deles de modo tão infantil que essas reações não seriam tão absurdas quanto parecem. Desprezamos os dogmas do catolicismo, mas apenas porque encontramos em nossos líderes e ortodoxias substitutos à mão.


A própria noção de pastores e líderes requerem que eles sejam mais ou menos infalíveis, e portanto pouco controversos. Além disso, e como observa meu amigo Ivan, ninguém vai querer servir-se de um líder que não se deixe manipular; se os líderes forem sempre sinceros e honestos serão sempre imprevisíveis – isto é, permanecerão inúteis para fins políticos. Em todos os casos, será menos custoso para todo mundo se eles deixarem de dizer o que realmente pensam. Mas a contrapartida é evidente: esse pacto de silêncio acaba apenas perpetuando a infantilidade que o impulsiona e patrocina. Dito mais claramente: enquanto não ouvirem determinadas opiniões, as pessoas jamais estarão preparadas para ouvi-las.


No fim das contas o que você não está preparado para ouvir talvez seja justamente isso: que o seu líder pode estar sonegando de você não só as convicções dele, mas as dúvidas dele – e isso quando por vezes basta uma dúvida compartilhada para promover uma verdadeira libertação. Por vezes a certeza de que mais desesperadamente carecemos é a de não estarmos sozinhos em nossas incertezas.


Um pastor que conheço bem certa vez alertou uma ovelha sua a meu respeito: “O Paulo é gente boa; só cuidado com o que ele escreve”. O sujeito achou aquilo adorável e veio me contar. Tive de alertar eu mesmo: “Seu pastor é muito gente boa; só cuidado com o que ele não escreve“.


O sujeito foi embora devidamente deliciado, e fiquei sozinho matutando o que Jesus teria dito se só tivesse dito o que estaríamos preparados para ouvir.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Contra-corrente



Cardumes, gado e contrafogos.
A sociedade imprime sua força, regida pelo paradigma econômico, levando as pessoas a se comportarem como peixes que vivem em cardumes, guiados por “leis e normas” determinantes de comportamentos muitas vezes absurdos. É o gado tocado pelos capitães de seus coronéis.

Em seu livreto “Contrafogos”[1], Pierre Bourdieu comenta da frustração de um diretor de escola que que se tornou, a contragosto, o policial de uma espécie de delegacia; a sua escola. O sofrimento e a angústia deste mestre que deveria ocupar-se do ensino e não da fiscalização de alunos, pais e professores o faz analisar a Mão Direita do Estado em contraposição com o que ele chama de “Mão esquerda” (referência provável às mãos de Adam Smith e Rousseau).

A mão direita é a MÃO dos banqueiros, políticos, setor público, os burocratas e gestores das finanças. A MÃO esquerda são assistentes sociais, educadores, magistrados e, cada vez mais, professores, educadores e outros que lutam para manter os valores e defender (nem que seja institucionalmente) as lutas sociais do passado.

Citando a Bíblia, Bourdieu afirma que a mão direita não quer saber da esquerda. O sistema passa a viver para si, figuras políticas que retroalimentam o aparelho do estado a partir de eleições chamadas “democráticas”. Porém, um olhar atento percebe que a democracia, onde a liberdade de escolha do indivíduo é respeitada em todas as suas instâncias, nada mais do que a representação do trocadilho inserido em seu nome: o governo do “demo”! É coisa do capeta, pois engana as massas com “opções de escolha”, sendo que assistimos apenas uma corrida de revezamento. Nas prateleiras dos supermercados, as opções de marcas iludem: na base industrial estão poucas corporações que a todos impõem seus produtos e fingem competir entre si.

O mesmo se dá na politica, na educação e nas religiões institucionalizadas.

O Estado sistematicamente ignora, finge desconhecer ou simplesmente está se retirando de esferas da vida em sociedade onde deveria ser responsável: saúde, educação, habitação, e outras áreas chamadas mais ‘sociais’. A correnteza econômica impõe até mesmo aos chamados ‘estados socialistas’ a sua força, qual avalanche vulcânica que segue inexoravelmente seu curso impulsionada por um violento fogo das profundezas.

Como resistir à pressão do grupo de brincar de um antigo jogo de crianças, “Siga Seu Mestre?”: um faz, muitos repetem, ad nausean!

Ir contra a correnteza, nadar contra a maré, ser contracultura, questionar, militar e militantes, escolher o caminho estreito, pensar, ler, estudar e esperar o fruto no tempo certo, parecem ser coisas de um mundo paralelo, onde temos nossos avatares que são despertados quando entramos em sono profundo. Um mundo que apenas existe em sonhos. A realidade é dura, companheiro... então vamos aos jogos da sobrevivência!

A educação deixou de ser dos pais, passou para a escola (Estado). Deixou de ser questão de Estado e passou para o domínio do capital, que a formatou, juntamente com todo sistema educacional, numa fábrica de mentes medíocres, intencionalmente indisciplinadas e viciadas na pressa e no consumo. Pelo desejo de consumir-ter, tudo deixou de ser.

Finalmente, as religiões, as últimas estacas (ou pilares) de nossa civilização estão cada vez mais parecidas umas com as outras, e todas com os ritos escolares (Illich), e igualmente dominadas pela indústria do consumo.

A escola deforma, a religião conforma, e a economia transforma.

Ao longe, escuto a toada do gado na canção do Zé Ramalho:
Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!...(2x)
Ooooooooooooooooh!


[1] Pierre Bourdieu. CONTRAFOGOS – Táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998

quarta-feira, 22 de junho de 2011

LEI DA MORDAÇA - Com esta postagem, encerro a tríade! Esta é do Caio.

Fosse esta proposição PLc 122 (há de ser sempre minúscula a 'câmara' de pensamentos mínimos) travestida de legalidade, seu efeito seria a legitimidade dos pensamentos!
LEI DA MORDAÇA

Amanhã haverá grande manifestação em Brasília contra a PLC122, cujo texto de projeto de lei pode ser lido no seguinte site:http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/diarios/pdf/sf/2006/12/14122006/38854.pdf

Muita gente vem me escrevendo acerca do tal Lei Contra a Homofobia pedindo de mim uma opinião, a qual, tendo em vista que em geral os “religiosos” são homofóbicos mesmo, não me interessei nem em ver o texto e menos ainda em discuti-lo.

Ontem, no entanto, atendendo ao pedido de uma pessoa amiga que ocupa o cargo de Senador da Republica, li o texto a fim de dar a minha opinião. Ora, a simples leitura do texto do projeto de lei me evidenciou, de saída, o fato de que o tal projeto não apenas incorre em várias inconstitucionalidades, mas, também, muito além disso, cria precedentes hostis e perversos, sem falar que dá, em tal caso, aos queixosos homossexuais, um poder de arbítrio sobre inúmeras áreas da vida comum, gerando o espaço legal para grande quantidade de exageros e exacerbações.

Em minha opinião o projeto de lei é inconstitucional na forma como está redigido, pois, gera uma soberania de direito ao grupo que demanda tal direito, que, pela própria natureza da formulação legal, anula outros direitos superiores e bem mais antigos em sua legitimidade.

Por exemplo, por tal lei, no caso de ela um dia vigorar, os demais direitos universais (como o de expressão de opinião de qualquer natureza, se for contrária às manifestações homossexuais, ainda que escandalosas), serão subjugados pelos direitos de qualidade “Homocráticas” de tal grupo, posto que, pelo bojo da proposta, declara-se mesmo a impossibilidade de discordar publicamente de práticas ou ideologias de conteúdo homossexual.

Ora, a tal PL122 supostamente se fundamenta em direitos inalienáveis, como os que protegem condições intrínsecas dos humanos, como raça, etnia e cor, mas, apesar de tudo, evoca os direitos da própria expressão religiosa (um dos direitos inalienáveis da Constituição), pondo-se em equivalência com aquilo que sendo objetivo não necessita nem de demonstração e nem de prova, como é o caso de uma raça ou etnia.

Uma raça é uma raça. Uma etnia é uma etnia. Portanto, são realidades universais e objetivas em sua constituição.

Não é a mesma coisa com a condição homossexual, a qual, como se sabe, tem casos de homossexualidade inata e intrínseca, tanto quanto também possui uma enorme quantidade de casos que não carregam traços inatos da condição, mas apenas configuram uma “escolha”, não sendo, dessa forma, em hipótese alguma, algo que possa ser universalizado como universal é o direito de uma raça ou etnia.

Isso sem falar que a PL 122 também cria, de modo inerente, uma espécie de vitaliciedade empregatícia. Sim! Pois com as descrições de direito que teria um suposto homossexual ante um patrão (podendo ele alegar pela via da simples queixa que está sendo objeto de discriminação, não importando o grau de objetividade e de constatabilidade da denuncia) — todos os patrões são postos na difícil situação de temer despedir um funcionário homossexual, por qualquer que seja a razão trabalhista ou funcional, em razão de que sob ele pesará a possibilidade de ser condenado pela subjetividade ou até mesmo esperteza e ou maldade do funcionário queixoso.

Há de se ter leis que protejam os homossexuais de toda forma de discriminação real e objetiva. Do mesmo modo, há de se ter sempre leis que ao garantirem os direitos de minorias não o façam contra a expressão da maioria.

A presente PL 122, todavia, vai além da proteção aos direitos dos homossexuais, e, por outra via, passa a ser uma lei de Homossexualismo ao invés de ser um lei de proteção ao direito de ser homossexual numa sociedade democrática e pluralista.

Acho fundamental aqui fazer duas distinções que julgo importantes:

  1. Homossexualidade não é homossexualismo. Homossexualidade pode ser uma condição psíquica ou até congênita (ainda a ser completamente provada, e, até agora, relacionada à minoria dos casos), a qual, na maior parte das vezes, é praticada com descrição e recato natural, assim como deve proceder um heterossexual sadio. Já o homossexualismo é ideológico, político, impositivo, catequético, fundamentalista em seu fervor fanático, e, sobretudo, trata-se de um movimento “sindicalizante” e hostil. Ora, a presente PL 122 é tipicamente um projeto de lei homossexualista e altamente ideológico.
      
  1. Direitos Universais são caracterizados pela inafastabilidade objetiva da condição existente. Assim, etnias e raças carregam a si mesmas em seus direitos universais. Ora, o mesmo não se pode dizer da homossexualidade, a qual existe em estado de profunda subjetividade, além de que está há anos luz de distancia de qualquer coisa que se possa chamar de condição universal. Desse modo, creio que a presente PL 122 faz universal um particular da existência humana. Ora, em tal caso, creio que uma outra PL deve ser proposta, mas que não carregue em si “direitos” que soneguem outros direitos universais já estabelecidos e por todos aceitos como fruto do bom senso.

Aqui me eximo de falar sobre outras implicações do presente Projeto de Lei 122, posto que a meu ver são apenas reações angustiadas ante a desvairada propositura da PL122, mas que não tratam das questões de sua inviabilidade Constitucional.

Isto posto de modo muito rápido, concluo dizendo que creio que o que de melhor se faria seria derrubar tal PL122, e, no lugar dela, que parlamentares equilibrados e que, portanto, não fossem nem militantes homofóbicos e nem militantes homossexualistas propusessem um novo projeto de lei, o qual deveria dar respeito e dignidade aos homossexuais em nossa sociedade ao mesmo tempo em que eles não fossem feitos os juizes e os executores de leis conforme se prevê nesta fatídica PL122.

O meu temor agora é pelas manifestações de amanhã, como Silas, Linhares e Cia. Ltda. vociferando ódios, de um lado; enquanto, do outro lado, os “homossexualistas” ganham mais um argumento apenas assistindo ao destilar do ódio de seus opositores.

A PL 122 é uma desgraça. Pena que não é apenas ela, pois, sendo justo, tem-se que admitir que os modos da refutação sejam tão cheios de ódio e de homofobia, que, por tal razão, até quem está errado fica certo pelo ódio do antagonista.

A verdade tem que ser seguida em amor. Pois, do contrário, até a verdade se torna mentira quando os modos são os do ódio.

Podendo escrever muitas outras coisas, mas atendo-me apenas a estas, peço as orações de todos, pois, o resultado de tudo isto pode ser a criação de muito mais ódio numa sociedade que está perdendo por completo o amor e a reverência pelo próximo.
   
No espírito que Dele tenho aprendido,
  
 Caio
 24/06/08
Lago Norte
Brasília
DF

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Viagem aos USA = (Razão + Método) x (Sentimento + Improviso)


Sempre que pensava nos USA vinha aquela preocupação: visto, impaciência, transtornos básicos e caros para entrar em um processo sem saber se efetivamente entraria na América do Norte. Adiei o quanto pude, preguiça, viajei por outros mundos, preferindo manter uma saudável distância do incerto processo migratório do Tio Sam.
E tem mais uma coisa: sempre achei que a atitude dos yankees seria de total indiferença para com mais um latino americano. Preconceito da minha parte? Talvez, mas exposto aos filmes made in Hollywood, onde estrangeiros são sempre discriminados e os americanos são graduados em bullying: afinal, Carry, a Estranha (1976, com Sissy Spacek) é o protótipo das consequencias desta forma predatória de comportamento. Desconfio até que nos USA o bullying é institucionalizado como uma forma maquiavélica de selecionar os mais fortes para “construir a América”.
Filosofias e arroubos de imaginação à parte, trabalhando em uma ONG de Richmond, Virginia, fui “convidado” a comparecer por lá e fazer um treinamento-imersão no pais dos patos e camundongos. Susto passado, correria feita atrás da documentação. Tudo certo, viagem marcada, fui, um pouco preocupado. Sempre existe a possibilidade de bater no muro da imigração e ser mandado de volta, conforme eles mesmos avisam e alertam. Visto concedido não significa entrada certa.
Na entrada da migração, um baita afro-descendente (ia dizer negão, mas vivemos em tempos difíceis e o carinho de ontem é o insulto de hoje), com forte sotaque de algum terceiro mundo, confere eletronicamente minhas digitais. Me olha, olha o passaporte, folheia suas páginas, se detém na página que tem o visto para o Quênia, arregala os olhos e pergunta, afinal, o que eu andei fazendo por lá. Explico rapidamente, era uma viagem para conhecer uma ONG, acabei não indo, mas a vontade continua. Sorriso no canto dos lábios carimba meu passaporte e me despacha. Teria sua família vivido às sombras do Kilimanjaro?

Em Miami, cara de sono, meu querido cunhado Jorge toma seu café e eu o encontro. Peço um pra mim também, trocamos abraços de cunhados (dois segundos, mais que isso é intimidade demais para quem anda fazendo vocês-sabem-o-que com minha irmã), pegamos o carro, saída para a I-95, e o Jorge explica: é a principal interestadual da costa leste dos USA, que liga a Florida ao Maine, margeando toda a costa do Atlântico. Mais de 3 mil quilômetros de puro prazer e monotonia: a estrada é tão boa que dá sono. Interessante: tem limite mínimo de velocidade, o sujeito pode levar uma multa se ficar vovozando pela rodovia...
Em West Palm Beach, saímos da I-95 e entramos nos acessos. Em toda interestadual notei os mesmos muros anti-ruidos, como em muitas rodovias da Europa, para proteger os moradores que estão à margem das grandes rodovias ou vias muito movimentadas do ruído pesado do trânsito.

Chego a uma agradável casa, Karla me espera com seu big-sorriso e uma máquina que faz um café delicioso. Pão, omelete, waffles, syrup, cachorros dentro de casa entrando e saindo pela sua tradicional ‘portinha na porta’, bandeirinhas dos USA pra todo lado, estou na américa! As bandeirinhas extras haviam sido por conta da recém conquistada cidadania americana do Jorge. O gajo está feliz!
Passamos três dias muito bons, fui apresentado a uma bizarra bebida: “Licor de Merda”, importada de Portugal. Mas, pra salvar, deliciosos vinhos e cervejas. Compras feitas (família...), domingo à noite fui para Richmond.
No aeroporto a Kelsi me espera, pergunta se o vôo foi tranqüilo, se preciso de alguma coisa, como está a família, está com fome, quer alguma coisa de novo, etc. Tantas perguntas me fizeram ficar desconfiado: ué, os americanos não são fechados, self-centered, dificil de se abrirem e interessarem, e por aí vai? Parecia a recepção de meus primos em Magé, no RJ. Deve ser o jeitão dela, pensei.
O hotel parecia a volta dos tempos Vitorianos, século XIX. É um local simples, porém muito elegante, como uma senhora idosa que não tem problemas com sua idade e gosta de se vestir bem com suas jóias do passado, nos deixando à vontade em sua presença. Assim é o Linden Row Inn: tentando se manter em pé em pleno século XXI!
Dia seguinte, e assim seriam os demais, ‘as 08:30 saímos para a Children, Incorporated. Lindo predio, com a classica bandeira na entrada. Reunião do staff logo cedo. Eles se reúnem com todos, sempre (até a recepcionista-telefonista) segunda-feira pela manhã. Telefonemas, enquanto dura a reunião, caem na secretária com uma mensagem dizendo que eles estão em um momento muito importante, etc. Todos são convidados a ouvir alguns breves relatórios, a sugerir ou comentar qualquer coisa, e depois vão para suas tarefas. Na sexta-feira pela manha, nova e breve rodada: agora cada setor se reúne em tempos diferentes. Desta forma, eles começam a semana com todos juntos, e terminam a semana com as equipes reunidas para não mais que 30 minutos de informações.
Todos foram atenciosos, e logo me deixaram à vontade.
Nos dias seguintes, reuniões e conversas: aos poucos fui entendendo o jeitão do pessoal de fazer as coisas, todos bem amistosos e focados no trabalho. Resumindo, o espírito deles é o seguinte: não vamos perder tempo tentando ser educados se isto não levar a lugar nenhum (palavras de minha chefe, após eu explicar o jeitão mais cordial que racional dos brasileiros em geral). Preferem ser francos, diretos e assertivos. Já por aqui, a “diplomacia” e a “educação” muitas vezes escondem a incompetência e a enrolação. Percebi que os americanos gostam de ser mais eficientes, sem serem rudes – apenas são diretos, sem ressentimentos. Touch-down para eles.
É a velha e sempre presente tensão entre o homo-faber protestante de Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), e o homo-cordialis de Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil). Aquele, focado no resultado do empreendedor europeu e norte americano na economia (razão + método), e Holanda apontando a típica atitude do latino americano, particularmente do brasileiro, com excessivas vênias para fazer ou ter deixado de fazer qualquer coisa (sentimento + improviso). Mas esta discussão fica para sociólogos, antropólogos e cientistas da religião. Aliás, em cada país você percebe no que deu a religião predominante com as relações sociais e econômicas. O ideal seria juntar o melhor de todos.
De qualquer forma, registro aqui que, em TODOS os locais em que passei fui muito bem recebido e atendido: na organização, pelos recém-conhecidos colegas de trabalho, em restaurantes, bares, hotéis, shoppings, malls, comércio em geral. Comida servida, conferida, copo de suco ou chá, sempre gelados, nunca vazios (você apenas paga uma vez, e o copo sempre é trocado quando abaixa da metade). Seja por treinamento, seja por necessidade (as gorjetas por lá variam de 10 a 20% - e é você quem decide quanto), o fato é que existe uma cultura de serviços com qualidade. Mais um ponto.
Depois do jantar, às vezes o papo seguia pra alguma varanda, como na casa do Ryan, com vinhos e charuto (pra quem gosta), nas classicas cadeiras de embalo (rocking chair).
A única nota de serviço enrolado e frustração ficou por conta de minha mala, que a na volta a American Airlines extraviou no trecho Richmond-São Paulo. Serviço de bordo e atendimento nota dez; eficiência final questionável. A mala chegou terça-feira a noite, e observei que surrupiaram os batons M*A*C das meninas... Que Licor!!
A história americana é muito rica, casas antigas, guerra civil e seus impactos, sentimento de patriotismo em todos os lugares: casas, comércio, restaurantes, cemitérios, ruas, igrejas, carros, ... parecia que todos estavam celebrando ou lembrando, ou reforçando, o conceito: somos americanos, não nos envergonhamos disso, apesar do mundo muitas vezes pensar diferente de nós. F* the world: às vezes mal educados, mas a eficiência é inquestionável. O que você prefere? Boa educação e eficiência questionável? Ao redor do mundo parece-me que estas duas grandezas, por algum motivo, são inversamente proporcionais.
Porém, também conheci um lado dos USA que quase ninguém sabe – nem eles por lá: existem regiões de muita pobreza e abandono, crianças que literalmente passam fome, casas sem aquecimento para enfrentar o inverno, famílias abandonadas e sem acesso a serviços básicos como educação, transporte, água encanada, rede de esgoto, saúde. Na Segunda-feira ouvi um relatório de viagem de campo de um funcionário da Children. Ele voltava depois de alguns dias fora visitando uma região do Kentucky que nada devia para nossas favelas: inclusive ele não entendia como certa família, sem ter o que comer, tinha tantos cachorros... dei risada, e diante dos olhares do pessoal, disse que também conhecia esta situação. Recebi olhares de solidariedade.
A região mais crítica dos estados Unidos encontra-se na famosa “Four Corners”, único ponto dos USA onde quatro estados se encontram: Arizona, Utah, Colorado e New México. Esta área de baixa densidade populacional é uma das mais pobres da América, com muitos trabalhadores e suas famílias abandonados após os ciclos econômicos do passado (principalmente extração de carvão), e as vastas reservas indígenas. As companhias e indústrias não têm interesse por lá devido à baixa densidade demográfica e a baixa renda per capita. Estão em um círculo social e econômico vicioso. Muitas crianças que entram na idade escolar vão para os centros educacionais na segunda-feira e só retornam na sexta-feira, dada a distância de suas casas para as escolas. Imaginem o sentimento de seus pais, além delas mesmas. Com as novas políticas vigentes, existe uma esperança de melhoria de vida para estes grupos.
Nestas áreas, assim como em muitas áreas carentes de outros países, trabalha a Children, Incorporated, com seus projetos assistencialistas e de desenvolvimento comunitário (estes ainda incipientes).
No final, minha primeira passagem pelos USA foi muito boa, superou as expectativas. Confesso que esperava encontrar um país muito mais fechado, refratário e arrogante. E eu disse isso pro pessoal, que, sem se ofender, bem ao estilo americano, me agradeceram o feedback e responderam com a seguinte observação: sua atitude tornou fácil pra gente. Aí, eles quebraram minhas pernas! Agradeci também o feedback.
Ou seja: depende mais de você do que dos outros. Sempre existira uma boa alternativa diante dos dilemas e das dificuldades. Quem está aberto para aprender encontra bons professores.

Onde o rio faz a curva:
O Rio James é assim chamado por conta de seu parente Ingles, o Thames, e a região desta curva lembrava muito aos colonizadores britânicos um local bem parecido na Inglaterra, o Richmond Upon Tames. Daí então veio o nome da cidade: Richmond.

terça-feira, 14 de junho de 2011

SOBRE O PL 122 - Lei da "Homofobia"

Recebi mais um texto, de outro amigo, e também sua autorização para postar aqui. 
Trata do mesmo tema anterior, ainda em debate.
Deixo também com voces, acho importante, gostei da forma & conteúdo!
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Mauricio Cunha – Diretor de Programas / Visão Mundial
Nos últimos tempos ficou notória a mobilização da Igreja cristã em torno do polêmico projeto de lei 122, a chamada lei da “Homofobia”. Embora o projeto traga equívocos claros e mereça ser debatido, gostaria de aproveitar esta oportunidade para fazer uma análise crítica em relação ao posicionamento e a ação da igreja evangélica (falando aqui em termos genéricos) neste episódio.
Na minha visão, é lamentável que a Igreja, que há muito tempo tem ignorado a questão da homossexualidade, suas complexidades e implicações, esteja se manifestando de forma tão veemente acerca desta questão apenas quando um dos seus direitos (no caso, da livre expressão a partir da liberdade de consciência) é ameaçado. Desta forma, a Igreja age com qualquer outro grupo na defesa dos seus direitos, não representando nenhum diferencial na arena social.
É lícito, numa democracia, um grupo manifestar-se e procurar mobilizar a sociedade em defesa da sua visão de mundo e dos seus ideais. Mas é triste perceber que toda esta capacidade de mobilização da Igreja não se dá da mesma forma em temas–chave da Reforma social e da Justiça do Reino, como pobreza, violência, corrupção, gênero, etc. A verdade é que a Igreja evangélica continua obcecada pela sexualidade e os seus “pecados”. Como exemplo, cito o fato de que recentemente, estamos tendo a discussão sobre o novo Código Florestal Brasileiro, tema de fundamental importância relacionado à mordomia da Criação e ao futuro das próximas gerações, mas onde e de que forma está a igreja cristã se mobilizando?
Como conseqüência desta tendência, assistimos a uma polarização entre os evangélicos e os movimentos GLBTT e segmentos da imprensa que só tem fortalecido estes últimos. Pior: ao invés de atrair os homossexuais para o amor de Deus, temo que estamos afastando-os cada vez mais da oportunidade de conhecer a graça regeneradora e salvadora de Jesus Cristo, da qual todos (“homos”, “héteros”, “bis”, e o que quer que seja) igualmente carecem desesperadamente.
Ainda estamos muito longe, como Igreja, de um projeto de militância e de reforma social mais abrangente e integral, embasado biblicamente e alicerçado no serviço.
Como Igreja, dizemos que não somos homofóbicos, mas lamento constatar que sim, somos, apesar do velho discurso “condenamos o homossexualismo, mas amamos os homossexuais”. O fato é que tememos tudo aquilo que não entendemos bem. E está claro e notório neste episódio que a igreja não tem se aprofundado nas complexas questões ligadas à homossexualidade, pelo discurso que ainda reina de “opção” sexual (como se alguém escolhesse, num joguinho de “par ou ímpar”, se vai ser homo ou hétero), e não de “orientação” sexual, profundamente arraigada na identidade pessoal. Ou na confusão entre união civil e casamento, na incompreensão acerca do papel que um Estado laico deve ter na defesa dos direitos dos seus cidadãos (mesmo que esses não professem a mesma moralidade que eu), ou até mesmo por achar que assistir a uma novela vai tornar alguém homossexual.
Não se trata aqui de defender ou não a prática homossexual, tampouco de ignorar as influências da aceitação de determinadas práticas culturais no comportamento de indivíduos. trata-se, sim, de fazer uma análise crítica do posicionamento político da igreja brasileira nesta questão.  Na minha visão, deveria ter sido a Igreja a primeira a propor (através dos seus representantes nas esferas políticas e de seus formadores de opinião) uma lei ou um movimento contra a homofobia, equilibrado e consistente. Aliás, contra qualquer forma de discriminação e violência de toda ordem contra grupos minoritários, formados por pessoas humilhadas, desprezadas, e oprimidas da nossa sociedade. 
Precisamos entender que a redenção na esfera política (entendida aqui como a esfera de poder e influência na sociedade) vai muito além de defender os próprios direitos e interesses, mas sim lutar pela justiça. Isso sim seria o agir de uma Igreja verdadeiramente transformadora.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O homem entre as marés / A Bacia das Almas















Prezados,

Sobre a questão da Homossexualidade, em meio a tantos textos e pretextos, discursos inflamados e palpites idiotas de todos os lados, reproduzo as linhas abaixo (devidamente autorizada pelo Paulo). É uma abordagem diferente e desafiadora. "amor, explica ele, é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados". Ou, quem sabe, o amor é reflexo.

Gustavo.


O homem entre as marés - Paulo Brabo

Posted: 24 May 2011 03:15 AM PDT

Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil não falar sobre eles, sob o risco de acender a indignação de gente que habita com muita convicção cada um dos polos que se condenam.

Porém também é verdade que não elegemos os discursos polarizadores ao acaso; os assuntos que elegemos como polêmicos revelam muito mais sobre nós do que gostaríamos. Se você acha de fato importante saber e discutir em que ponto de um ser humano adulto outro ser humano adulto escolhe colocar o seu órgão sexual, na intimidade de seu quarto e em seu tempo livre; se é a esse tipo de investigação criativa que você está ponderando dedicar uma parte substancial do seu tempo, esse é problema sexual seu. Como uma vez aprenderam homens respeitáveis ao redor de uma mulher adúltera, o comportamento verdadeiramente inquietante é o que faz da sexualidade do outro uma bandeira e um problema para si mesmo. É aqui que jaz a verdadeira perversão.

Porém o problema com os discursos polarizadores é que aparentemente não há como apaziguar a tensão que produzem. Se você deixa de se pronunciar a respeito, nada de fato muda e a tensão permanece; se você escolhe se pronunciar, tudo que consegue fazer é atiçar a fogueira, demarcando e acentuando a distância entre os grupos antagonistas.

Eu mesmo tenho opiniões muito severas a respeito desse e de outros assuntos, e já achei que a mera exposição de minha iluminada opinião poderia contribuir para mais do que meramente acentuar o problema. Outros já pensaram como eu. Porém, como descobriu Pedro diante de um auditório de incircuncisos, nossas convicções podem muito bem ser redimidas – isto é, revistas – pelas nossas histórias.

O propósito desta nota é contar o que sei a respeito de um homem, Andrew Marin, e que sei porque já o vi contando essa história muitas vezes.

Andrew (americano, sorridente, atarracado, popular, desportista amador) foi até seus anos de ensino médio um cristão convicto e um homófobo militante, daqueles que se rebaixam sem hesitação à intimidação física e verbal. Não deve haver dúvida, do mesmo modo, de que Marin entendia essas duas vocações (seu cristianismo ardente e seu desprezo ativo pelos homossexuais) como manifestações de uma mesma paixão pela verdade.

Sua vida teria sido mais simples se na época de colégio seus três melhores amigos de infância (duas garotas e um rapaz) não tivessem confiado nele o bastante para fazerem, um a um e sem saberem um do outro, a mesma confissão: Andrew, posso te contar uma coisa? Por favor, não conte pra ninguém, mas eu sou gay.

Foi assim que, num intervalo de três meses, Andrew Marin encontrou-se pela primeira vez com seus três únicos amigos e, como bom cristão, cortou todo laço com eles. Perdeu-os porque eram homossexuais.

Marin mergulhou num estado de profunda e sinfônica perplexidade. Seu mundo havia sido miseravelmente subtraído debaixo de seus pés, e ele passou a requerer do seu Deus e da sua Bíblia uma explicação e uma solução. Ele queria de volta o mundo das suas seguranças anteriores, e exigia que Deus lhe revelasse uma razão, uma secreta justificativa para a tristeza que estava sentindo.

Deus não lhe deu uma resposta, mas o homem creu ouvir na escuridão:

– Andrew, o que você deve se perguntar é como devem ter se sentido os seus amigos, crescendo com você durante todos esses anos: os amigos que, sabendo que você se mostrava em tudo abertamente contrário ao que eles são e ao que representam, escolheram permanecer seus amigos.

Desta caverna emergiu um homem absolutamente notável. Marin decidiu que sua vida deveria servir de ponte entre dois discursos altamente incompatíveis, o dos conservadores evangélicos norte-americanos e o da exuberante comunidade homossexual de seu país. Ele refez o trajeto, pediu perdão a seus amigos e mudou-se para o bairro gay da sua cidade, Chicago, onde reside com a esposa há mais de dez anos. Ali Marin vive, permanece disponível e promove reuniões não-ortodoxas em lugares absolutamente não-ortodoxos, ao mesmo tempo em que organiza os movimentos de uma pequena mas ambiciosa fundação.

Tendo em vista a perene discussão a respeito de até que ponto a orientação homossexual é uma escolha ou um destino, Marin achou melhor subverter os raciocínios subjacentes e adotou como lema a frase O amor é uma orientação, que é também o título de seu livro. Para Andrew Marin, iluminado pelo que vê no sol dos evangelhos, o amor é que é, sem espaço para discussão e em todos os sentidos, uma inescapável orientação. Neste clima e neste momento da história isso implica que os cristãos devem amar formidavelmente e exuberantemente os homossexuais.

Mas na boca de Marin isto não se limita ao batido discurso de odiar o pecado e amar o pecador. Para começar, quando perguntado, Marin recusa-se a dar respostas simplistas e polarizadoras para as perguntas mais quentes que cercam a questão. Ele explica que aprendeu com Jesus a não dar respostas simples para questões complexas, e essa sua postura (precisamente como no tempo de Jesus) desperta por vezes a indignação de gente dos dois lados do muro.

Para muitos conservadores evangélicos, Marin é uma abominação e seu ministério é uma farsa porque, apesar de se apresentar como conservador, ele se recusa a admitir com todas as letras e enfatizar o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual é incontornavelmente pecaminosa e que não há conjuntura em que ela possa ser considerada aceitável diante de Deus e dos homens. Semelhantemente, para muitos na comunidade homossexual Marin é uma falso amigo e um propagandista infiltrado, porque apesar desse papo de amor ele se recusa a admitir com todas as letras o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual entre adultos é coisa legítima, íntegra e sã, que merece a celebração dos homens e as bençãos da igreja tanto quanto qualquer relação heterossexual.

Andrew Marin é esse homem que deixa-se queimar entre os extremos, lutando centímetro por centímetro para promover o diálogo sem contribuir para acentuar uma distância que como está já é paralisante. Marin tornou-se um gigante porque teve de fato um bom professor, e aprendeu com o Jesus dos evangelhos que um discurso polarizador não deve ser jamais alimentado. Todo discurso aplicado ao extremo (e os discursos tendem aos extremos) gera esterilidade, hostilidade e desumanização. A ferida dos ódios resultantes só pode ser estancada pelo remédio do amor – o amor que é uma orientação: ao mesmo tempo uma escolha e um destino.

E é de Marin a definição mais fulgurante de amor que jamais ouvi: amor, explica ele, é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados. Permita-me repetir: amar é prover expressões mensuráveis de comportamento não-condicionado. Proponho que façamos todos nós uma tatuagem muito visível e incômoda com essa frase; só depois de recitá-la solenemente para nós mesmos ganharíamos o direito de atirar a primeira pedra.

De que forma Andrew Marin dá evidência desse amor não-condicionado? Ele vive há uma década entre gente que não compreende e não tem ferramentas para compreender. Ele os defende diante de gente que os considera indefensáveis, e recebe a condenação dos que está defendendo porque acham que ele não está indo longe o bastante. Cada um a seu modo, os dois lados acham insuficiente a proposta de amor de Marin. Mas o maluco, o insensato, continua amando.

Nos Estados Unidos, cristãos que frequentam as passeatas gay costumam fazê-lo para levar cartazes que dizem coisas edificantes tipo DEUS ODEIA BICHAS ou VÃO ARDER NO INFERNO. Andrew Marin e seus amigos vão a essas passeatas com cartazes que dizem apenas I’M SORRY – e pedem a quem quiser ouvir desculpas por todo o ódio que já foi derramado sobre os homossexuais no nome daquele que nada tem a ver com o ódio.

Por trás dessa sua singeleza, dessa impertinência de Marin em amar o inimigo tido como o mais desprezível, espreita uma subversão ainda maior: a ousadia de sugerir que um cristão não deve ser capaz de extrair sua identidade de algo que não seja o amor. Para esse pequeno americano, não somos cristãos quando confessamos, quando escolhemos o mesmo adversário ou quando concordamos a respeito de alguma doutrina; somos cristãos enquanto afirmamos teimosamente, sempre em atos mais do que palavras, a supremacia do amor.

É claro que ninguém dá ouvidos ao cara, porque seu ministério é pequeno e sua proposta insensata. Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você aprovar a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você concordar com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação – e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.


Muito mais sobre Andrew Marin, sua história, seu ministério e sua sacrossanta insensatez, aqui (em inglês):
Love is an orientation