Seguidores

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O garoto das pipas


Fazia um calor razoável, mas a brisa constante e a árvore sob a qual o carro estava estacionado permitiam uma espera agradável. Meu irmão havia levado o filho à clínica e eu resolvi ficar no carro, olhando o movimento, numa esquina.

Bebedouro fica cerca de uma hora de Ribeirão Preto. Nesta tarde de novembro, divagando em meus pensamentos, pensando na aula que daria no dia seguinte, vi um garoto que se aproximava carregando umas pipas. As pipas eram coloridas, prontas para subirem contra o vento, rabiolas enroladas na armação. Ele, não mais que doze anos, descia a rua despreocupadamente, passos de moleque de bem com a vida. Passando ao lado do carro onde estava, cruzou com outro menino, com cerca de seis anos, que tentava acompanhar os passos de sua mãe.

Ao ver o garoto com as pipas, os olhos do menino foram hipnotizados pelas cores, seus ouvidos seduzidos pelo farfalhar gostoso das rabiolas que, mesmo enroladas, dançavam ao vento. Bem na esquina, pararam ao lado do carro olhando as ruas, esperando a oportunidade para atravessarem.

- Ei, me dá uma pipa? Perguntou o menino para o garoto, assim sem cerimônia, achando a coisa mais normal do mundo pedir alguma coisa para alguém. Na mesma hora sua mãe ralhou com ele, dizendo “onde já se viu, o garoto deve vender pipas, e eu não vou comprar, e isso é....”

- Você quer escolher uma?, respondeu o garoto, ignorando completamente aquela mãe, fazendo-a calar e olhar agora com perplexidade para ele. “-vamos, escolha uma pipa pra você, não vai custar nada!”

Antes que sua cabeça pensasse, as mãos do menino já seguravam uma das pipas. Agora ele sorria, admirando seu presente. Mas o garoto das pipas não queria dar qualquer pipa: teria que ser a mais bonita!

“- Você não quer esta aqui”, disse, separando outra mais colorida. “- Pode pegar, vamos!”, continuou. O menino, sem hesitar, troca as pipas. Seu sorriso dispensava qualquer palavra, mas sua mãe, recobrando a fala, intervém: “-então, como é que se diz??”

Um tímido e desnecessário “obrigado” é ouvido, mas seu rosto mostrava uma alegria que só as crianças possuem, a alegria de quem não tem qualquer preocupação, nem a de encontrar palavras de gratidão... Crianças entendem melhor que adultos que em certas horas nenhuma palavra é necessária. O silêncio é uma angústia do adulto.

O garoto das pipas, mesmo antes de ouvir o ‘obrigado’ do menino, dava as costas a ele e à sua mãe, atravessando a rua e seguindo seu caminho sem olhar para trás.

Ao se afastarem de mim, ouço ainda aquela mãe dizendo para seu filho: “- viu, quem não arrisca não petisca!” O menino, absorto com sua pipa, nem olha para a mãe, demonstrando não ouvir o que ela dizia. Ainda bem, penso eu.

Lembrei-me do que Jesus havia dito: “- Deixem que as crianças venham a mim e não proíbam que elas façam isso, pois o Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças”.

A simplicidade de pedir com fé, a atitude de dar com generosidade, a vida pode ser mais simples para quem desejar.

Obrigado pela lição destas virtudes, meninos!

Um comentário:

  1. Puxa, que historia sensacional! E' so' por causa das criancas que ainda acredito que a vida vale a pena. Adulto gosta de complicar tudo, julgando, condenado, guardando rancor, interpretando mal as coisas, nao sabendo ouvir o silencio, onde o que e' mais importante e' expresso com olahres e atitudes.
    Valeu!

    ResponderExcluir