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terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Pião


(dedico ao meu pai, que me ensinou a jogar pião!)

Toma-me em tuas mãos
me solta com força
me põe a girar!

Pois assim é a vida
um rodopio de esforço
'té o equilíbrio encontrar.

Equilíbrado num instante
a ponta toca a terra
girando sem parar,

Rabiscando meu caminho,
'té que pare o pião...,
descansando, de amar!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O branco mais branco, a ficha mais limpa!



Quando eu era moleque gostava de disputar com os amigos as ‘preferências’: Nescau ou Toddy? Pipoca ou mandiopã (o precursor deste salgadinhos por aí)? Caloi ou Monark? Volkswagen ou Chevrolet? Flamengo ou Vasco? E uma vez quase brigamos por conta do melhor sabão em pó: Rinso ou Omo?

Preferências à parte, a solução para estes dilemas é impossível. Mesmo que uma determinada marca desapareça, logo será substituída por outra nas prateleiras existenciais ou de consumo. E uma multidão de opiniões, paixões e preferências logo ser formará. Gostamos de sentir que o que escolhemos, usamos e compramos é sempre o melhor. Muito melhor, seu idiota, será que você não percebe?? De repente, o calmo e racional se transforma em um apaixonado e irado defensor de bobagens!

Em tempos de eleições, a mesma situação se repete. Lembrando das velhas disputas da infância, tomamos partido, firmamos apaixonadamente posição, e acabamos polarizados entre duas marcas. A seleção feita pelas mídias nos ajuda a descartar os produtos de “menor importância”. Filtrados pelos interesses econômicos de sempre, ficamos com dois candidatos que representam os interesses econômicos de sempre.

Afinal, qual é o sabão que deixa a roupa ‘mais branca’? Angustiante escolha! Qual é o candidato que tem a ficha mais limpa, ou o passado mais sujo? Muita conversa, o Trololó de um lado, ou a Ratatá do outro, afinal, somos levados a crer que estes dois candidatos são a “única opção democrática” de poder! Como crianças, enganados, continuamos a defender opiniões – agora com argumentos adultos e astutos. Porém, fazendo o mesmo jogo!

“Não se pode ser bom pela metade" (L. Tolstoi). E Jesus já havia dito isso de outra forma: ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Mas a política é capaz de inventar que isso é possível sim!

No supermercado existencial, recuso-me a escolher entre duas marcas de sabão que limpam seletivamente mas vendem o "branco total!" E o sabão em pedra? Incrível, ele limpa igual, só que dá mais trabalho. Desejamos mudanças rápidas, soluções fáceis, fast-food e fast-política. Dá no que dá: fast-ética, fast-moral, fast-fé, que têm a duração de um discurso.

A política do Brasil ora é um picadeiro, ora um parque de diversões. Na gangorra do poder, um está por cima, o outro em baixo, alternando-se. Mas o brinquedo é o mesmo: a gangorra bipolar, sugerindo a impressão de alternância de poder, pura ilusão.

Quando cresci, finalmente descobri que não precisava mais escolher entre “A” ou “B”. Existem outras alternativas, elas cansam porque dão mais trabalho, mas acredito que um outro mundo seja possível. A verdadeira democracia deixa sempre uma terceira opção: a de não ser governado por ninguém.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tiririca, o picadeiro e o aborto


Cansei de receber correntes-denúncia a favor ou contra todo tipo de situação.

A satanização de candidatos, ou a polarização de opiniões, demonstram apenas que as pessoas gostam de adjetivos fortes e verbos fracos. Nada contra o direito de se posicionar – mas me preocupa o movimento e a indignação apenas em tempos de eleições. No mais, a alienação de sempre.

Vejam bem apenas dois temas, para resumir.

Um é o palhaço Tiririca. Gosto dele, a criançada ri à revelia com o que ele faz. Pobre de origem, semi-analfabeto, desde cedo descobriram que ele dava certa popularidade, passando a ser explorado para faturarem em cima de suas ingênuas palhaçadas. E ele também aproveitou para ganhar seu troco fazendo as pessoas rirem de si mesmas. E daí? O maior preconceito no Brasil é contra o trabalho: todo mundo sonha em ganhar sozinho na Sena, mas ninguém sonha em ganhar a vida trabalhando honestamente. Mesmo como palhaço.

Um dia descobriram que o palhaço Tiririca poderia render votos. Ele, coerente, não se intimidou: se é pra fazer rir, ‘vamo lá’! A piada-pronta elegeu-se e o recado foi dado: lugar de palhaço também é no picadeiro da nação! Dos tempos de criança, a gostosa lembrança dos circos. Alguém aí se lembra do Orlando Orfei? Na década de setenta era a sensação! Lembro da emoção dos palhaços, que faziam a gente rir, fazendo graça das coisas que normalmente nos fazem chorar. Como o Tiririca!

Depois de alguns momentos tensos, entram os palhaços no picadeiro. Hora da sessão solene, lá vem eles! Afinal, a Câmara e o Senado são ou não nossos grandes picadeiros? Quem desejar terá a oportunidade de gargalhar nos próximos anos: ligar a TV-Câmara & Senado e assistir ao Tiririca e sua troupe em ação! Tomara que ele não se leve muito a sério...

Atenção, meninada, está chegando, o afamado palhaço ‘Tiririca’ (...) E por isso meninada, quero ver muita alegria!! Salve, salve a criançada e o palhaço Ventania! Tá na hora, tá na hora, bota o palhaço pra fora! Em outras palavras, solta o palhaço no picadeiro, quero mais é dar risada!! Deseja matar a saudade? Clica aí, não é vírus, mas a música você vai lembrar e gostar, recorta e cola no seu navegador: http://thiagobaby.podomatic.com/entry/2007-05-30T19_46_28-07_00

Porém, no meio de tanta palhaçada, tem certas coisas que exigem verbos, como o ‘agir’. Chega uma hora, o espetáculo acaba, assim como a pipoca. As luzes acendem, hora de sair do circo e cair na realidade, que é cruel. Mais cruel que os leões do circo romano, que cumpriam seu papel servindo-se no buffet de cristãos. Depois, enquanto os felinos palitavam os dentes, entravam os palhaços para distrair o público dos horrores recém presenciados.

Pronto, passou, como dizia minha mãe quando a gente levava um susto. Nada como um afago e a mão eleitoral de alguém dizendo que “foi apenas um susto!” Nos sentimos nervosos na platéia comendo pipoca e vendo os leões agindo no picadeiro. Mas depois, no circo da vida real, mais ou menos a cada quatro anos, vem alguém passar a mão na cabeça da gente, dizendo, “pronto passou, daqui pra frente será diferente”!

Ufa! Desamasso o saquinho e ainda encontro uma pipoca, que escapou dos dedos nervosos. Uma sensação de vitória! Em meio aos caroços não estourados, encontro a mais saborosa de todas: a pipoca da alienação.

E as crianças, e o aborto? Não sei, tenho mais o que fazer, tenho meus brinquedos preferidos: meu trabalho, meus amores, minhas preocupações. Sonhar com a próxima sena acumulada. Tenho certeza que daqui a quatro anos alguém virá bagunçar meus cabelos e dizer, está tudo bem, foi apenas um susto.