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sábado, 24 de julho de 2010

Minhas Professoras


Elsie,
Boa tarde!
Recebi a Mãos Dadas - 25, revista que voce edita. Gostei dos textos, em especial sua narrativa da "tia Almerinda" e a matéria da capa, "Caráter: o segredo de quem sabe conduzir a criança". Parabéns à equipe!

Sua história (ou seria estória?) me lembrou de tres professoras, da época do Ensino Fundamental: D. Raimundinha (3a série, escolinha da Base Aérea em Brasília), uma facilitadora de leituras como ninguém, até hoje minha mãe tem guardada uma redação que eu fiz naquela época, recebendo um premio. Alguma coisa a ver com uma certa gotinha de chuva... coisas de mãe!

Teve a Márcia, querida professora da 4a série (acho que foi aquela paixão de criança, suspiro..., veja a intimidade, nem usei pronome de tratamento!). Lembro sempre dela administrando a bagunça da Escola Classe do Lago Sul. O Oziel e o Romano, guris terríveis, sempre se provocavam, a classe ficava uma loucura - mas ela sempre encontrava um caminho seguro para reconduzir a turma ao ponto de aprendizado. Me senti frustrado ou traído, sei lá, quando ela apareceu grávida. Coisas de moleque.

E me lembro de D. Cornélia, professora de português da quinta série: terribilíssimo, boníssimo, agradabilíssimo, fidelíssimo, amabilíssimo... gustáááávo, preste atenção!!!!, ... era a campeã dos superlativos e forçava todas as palavras, tratando-as como filhos no parque, parecendo chama-los no meio da multidão. Impossível esquecer onde ficavam as sílabas tônicas, ou o significado do superlativo absoluto sinteticííííssimo!

Precisamos mais de Almerindas, Raimundinhas, Márcias, Cornélias, mestres das letras e dos exemplos, artífices do conhecimento que nos remetem ao aprendizado, à disciplina, ao prazer de estudar e aprender. Pessoas de caráter, educadoras natas. Verdadeiras referências, promotoras da liberdade e do senso de limites.

Mesmo sem elas jamais virem a saber (onde andarão, estão ainda vivas?), registro meu reconhecimento, tributo e admiração. Para elas, para todas, fico de pé na platéia, aplaudindo. Obrigado, queridas professoras!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Reino de Deus está em Vós [Tolstoi]


O discípulo de Cristo, cuja doutrina consiste na penetração progressiva do pensamento evangélico, em sua observância, cada vez maior, no caminho para a perfeição, não pode afirmar, por conta própria ou por conta de outrem, exatamente por ser discípulo de Cristo, conhecer por inteiro Sua doutrina e observá-la. Menos ainda pode afirmá-lo em nome de toda uma assembléia.

Qualquer que seja o grau de compreensão e perfeição que tenha atingido, o discípulo de Cristo sente sempre a insuficiência de seu entendimento e de sua observância, e sempre se inclina para uma penetração e uma obediência cada vez maiores. Eis por que a afirmação — em seu nome, ou em nome de uma sociedade — que nos encontramos de posse do total entendimento e da perfeita observância da doutrina de Cristo seria uma renúncia ao espírito da própria doutrina.

Por mais estranho que possa parecer, cada igreja, como Igreja, sempre foi e não pode deixar de ser uma instituição, não só alheia, mas até diretamente oposta à doutrina de Cristo. Não foi sem motivo que Voltaire a chamou de infame. Não é sem motivo que todas, ou quase todas as pretensas seitas cristãs, reconheceram e reconhecem a igreja na grande pecadora profetizada no Apocalipse. Não é sem motivo que a história da igreja é a história das maiores crueldades e dos piores erros.

As igrejas, como igrejas, não são instituições que têm por base um princípio cristão, ainda que um tanto desviado do caminho certo, como pensa um grande número de pessoas. As igrejas, como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs. Não só nada existe em comum entre as igrejas e o cristianismo, exceto o nome, como seus princípios são absolutamente opostos e hostis. As primeiras representam o orgulho, a violência, a sanção arbitrária, a imobilidade e a morte; o outro representa a humildade, a penitência, a submissão, o movimento e a vida.

Não se pode servir ao mesmo tempo a estes dois senhores: é preciso escolher um ou outro.
Em: O Reino de Deus está em Vós [p. 43]– Leon Tolstoi, 1893.