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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Monoculturas, Rio Grande e Batalha Espiritual



Este fim de semana foi um caleidoscópio de experiências. Ainda estou digerindo, mas vou conversando com as paredes e deixando algum registro por aqui.

Encontrei, vi e ousei enxergar: em Mandirituba, PR, Adolfo Esquivel e Jose Comblin; após apertos de mãos e amenidades, sentei na roda com eles e ouvi os mestres conversando com o povão. Foi um domingo completamente ganho, fora dos currais teológicos, oportunidades que desencadeiam sonhos e prosas vida afora.

O primeiro, Nobel da Paz (1980). Em pouco tempo demonstra sua preocupação com as ditaduras mundiais, disfarçadas, existindo em outras formas! Já Comblin é um poço de inesgotável sabedoria e simplicidade, uma referência na América Latina. Com seu aparelhinho de surdez ouve muito mais que a maioria dos teólogos que andam por aí. Com sua visão de águia, é capaz de focar roedores.

Voltando para Curitiba, passei em outra chácara. Lá estava um grupo de jovens imersos em uma capacitação-doutrinação de sua comunidade. Quis até ficar, mas o tema da palestra final não me animou: “batalha espiritual”. Depois, à noite, uma excelente conversa com minha filha.

Semana passada, no sábado, vendo as plantações de cana de açúcar pelo interior de SP, entre Bebedouro e Ribeirão Preto, diante da minha pergunta “cadê os laranjais desta região?” (que a dez anos atrás eu via), meu irmão respondeu: “- o pessoal tá vendendo tudo para plantar cana. É bem mais fácil, as usinas fazem tudo: do manejo inicial à colheita, eles cuidam de cada detalhe para os produtores. E eles recebem uma mesada mensal, não têm que se preocupar com mais nada”! O produtor virou empregado de sua própria terra!

Esquivel disse: “o monocultivo de cabeças e terras é um problema muito sério”! Os grupos econômicos tratam de domesticar o mundo com suas ditaduras em nome do ganho fácil e da perda das liberdades de pensamento e produção. O resultado final é uma agressão ao meio ambiente. Os formadores de opinião fazem a mesma coisa: o que ler, o que discutir, o que pensar. A ditadura dos meios de comunicação no Brasil, nas mãos de apenas alguns grupos dirigidos por forças econômicas enganam o povo com uma falsa idéia de “liberdade”. Mas todos acabam enganados pelo poder econômico que diz quais produtos devem ser apresentados nas prateleiras dos supermercados existenciais. Quem pergunta “por que?”, tá fora!

Falando com a firmeza de um revolucionário aos 87 anos, Comblin comenta que seu pai Chico luta para sobreviver, assim como o povo que vive à margem dos rios e das sociedades. Demorou um pouco para eu entender que ele falava da área do rio São Francisco. Morando na Barra do Rio Grande (Bahia), região onde o afluente Rio Grande deságua no S. Francisco, ele contava histórias da vida do povo que depende de águas que passam em terras de monocultivo ou pastagens, onde fazendeiros insistem em fazer represas por conta própria, como se o curso d’água que passa em suas terras fosse seu. Já próximo à sua nascente o Rio Grande tem uma represa feita por um latifundiário!

As igrejas também passaram focar na monocultura. Arredam a cabeça das pessoas com doutrinas que servem aos seus interesses, mantendo o povo alienado das verdadeiras necessidades. Antes podia-se ver muitas pessoas com imaginação, pensando muitas coisas sobre diversos assuntos. Ousavam questionar e fazer perguntas. Sua mente, assim como uma terra que possui alternância de produção, era rica, produtiva, fértil. Porém, os grandes latifundiários religiosos chegam e oferecem produtos fáceis: basta cada um ceder sua cabeça para o uso alheio, usar os “defensivos certos” e deixar tudo por conta dos Téo-empresários.

Aos descontentes e inquietos, a droga da conformação é dada. Usada para domesticar a mente das pessoas que deveriam pensar, é a paz de pais e educadores preguiçosos: como será que as pessoas viviam sem a Ritalina? Os grandes temas da humanidade, a liberdade, o meio ambiente, a pessoa humana, são deixados de lado. A ‘batalha espiritual’, o capeta e meia dúzia de doutrinas certas são mais importantes, em um universo de monoculturas denominacionais e mentes domesticadas.

Não se lê, não se conversa, não se pergunta. Vivemos uma geração de resumos, de ‘chats-bate-papos’, de respostas prontas. Monoculturas, monopensamentos, monodoutrinas, monocomunicação, monoeconomia, monoambiente, o mundo tá ficando monochato, para alegria dos monoricos...

Uma palavra final de esperança: dias atrás, quando a psicóloga disse para meu sobrinho parar de fazer tantas perguntas, ele respondeu: por quê?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A corrida



O ano foi 1980 e o local, Boston, famosa cidade da costa leste dos Estados Unidos, próxima ao Canadá. O dia 21 de abril amanheceu bonito.

Na famosa maratona, Rosie Ruiz Vivas, uma jovem de 23 anos de origem cubana e naturalizada americana, venceu a prova feminina. Sendo totalmente desconhecida do circuito de corridas mundial, foi elevada rapidamente ao status de estrela, vitoriosa em sua primeira prova oficial com um dos melhores tempos do mundo até então para maratonas.

Ao ser questionada como conseguira este feito, ela simplesmente disse: ‘acordei com muita energia hoje’! Porém, o mais incrível estava por vir.

Depois que outros corredores relataram que não a viram durante a competição, uma investigação foi feita e a verdade veio à tona: ela correra apenas o último quilometro do circuito.

O escândalo foi maior ainda quando Rosie recusou-se, diante das evidências, a reconhecer a trapaça. Ela mentia com tanta convicção e naturalidade que sua mentira tornou-se sua verdade, uma boa definição para sociopata.

Esta história me lembra pessoas que cruzam a linha de chegada com aparência de vencedor, mas que fizeram algum esquema para chegar em primeiro. Políticos, empresários, religiosos que fazem pose e cara de heróis, como se estivem chegando após uma “grande luta”, uma batalha de persistência, fé, perseverança, determinação, superação.

Porém suas vidas são uma colagem, uma sucessão truncada de eventos. Em sua mediocridade, aceitam a manipulação para também obterem vantagens. Gostam da pose de vencedores. Quando descobertos, seu discurso acusatório de “conspiração” tenta transferir a dúvida, e as dívidas, para outros corredores, culpando a imprensa, a traição do amigo, do partido, a ‘herança maldita’. Invejosos, gostam de insinuar meias verdades, ou mentiras inteiras, se fazendo de vítimas, desqualificando quem corre com integridade.

Chegar em primeiro é a finalidade, não importam os meios. Trapaceiam na maior cara de pau: mentem, subornam, negam as evidências, pegam carona no esforço alheio, manipulam indicadores. Politicopatas, religiopatas, sociopatas, e um sistema jurídico (jurisopatas?) que legitimiza a vitória.

Se em 1980 foi apenas uma pessoa, hoje a multidão de corredores é de Rosies. Um escândalo é quando a honestidade é descoberta. Vivemos a legalização da fraude por um sistema que estimula esquemas. A década de Rosie foi a dos Presidentes João Figueiredo e José Sarney, que deixaram seus legados para Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula da Silva e agora Dilma Rousseff. A corrida continuará.

Como eles chegaram em primeiro? Com certeza, com muita “energia”!