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segunda-feira, 17 de maio de 2010

A copa de 50, Ghiggia, Adolpho e Edna


Fui visitar meus pais domingo à tarde. Casa de mãe tá sempre aberta para os filhos, mesmo que estes nem sempre compareçam: café, pão muxibento com a manteiga preferida, aquele biscoito especial da lata em cima da geladeira, o gato debaixo da mesa, conversa de tempos idos, promessas de um futuro melhor, ‘quais as novidades?’ Na cozinha da mãe, sorrisos lambuzados lembram que, para eles, cinqüenta anos depois ainda somos as crianças.

Cariocas exilados em Curitiba há mais de 30 anos, converteram-se à cidade que os acolheu. Moradores de longa data no Butiatuvinha, fizeram da “colônia” a sua vizinhança, que vai até o centro de Santa Felicidade. Seu Adolpho conhece pelo nome os taxistas do terminal e os motoristas e trocadores da linha de ônibus que serve sua rua. Por pura gentileza, dessas que fazem Curitiba ainda parecer cidade pequena, existe um ponto invisível em frente à sua casa: vantagens da terceira idade.

Seu Adolpho só não se converteu para os times locais. Flamenguista, sempre lê o jornal Lance!, reservado “pelo meu amigo jornaleiro” na banca. E a conversa foi fácil pra copa do mundo. Puxando o passado, lembra que “eu estava lá”, na final de 1950 no Maracanã. Milico da Aeronáutica servindo em Caravelas (BA), quase pega cadeia por ter inventado uma história para assistir a final do mundial “tive que esticar minha licença no Rio, mamãe estava doente”, diz com um sorriso maroto no canto dos lábios. Entusiasmado, ele havia também levado seu pai para assistir sua primeira partida de futebol em um estádio – e logo a final da Copa! Mas, foi também a última, tamanha frustração: vovô Juca nunca falou de futebol com os netos.

De memória, aponta a linha da seleção do treinador Flavio Costa: Jair, Chico, Ademir, Zizinho e Friaça. Lembra do Danilo (meia) e do desolado Barbosa, o goleiro “soube que ele está nas últimas”, lamenta. Da zaga, poucas lembranças. Pudera. E quem fez o gol da vitória do Uruguai, pergunto – Ghiggia, responde, com o olhar de quem relembra um antigo desafeto. Desconfiado, seu Adolpho culpa a mudança de última hora da seleção para a concentração do Vasco pela derrota do scratch nacional. Após o jogo, ele se refugiou na casa de uma tia, para chorar sua tristeza. Mas nem tudo estava perdido!

A tia Wanda era conselheira do grupo de adolescentes da igreja Metodista de Vila Izabel. Ela estava recebendo alguns jovens em casa naquele dia. Dentre eles estava a Edna, cabelos negros e grandes olhos, que não gostou nem um pouco daquele marmanjo chorão, onde já se viu? Mas quem é que entende as coisas do coração? Sete anos depois, seu Adolpho e D. Edna se casavam.

Após 53 anos de casamento, seis filhos, oito netos e netas, receberam com empolgação a Seleção em sua cidade. Sim, “sua” cidade, pois hoje se identificam muito com esta terra que os acolheu e onde são queridos. Sessenta anos depois, Ghiggia, algoz do Brasil, ainda é lembrado como o cupido de Adolpho e Edna!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Teu é o Reino, o Poder e a Glória!



Nos evangelhos, a oração do Pai Nosso termina com uma tripla afirmação:
“...pois teu é o reino, o poder e a glória!” É o final de uma oração essencialmente comunitária que desafia a uma vida em comunhão solidária.

Jesus Cristo define claramente onde, como e o porquê de todas as coisas. A utopia do reino por vir é de Deus, de ninguém mais. O seu exercício aqui será legitimado pelo amor. O objetivo final é a glorificação de Deus.

Porém, um profeta moderno coloca as coisas da seguinte forma: “la escuela parece estar eminentemente dotada para ser la Iglesia Universal de nuestra cultura en decadência (...) La escuela es un rito iniciatorio que introduce al neófito a la carrera sagrada del consumo progresivo” (Illich, 1971).

A igreja institucionalizada caiu em algumas armadilhas, pois suas escolas teológicas copiaram a mesma lógica das escolas seculares, formando lideranças que deformam o povo. Sua doutrinação é a perpetuação da religião de consumo e do poder temporal.

O Reino de Deus é o tema central da Bíblia. Em seu entorno circulam as idéias de salvação, ressurreição e de nova vida que é possível a partir da mudança de atitude. O Poder de Deus manifesta-se na vitória da vida sobre a morte. A honra devida a ele é por esta demonstração de domínio sobre todas as coisas.

Muitas instituições que nasceram legítimas sabotaram este princípio e caíram em muitas ciladas criando reinos particulares onde circulam papas, bispos, neoapóstolos, pastores e outros adjetivos eclesiásticos. Criaram estados para si, com suas regras, normas, liturgias e fronteiras bem delineadas, guerreando uns com os outros.

Católicos ou Protestantes, dentre outras religiões, desenvolvem sua interpretação particular das Escrituras. O poder em suas mãos é o resultado dos reinos conquistados e legitimados pelo rito da escolarização teológica de consumo de subsistência. Cada um deseja, desde a sua igreja local ou paróquia, ser o rei, o monarca absoluto. Questioná-los é questionar o divino. A presunção do poder legitima ações e conchavos para a perpetuação do feudo, em “nome de Deus”!

Como conseqüência natural desta cultura em decadência, a honra é desviada para as lideranças locais. Verdadeiros papagaios de piratas do poder alheio, líderes que dão festas apenas para quem também pode convidá-los para suas mesas. O púlpito torna-se o trono. A estrutura e o organograma refletem a ilusão do poder. A glória transitória de líderes sem liderança remete à história do gigante de metal mas de pés-de-barro.

Todavia, uma resistência tem sido despertada. Pessoas têm se lembrado que, assim como na visão do profeta Daniel, a Rocha descerá e derrubará tudo e todos: ao pó retornarão! O reino, o poder e a glória dos homens desaparecerão. Precisamos resgatar a oração-ação comunitária.

Gustavo A. L. Brandão