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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O garoto das pipas


Fazia um calor razoável, mas a brisa constante e a árvore sob a qual o carro estava estacionado permitiam uma espera agradável. Meu irmão havia levado o filho à clínica e eu resolvi ficar no carro, olhando o movimento, numa esquina.

Bebedouro fica cerca de uma hora de Ribeirão Preto. Nesta tarde de novembro, divagando em meus pensamentos, pensando na aula que daria no dia seguinte, vi um garoto que se aproximava carregando umas pipas. As pipas eram coloridas, prontas para subirem contra o vento, rabiolas enroladas na armação. Ele, não mais que doze anos, descia a rua despreocupadamente, passos de moleque de bem com a vida. Passando ao lado do carro onde estava, cruzou com outro menino, com cerca de seis anos, que tentava acompanhar os passos de sua mãe.

Ao ver o garoto com as pipas, os olhos do menino foram hipnotizados pelas cores, seus ouvidos seduzidos pelo farfalhar gostoso das rabiolas que, mesmo enroladas, dançavam ao vento. Bem na esquina, pararam ao lado do carro olhando as ruas, esperando a oportunidade para atravessarem.

- Ei, me dá uma pipa? Perguntou o menino para o garoto, assim sem cerimônia, achando a coisa mais normal do mundo pedir alguma coisa para alguém. Na mesma hora sua mãe ralhou com ele, dizendo “onde já se viu, o garoto deve vender pipas, e eu não vou comprar, e isso é....”

- Você quer escolher uma?, respondeu o garoto, ignorando completamente aquela mãe, fazendo-a calar e olhar agora com perplexidade para ele. “-vamos, escolha uma pipa pra você, não vai custar nada!”

Antes que sua cabeça pensasse, as mãos do menino já seguravam uma das pipas. Agora ele sorria, admirando seu presente. Mas o garoto das pipas não queria dar qualquer pipa: teria que ser a mais bonita!

“- Você não quer esta aqui”, disse, separando outra mais colorida. “- Pode pegar, vamos!”, continuou. O menino, sem hesitar, troca as pipas. Seu sorriso dispensava qualquer palavra, mas sua mãe, recobrando a fala, intervém: “-então, como é que se diz??”

Um tímido e desnecessário “obrigado” é ouvido, mas seu rosto mostrava uma alegria que só as crianças possuem, a alegria de quem não tem qualquer preocupação, nem a de encontrar palavras de gratidão... Crianças entendem melhor que adultos que em certas horas nenhuma palavra é necessária. O silêncio é uma angústia do adulto.

O garoto das pipas, mesmo antes de ouvir o ‘obrigado’ do menino, dava as costas a ele e à sua mãe, atravessando a rua e seguindo seu caminho sem olhar para trás.

Ao se afastarem de mim, ouço ainda aquela mãe dizendo para seu filho: “- viu, quem não arrisca não petisca!” O menino, absorto com sua pipa, nem olha para a mãe, demonstrando não ouvir o que ela dizia. Ainda bem, penso eu.

Lembrei-me do que Jesus havia dito: “- Deixem que as crianças venham a mim e não proíbam que elas façam isso, pois o Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças”.

A simplicidade de pedir com fé, a atitude de dar com generosidade, a vida pode ser mais simples para quem desejar.

Obrigado pela lição destas virtudes, meninos!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Monoculturas, Rio Grande e Batalha Espiritual



Este fim de semana foi um caleidoscópio de experiências. Ainda estou digerindo, mas vou conversando com as paredes e deixando algum registro por aqui.

Encontrei, vi e ousei enxergar: em Mandirituba, PR, Adolfo Esquivel e Jose Comblin; após apertos de mãos e amenidades, sentei na roda com eles e ouvi os mestres conversando com o povão. Foi um domingo completamente ganho, fora dos currais teológicos, oportunidades que desencadeiam sonhos e prosas vida afora.

O primeiro, Nobel da Paz (1980). Em pouco tempo demonstra sua preocupação com as ditaduras mundiais, disfarçadas, existindo em outras formas! Já Comblin é um poço de inesgotável sabedoria e simplicidade, uma referência na América Latina. Com seu aparelhinho de surdez ouve muito mais que a maioria dos teólogos que andam por aí. Com sua visão de águia, é capaz de focar roedores.

Voltando para Curitiba, passei em outra chácara. Lá estava um grupo de jovens imersos em uma capacitação-doutrinação de sua comunidade. Quis até ficar, mas o tema da palestra final não me animou: “batalha espiritual”. Depois, à noite, uma excelente conversa com minha filha.

Semana passada, no sábado, vendo as plantações de cana de açúcar pelo interior de SP, entre Bebedouro e Ribeirão Preto, diante da minha pergunta “cadê os laranjais desta região?” (que a dez anos atrás eu via), meu irmão respondeu: “- o pessoal tá vendendo tudo para plantar cana. É bem mais fácil, as usinas fazem tudo: do manejo inicial à colheita, eles cuidam de cada detalhe para os produtores. E eles recebem uma mesada mensal, não têm que se preocupar com mais nada”! O produtor virou empregado de sua própria terra!

Esquivel disse: “o monocultivo de cabeças e terras é um problema muito sério”! Os grupos econômicos tratam de domesticar o mundo com suas ditaduras em nome do ganho fácil e da perda das liberdades de pensamento e produção. O resultado final é uma agressão ao meio ambiente. Os formadores de opinião fazem a mesma coisa: o que ler, o que discutir, o que pensar. A ditadura dos meios de comunicação no Brasil, nas mãos de apenas alguns grupos dirigidos por forças econômicas enganam o povo com uma falsa idéia de “liberdade”. Mas todos acabam enganados pelo poder econômico que diz quais produtos devem ser apresentados nas prateleiras dos supermercados existenciais. Quem pergunta “por que?”, tá fora!

Falando com a firmeza de um revolucionário aos 87 anos, Comblin comenta que seu pai Chico luta para sobreviver, assim como o povo que vive à margem dos rios e das sociedades. Demorou um pouco para eu entender que ele falava da área do rio São Francisco. Morando na Barra do Rio Grande (Bahia), região onde o afluente Rio Grande deságua no S. Francisco, ele contava histórias da vida do povo que depende de águas que passam em terras de monocultivo ou pastagens, onde fazendeiros insistem em fazer represas por conta própria, como se o curso d’água que passa em suas terras fosse seu. Já próximo à sua nascente o Rio Grande tem uma represa feita por um latifundiário!

As igrejas também passaram focar na monocultura. Arredam a cabeça das pessoas com doutrinas que servem aos seus interesses, mantendo o povo alienado das verdadeiras necessidades. Antes podia-se ver muitas pessoas com imaginação, pensando muitas coisas sobre diversos assuntos. Ousavam questionar e fazer perguntas. Sua mente, assim como uma terra que possui alternância de produção, era rica, produtiva, fértil. Porém, os grandes latifundiários religiosos chegam e oferecem produtos fáceis: basta cada um ceder sua cabeça para o uso alheio, usar os “defensivos certos” e deixar tudo por conta dos Téo-empresários.

Aos descontentes e inquietos, a droga da conformação é dada. Usada para domesticar a mente das pessoas que deveriam pensar, é a paz de pais e educadores preguiçosos: como será que as pessoas viviam sem a Ritalina? Os grandes temas da humanidade, a liberdade, o meio ambiente, a pessoa humana, são deixados de lado. A ‘batalha espiritual’, o capeta e meia dúzia de doutrinas certas são mais importantes, em um universo de monoculturas denominacionais e mentes domesticadas.

Não se lê, não se conversa, não se pergunta. Vivemos uma geração de resumos, de ‘chats-bate-papos’, de respostas prontas. Monoculturas, monopensamentos, monodoutrinas, monocomunicação, monoeconomia, monoambiente, o mundo tá ficando monochato, para alegria dos monoricos...

Uma palavra final de esperança: dias atrás, quando a psicóloga disse para meu sobrinho parar de fazer tantas perguntas, ele respondeu: por quê?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A corrida



O ano foi 1980 e o local, Boston, famosa cidade da costa leste dos Estados Unidos, próxima ao Canadá. O dia 21 de abril amanheceu bonito.

Na famosa maratona, Rosie Ruiz Vivas, uma jovem de 23 anos de origem cubana e naturalizada americana, venceu a prova feminina. Sendo totalmente desconhecida do circuito de corridas mundial, foi elevada rapidamente ao status de estrela, vitoriosa em sua primeira prova oficial com um dos melhores tempos do mundo até então para maratonas.

Ao ser questionada como conseguira este feito, ela simplesmente disse: ‘acordei com muita energia hoje’! Porém, o mais incrível estava por vir.

Depois que outros corredores relataram que não a viram durante a competição, uma investigação foi feita e a verdade veio à tona: ela correra apenas o último quilometro do circuito.

O escândalo foi maior ainda quando Rosie recusou-se, diante das evidências, a reconhecer a trapaça. Ela mentia com tanta convicção e naturalidade que sua mentira tornou-se sua verdade, uma boa definição para sociopata.

Esta história me lembra pessoas que cruzam a linha de chegada com aparência de vencedor, mas que fizeram algum esquema para chegar em primeiro. Políticos, empresários, religiosos que fazem pose e cara de heróis, como se estivem chegando após uma “grande luta”, uma batalha de persistência, fé, perseverança, determinação, superação.

Porém suas vidas são uma colagem, uma sucessão truncada de eventos. Em sua mediocridade, aceitam a manipulação para também obterem vantagens. Gostam da pose de vencedores. Quando descobertos, seu discurso acusatório de “conspiração” tenta transferir a dúvida, e as dívidas, para outros corredores, culpando a imprensa, a traição do amigo, do partido, a ‘herança maldita’. Invejosos, gostam de insinuar meias verdades, ou mentiras inteiras, se fazendo de vítimas, desqualificando quem corre com integridade.

Chegar em primeiro é a finalidade, não importam os meios. Trapaceiam na maior cara de pau: mentem, subornam, negam as evidências, pegam carona no esforço alheio, manipulam indicadores. Politicopatas, religiopatas, sociopatas, e um sistema jurídico (jurisopatas?) que legitimiza a vitória.

Se em 1980 foi apenas uma pessoa, hoje a multidão de corredores é de Rosies. Um escândalo é quando a honestidade é descoberta. Vivemos a legalização da fraude por um sistema que estimula esquemas. A década de Rosie foi a dos Presidentes João Figueiredo e José Sarney, que deixaram seus legados para Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula da Silva e agora Dilma Rousseff. A corrida continuará.

Como eles chegaram em primeiro? Com certeza, com muita “energia”!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Pião


(dedico ao meu pai, que me ensinou a jogar pião!)

Toma-me em tuas mãos
me solta com força
me põe a girar!

Pois assim é a vida
um rodopio de esforço
'té o equilíbrio encontrar.

Equilíbrado num instante
a ponta toca a terra
girando sem parar,

Rabiscando meu caminho,
'té que pare o pião...,
descansando, de amar!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O branco mais branco, a ficha mais limpa!



Quando eu era moleque gostava de disputar com os amigos as ‘preferências’: Nescau ou Toddy? Pipoca ou mandiopã (o precursor deste salgadinhos por aí)? Caloi ou Monark? Volkswagen ou Chevrolet? Flamengo ou Vasco? E uma vez quase brigamos por conta do melhor sabão em pó: Rinso ou Omo?

Preferências à parte, a solução para estes dilemas é impossível. Mesmo que uma determinada marca desapareça, logo será substituída por outra nas prateleiras existenciais ou de consumo. E uma multidão de opiniões, paixões e preferências logo ser formará. Gostamos de sentir que o que escolhemos, usamos e compramos é sempre o melhor. Muito melhor, seu idiota, será que você não percebe?? De repente, o calmo e racional se transforma em um apaixonado e irado defensor de bobagens!

Em tempos de eleições, a mesma situação se repete. Lembrando das velhas disputas da infância, tomamos partido, firmamos apaixonadamente posição, e acabamos polarizados entre duas marcas. A seleção feita pelas mídias nos ajuda a descartar os produtos de “menor importância”. Filtrados pelos interesses econômicos de sempre, ficamos com dois candidatos que representam os interesses econômicos de sempre.

Afinal, qual é o sabão que deixa a roupa ‘mais branca’? Angustiante escolha! Qual é o candidato que tem a ficha mais limpa, ou o passado mais sujo? Muita conversa, o Trololó de um lado, ou a Ratatá do outro, afinal, somos levados a crer que estes dois candidatos são a “única opção democrática” de poder! Como crianças, enganados, continuamos a defender opiniões – agora com argumentos adultos e astutos. Porém, fazendo o mesmo jogo!

“Não se pode ser bom pela metade" (L. Tolstoi). E Jesus já havia dito isso de outra forma: ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Mas a política é capaz de inventar que isso é possível sim!

No supermercado existencial, recuso-me a escolher entre duas marcas de sabão que limpam seletivamente mas vendem o "branco total!" E o sabão em pedra? Incrível, ele limpa igual, só que dá mais trabalho. Desejamos mudanças rápidas, soluções fáceis, fast-food e fast-política. Dá no que dá: fast-ética, fast-moral, fast-fé, que têm a duração de um discurso.

A política do Brasil ora é um picadeiro, ora um parque de diversões. Na gangorra do poder, um está por cima, o outro em baixo, alternando-se. Mas o brinquedo é o mesmo: a gangorra bipolar, sugerindo a impressão de alternância de poder, pura ilusão.

Quando cresci, finalmente descobri que não precisava mais escolher entre “A” ou “B”. Existem outras alternativas, elas cansam porque dão mais trabalho, mas acredito que um outro mundo seja possível. A verdadeira democracia deixa sempre uma terceira opção: a de não ser governado por ninguém.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tiririca, o picadeiro e o aborto


Cansei de receber correntes-denúncia a favor ou contra todo tipo de situação.

A satanização de candidatos, ou a polarização de opiniões, demonstram apenas que as pessoas gostam de adjetivos fortes e verbos fracos. Nada contra o direito de se posicionar – mas me preocupa o movimento e a indignação apenas em tempos de eleições. No mais, a alienação de sempre.

Vejam bem apenas dois temas, para resumir.

Um é o palhaço Tiririca. Gosto dele, a criançada ri à revelia com o que ele faz. Pobre de origem, semi-analfabeto, desde cedo descobriram que ele dava certa popularidade, passando a ser explorado para faturarem em cima de suas ingênuas palhaçadas. E ele também aproveitou para ganhar seu troco fazendo as pessoas rirem de si mesmas. E daí? O maior preconceito no Brasil é contra o trabalho: todo mundo sonha em ganhar sozinho na Sena, mas ninguém sonha em ganhar a vida trabalhando honestamente. Mesmo como palhaço.

Um dia descobriram que o palhaço Tiririca poderia render votos. Ele, coerente, não se intimidou: se é pra fazer rir, ‘vamo lá’! A piada-pronta elegeu-se e o recado foi dado: lugar de palhaço também é no picadeiro da nação! Dos tempos de criança, a gostosa lembrança dos circos. Alguém aí se lembra do Orlando Orfei? Na década de setenta era a sensação! Lembro da emoção dos palhaços, que faziam a gente rir, fazendo graça das coisas que normalmente nos fazem chorar. Como o Tiririca!

Depois de alguns momentos tensos, entram os palhaços no picadeiro. Hora da sessão solene, lá vem eles! Afinal, a Câmara e o Senado são ou não nossos grandes picadeiros? Quem desejar terá a oportunidade de gargalhar nos próximos anos: ligar a TV-Câmara & Senado e assistir ao Tiririca e sua troupe em ação! Tomara que ele não se leve muito a sério...

Atenção, meninada, está chegando, o afamado palhaço ‘Tiririca’ (...) E por isso meninada, quero ver muita alegria!! Salve, salve a criançada e o palhaço Ventania! Tá na hora, tá na hora, bota o palhaço pra fora! Em outras palavras, solta o palhaço no picadeiro, quero mais é dar risada!! Deseja matar a saudade? Clica aí, não é vírus, mas a música você vai lembrar e gostar, recorta e cola no seu navegador: http://thiagobaby.podomatic.com/entry/2007-05-30T19_46_28-07_00

Porém, no meio de tanta palhaçada, tem certas coisas que exigem verbos, como o ‘agir’. Chega uma hora, o espetáculo acaba, assim como a pipoca. As luzes acendem, hora de sair do circo e cair na realidade, que é cruel. Mais cruel que os leões do circo romano, que cumpriam seu papel servindo-se no buffet de cristãos. Depois, enquanto os felinos palitavam os dentes, entravam os palhaços para distrair o público dos horrores recém presenciados.

Pronto, passou, como dizia minha mãe quando a gente levava um susto. Nada como um afago e a mão eleitoral de alguém dizendo que “foi apenas um susto!” Nos sentimos nervosos na platéia comendo pipoca e vendo os leões agindo no picadeiro. Mas depois, no circo da vida real, mais ou menos a cada quatro anos, vem alguém passar a mão na cabeça da gente, dizendo, “pronto passou, daqui pra frente será diferente”!

Ufa! Desamasso o saquinho e ainda encontro uma pipoca, que escapou dos dedos nervosos. Uma sensação de vitória! Em meio aos caroços não estourados, encontro a mais saborosa de todas: a pipoca da alienação.

E as crianças, e o aborto? Não sei, tenho mais o que fazer, tenho meus brinquedos preferidos: meu trabalho, meus amores, minhas preocupações. Sonhar com a próxima sena acumulada. Tenho certeza que daqui a quatro anos alguém virá bagunçar meus cabelos e dizer, está tudo bem, foi apenas um susto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A grande pergunta, a grande resposta, a grande missão!



Quando morei na Inglaterra, anos atrás, assisti pela TV o homem chegando à Lua. Estava na escola, e minha cabeça de criança entrou em órbita com aqueles astronautas. Visitando aquele menino distante mais de quatro décadas, percebi que ele ainda pensa nas coisas do espaço.

A Apollo 11 alcançou a baixa órbita terrestre 12 minutos depois da ignição dos motores, já tendo deixado dois dos três estágios do foguete para o oceano Atlântico. O terceiro estágio só foi liberado depois de dar o último impulso aos exploradores, aumentando ainda mais a velocidade da nave Apollo, rumo à Lua. Para tirar o homem da força gravitacional foram necessárias toneladas de combustível. Em 20 de julho de 1969 o comandante Neil Armstrong tocava o solo lunar e declamava: “Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.”

Hoje o homem, tendo deixado muitas coisas de menino para trás, vai ressignificando eventos e experiências do passado, dando a eles novos contornos. Considerando que todos saímos do nível do mar e que o espaço é nosso destino, fiquei matutando o quanto de energia é preciso para sair do ‘chão existencial’ para tocar as estrelas, rumo ao infinito! Neste sentido, cada um deve definir quais são as suas resistências, ou quais forças podem estar impedindo o vôo. Compreendi que três grandes estágios devem ser superados para quem deseja sair do chão.

O primeiro é ter coragem para enfrentar a grande pergunta: quem sou eu? Esta é a questão de identidade. Define a compreensão de ser diante dos outros seres vivos. Luta-se para sair da mediocridade. Esta pergunta é a pergunta original, a raiz de todas as outras perguntas. Quem não se preocupa com ela não vive e nem voa – apenas passa pela vida, cacarejando, andando para trás e ciscando migalhas. As perguntas certas levam ao fundo do ser, e trazem determinadas angústias. Alguns, não as suportando, tentam roubar a vida de outros, fingindo ser o que não são. Vivendo com medo, tornam-se agressivas. Focam no ter, escondem-se atrás de objetos e consideram os demais apenas conforme sua utilidade. Mas quem se esforça avança para outro nível.

O segundo estágio é a grande resposta, o encontro que dá senso de identidade, auto-estima e força. Voando como águias a vida adquire uma nova dimensão. A altura determina novos horizontes, novas perspectivas, novos aprendizados. As resistências interiores diminuem e o aprendizado traz a humildade. O ter é superado pelo ser. Finalmente, o encontro com o “Eu Sou” traz a libertação que leva ao limite da rendição de nós mesmos diante do incompreensível. Entramos em harmonia, sustentados pelo ar e pela velocidade. ‘Quem sou’ se equilibra com “de quem sou”. Mas certa inquietação ainda avisa que não é o último estágio, existem coisas maiores e melhores mais acima. Novas perguntas. Qual é o propósito de todas as coisas? Para que existimos?

O terceiro estágio, o último impulso, para aqueles que agora voam mais alto ainda, permite a libertação e o encontro com o propósito maior da vida, o serviço, o exercício da vocação para a qual fomos chamados. A finalidade, a missão, a grande comissão: chamados, comissionados e enviados para servir a humanidade, segundo os propósitos de Deus! Nada mais aprisiona, as grandes resistências foram vencidas, as forças terrenas finalmente superadas. As limitações são reconhecidas sem angústias. Amar é o grande desafio. A missão é o cumprimento do amor, o exercício da vocação.

A vida flui naturalmente para quem atingiu o terceiro estágio, assim como o foguete, liberto de todas as forças que tentavam segurá-lo, vai ao encontro de seu destino sem esforços. Libertos das forças que puxam para baixo, dos “desejos existenciais terrenos", prosseguimos para o alvo. Neste momento, navega-se em paz, com simplicidade, alta velocidade, com propósito. O passado, o presente e o futuro se tocam em um único ponto: hoje!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Mosaicos


A vida é um grande mosaico.

Gosto dos trabalhos de Patchwork, aquelas colchas de retalhos que são produzidas a partir de muitas peças diferentes e coloridas. Eram sobras, e um dia alguém resolveu aproveitar e criar algum padrão com o que era jogado fora. Pronto, um novo estilo surgia! O acaso virou moda, o lixo pode ser um luxo!

Da mesma forma construímos nossas vidas. Há pessoas que gostam de uma colcha padronizada, talvez com listras, retas, azul, branco, azul, branco, azul... Para estas pessoas, a rotina é sensacional, uma emoção! Possuem um padrão para todas as coisas, lugares preferidos nos auditórios, nos restaurantes, e por aí vai. São metódicas, sistemáticas, disciplinadas, cumprem tarefas e horários com alegria e entusiasmo. Sua casa é o paraíso para deficientes visuais: você encontrará, dia após dia, todas as coisas nos mesmos lugares! Gostam de respostas: - onde está a colher de sobremesa, pergunto, e elas orgulhosamente respondem “–na porta direita do armário, na segunda gaveta, de cima para baixo, no armário ao lado da pia, logo atrás das facas!”, com aquela cara de ‘deerrr, será que ainda não aprendeu?’ Elas gostam de seguir receitas. São pessoas confiáveis e previsíveis. Correm-se poucos riscos com elas.

Por outro lado, tem aquelas pessoas que gostam de juntar experiências como quem junta conchinhas no mar. Cumprem com todas as suas responsabilidades, mas seu lugar preferido é... onde der vontade. Para elas a rotina, a organização, são desafios a serem superados! Gostam de novidades, buscam novos lugares, são inquietas por natureza: votaram na esquerda? Então na próxima eleição vão experimentar a direita. E daí? Sorvete de morango? A próxima sobremesa será ovo frito com calda de chocolate – por que não? Gostam de ‘adaptar’ receitas. São pessoas leais e imprevisíveis. Arrisca-se quem faz amizade com essa turma; podem levar um susto a qualquer momento.

Sinto que sou um mosaico existencial. Gosto de lugares diferentes, de experimentar diversos odores, culturas e situações. Gosto das perguntas mais do que de dar respostas. Principalmente da pergunta: “-e se....?”, como o gato do desenho Alice No País Das Maravilhas! Sou um camaleão comportamental. Não SOU isto ou aquilo – porém, ESTOU isto ou aquilo. Sem crises, superei os rótulos alheios. Entendi meu defeitos preferidos, que nada mais são do que o exagero de minhas virtudes. Impossível me livrar deles sem acabar com aquelas. É um paradoxo.

A pluralidade é essencial, mas existem limites e absolutos. Mais paradoxos. Acho que mesmo meu ‘mosaico’ tem um padrão. As coisas não estão arranjadas aleatoriamente, têm seu lugar e sua ordem. Mesmo que eu goste de arranjar tudo de maneira diferente todos os dias! Olhando para meu mosaico, surge então uma pergunta: alguém aí tem uma tesoura?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Decisões, decisões, decisões!


Em uma pequena indústria de processamento de laranjas, um funcionário ficava todos os dias na linha de produção separando laranjas que corriam por uma esteira. Ele pegava as maiores e colocava em um tubo; as menores, em outro tubo e as machucadas, num terceiro tubo. Isto por horas a fio! Então uma pessoa que observava este trabalho, perguntou:

- Esta rotina não te deixa maluco? Como você agüenta ficar aí o dia todo colocando laranjas nestes buracos?

“- Isso não é nada”, ele respondeu, e continuou: “- Desde a hora que chego até sair, são decisões, decisões, decisões...!”

Tomamos decisões todos os dias, o dia todo. Das menores e inconseqüentes até as maiores, com repercussões que podem mudar nossa vida para sempre. Levantar da cama? Que roupa usar? Fazer aquela ligação? Aceitar um convite? Comprar um novo carro? Ter um filho? Abrir mão de uma antiga responsabilidade? Fazer aquela viagem? Exercícios? Passear com os filhos? Mudar de atividade? Decisões, decisões, decisões!

Não escapamos das decisões. As de maior impacto nos angustiam de uma forma ou de outra. O medo de errar pode nos fazer procrastinar a resolução – mas adiar já é uma decisão e trará suas conseqüências. É uma ilusão pensar que “dar um tempo” trará alguma resposta.

Na verdade, o tempo não resolve nada: apenas dizemos isso para não nos envergonharmos de nossa falta de coragem. Não falo do tempo necessário para a reflexão – a reflexão é imperativa, necessária e bem vinda. Falo sobre o ‘tempo’ que é o resultado da covardia ou da omissão. O famoso “- vou pensar a respeito...”, sem nenhum prazo definido.

Pior do que adiar ou se omitir é colocar a responsabilidade em alguém: cônjuge, amigos, Deus, o Diabo... Pois é, incapaz de tomar a decisão, aquele casal no Jardim do Éden colocou a responsabilidade na Serpente. Foi o primeiro “Você decide” da história da humanidade. E deu no que deu. A mulher disse que a Serpente decidiu, o homem colocou a culpa na mulher, e Deus perdeu a paciência com os dois e lhes deu um pé na bunda, dizendo: “vou mandar meu filho resolver essa pendenga com vocês...” O pecado original foi o pecado da preguiça.

Ninguém decide por você – nem Deus. Deus apenas orienta e mostra possibilidades. Nós fazemos as escolhas. O maior erro, resultado de uma má interpretação das Escrituras, é fazer a seguinte oração: “Deus, me mostra sua vontade”! Aí passamos a agir passivamente, à procura de sinais, eventos, ou qualquer coisa que nos tire a responsabilidade final. Na verdade, a covardia ou a preguiça fazem com que prefiramos transferir nossas decisões para alguém. É melhor culpar alguém do que a si próprio.

A melhor forma de tomar decisões é fazendo perguntas. Por exemplo: “posso desenvolver habilidades e competências para poder tomar melhores decisões?” O tempo que você investe buscando sabedoria nas Escrituras, ouvindo e aprendendo com pessoas mais experientes, descobrindo técnicas de processos de tomada de decisão, investindo em oração e meditação, buscando se desenvolver, trarão cada vez mais elementos e insights para as decisões de cada dia. É claro que você já eliminou aquelas que atentam contra a vida, a ética ou o amor ao próximo. Estas não precisam nem de ‘reflexão’. Simplesmente diga não.

Porém, por mais que você se prepare, reconheça que o imponderável, o desconhecido e misterioso, possa acontecer. O imponderável é a soma de todos os “se”. Ao tomar sua decisão deixe bem claro para você mesmo e para todos este detalhe crítico. Pode ser que sua melhor análise não tenha sido exata. Pode ser que algo aconteça. Pode ser que Deus (o único que conhece todos os ‘se’) ajuste seus planos ou mude decisões, apesar d’Ele estar no início de seu processo decisório. Respire fundo, vá em frente, esteja pronto para aceitar mudanças ou correções de rumo. O vento muda. O imponderável acontece. Mas você apenas progredirá se assumir riscos. Crescimento exige sabedoria e sabedoria se ganha tomando decisões e aprendendo com elas.

Assim é a vida, uma eterna recriação a partir de oportunidades recebidas, decisões feitas, acertos e fracassos. Agindo assim, você obterá sucesso. E sucesso é diferente de vitória.

Gosto de definir ‘sucesso’ como o melhor que você pode fazer com os recursos disponíveis. Se você foi fiel no pouco, você obteve sucesso. Se você foi fiel no muito, você obteve sucesso. Pode ser que em medidas quantitativas você possa pensar que seu sucesso foi “pequeno”, mas qualitativamente falando, sucesso é sucesso! Não tenha apenas o quantitativo como indicador de sua vida. Ganhar ou perder um jogo é apenas uma questão de vitória ou derrota. Não pense que toda derrota é um fracasso, ou que toda vitória é sinal de sucesso. Sucesso é dar o máximo de si, sempre, apesar das eventuais vitórias ou derrotas.

Amplie seus horizontes! Suas decisões são importantes demais para você pensar em fracasso. Quando você deitar no final do dia com a certeza que fez todo possível, e não apenas o que te mandaram fazer, você dormirá em paz – um importante indicador de sucesso!

Algumas pessoas caminham na chuva, outras apenas se molham (R. Miller). No que elas foram diferentes?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Rompendo a barreira do som


Quando eu era criança, meu pai foi desenvolver um projeto na Inglaterra pela Força Aérea Brasileira, levando toda a família. Ficamos por lá quase dois anos. Um dia, ele nos levou a uma feira de aviação que estava acontecendo. Foi sensacional, o sonho de qualquer moleque, aviões de todos os tipos e tamanhos para serem visitados! O cheirinho de gasolina de avião é inconfundível!

O ponto alto da feira foi assistir um caça supersônico quebrar a barreira do som. Estávamos em uma arquibancada e todos foram orientados a olhar à direita, de onde o avião surgiria. Suspense, expectativa, e... de repente, um baita estrondo!

Mas nada do avião. Então, aos poucos, percebemos a silhueta do caça se aproximando num vôo rasante, e como um raio passou diante de nós.... em COMPLETO SILÊNCIO!

Uns dois ou três segundos depois, uma coisa fantástica: o som veio vindo, aumentando, passou por nós e seguiu a trajetória do avião, agora diminuindo de intensidade! Vencida a barreira do som, o caça voava em completo silêncio, para nossa perplexidade! Logo depois uma barulhada infernal o seguia, parecendo persegui-lo desesperadamente.

Essa cena ficou marcada em minha cabeça. Hoje, relembrando, percebi que também voamos pela vida!

Nosso desafio é vencer e romper cada uma das barreiras que estão à nossa volta. Cada obstáculo, cada coisa que "faz barulho" nos dispersa ou impede de alcançar nossos objetivos. Pior ainda: a barulhada pode estar dentro de nós, como uma voz implacável a martelar nossa consciência! É ou não é verdade? Quando estamos concentrados em uma tarefa, aqueles zunzunzuns só atrapalham!

Ao superar as barreiras começamos a 'voar em silêncio', em paz, deixando todo ruído para trás. As coisas que mais fazem barulho são as transações inacabadas da vida, ciclos abertos, pendências não resolvidas. Pode ser alguma dívida, ressentimento, falta de perdão, culpa, baixa auto-estima, processos, e assim por diante.

Ao fecharmos os ciclos quebramos a barreira do som! Então uma paz incrível nos envolve, a vida se enche de uma harmonia pacificadora e conseguimos avançar em silêncio. E, outro efeito fantástico, deixamos também de ser ruído para outras pessoas!

Somos o piloto de nossas vidas. Nosso “caça” são as experiências, habilidades e competências adquiridas pelo caminho. Nosso combustível é a nossa fé, nossa vontade, nosso propósito de vida. Uma vida em equilíbrio acelera com segurança.

Voce também pode escutar e ler uma mensagem clicando "The sound of silence"

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O que você tem nas mãos? Entrega, e tudo voltará!


Dia desses, lendo os Evangelhos, percebi um princípio bem interessante. Jesus transformou água em vinho; alguns pães e peixes em uma refeição para multidões; redes vazias em redes cheias; alguns homens em discípulos; alguns discípulos em Igreja; dúvida em fé; fé em ações concretas; culpa em graça; cegueira em luz; razão em humildade; obras em caridade; impossibilidades em resultados.

Pensando em outras passagens, a ação de Deus também operou transformando um homem e uma mulher estéreis em uma grande família; de famílias saíram nações. Um pouquinho de azeite foi multiplicado, uma pedrinha terminou uma guerra, uma Arca foi o primeiro projeto de responsabilidade socioambiental da história (seria Noé o guru dos ambientalistas?), e muitas histórias semelhantes. Metáforas, milagres e parábolas à parte, encontraram-se aí duas coisas.

Deus sempre usou recursos e pessoas disponíveis para multiplicar, mudar e transformar a realidade! Do pouco que temos ou somos Ele pode produzir muitas coisas. E isso continua em nossos dias. Mas não é isso que mais me chamou a atenção. Hoje a ficha caiu para outro fato.

Os maiores mistérios se escondem no óbvio. Muitas vezes não nos damos conta que é preciso, primeiro, abrir mão do que possuímos para poder ser transformado ou multiplicado por Deus. Abrir mão, dar, liberar, entregar, desprender-se, render-se!

O que você deseja multiplicar ou transformar? Deus partirá do que você já tem: amor, recursos, habilidades, competências, tempo, azeite, peixinhos, pães, redes, barcos, culpa, fé, habilidades, competências,... Sejam pontos fortes ou fracos, eles apenas serão usados se você entregar “nas mãos de Deus”. A perseverança é uma escolha seguida de uma ação, todos os dias, passo a passo, caminhando sobre as águas, olhar firme em seu objetivo. Ponha-se em movimento, libere o que você retém...

A transformação, ou colheita, vem no tempo certo. O futuro não será “alcançado” – ele é a significação do que você faz hoje.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Travessias


http://www.ted.com/talks/lang/por_br/lewis_pugh_s_mind_shifting_mt_everest_swim.html?utm_source=newsletter_weekly_2010-07-30

Em qualquer travessia ou caminhada pela vida, vários fatores de sucesso são determinantes. Aprendemos com o tempo a agir conforme uma tática e uma forma de ser, pensar, fazer coisas. Gostamos de um padrão, eles nos dão confiança e segurança - mas nem sempre eles servem para todas as situações!

O que deu certo no passado não garante que dará também certo no futuro. O cenário, as condições, a conjuntura, a realidade é dinâmica e muda todo tempo. O que fazer?

Sua mente deve estar sensível às mudanças. Sua ATITUDE dever ser diferente diante de cada novo desafio.

Enquanto você caminha, encontra muitos corpos dos que fracassaram ao tentar atingir seus objetivos espalhados à sua volta... Voce os vê, você os encontra em cada esquina, lar, relacionamento, cada novo negócio, cada nova oportunidade. Mas você pode decidir aprender com o fracassso deles (é menos dolorido) ou com seus próprios fracassos - a dor é a melhor professora para o desenvolvimento pessoal! Permita-se SEMPRE APRENDER!

Três grandes lições ficam deste vídeo.

1. Só porque você tem uma estratégia vencedora não significa que ela será sempre vencedora;

2. Diante de cada desafio, você precisa entender que uma nova ATITUDE MENTAL será o fator crítico de sucesso. A sensibilidade para perceber pequenas mudanças é determinante para se atingir as metas;

3. Decida agir, em cada situação, como se o desafio fosse algo inteiramente novo. Encontre uma tática completamente nova. Seja criativo, surpreenda você mesmo, e você surpreenderá também seus obstáculos - e os vencerá!

Eu acredito em você!

sábado, 24 de julho de 2010

Minhas Professoras


Elsie,
Boa tarde!
Recebi a Mãos Dadas - 25, revista que voce edita. Gostei dos textos, em especial sua narrativa da "tia Almerinda" e a matéria da capa, "Caráter: o segredo de quem sabe conduzir a criança". Parabéns à equipe!

Sua história (ou seria estória?) me lembrou de tres professoras, da época do Ensino Fundamental: D. Raimundinha (3a série, escolinha da Base Aérea em Brasília), uma facilitadora de leituras como ninguém, até hoje minha mãe tem guardada uma redação que eu fiz naquela época, recebendo um premio. Alguma coisa a ver com uma certa gotinha de chuva... coisas de mãe!

Teve a Márcia, querida professora da 4a série (acho que foi aquela paixão de criança, suspiro..., veja a intimidade, nem usei pronome de tratamento!). Lembro sempre dela administrando a bagunça da Escola Classe do Lago Sul. O Oziel e o Romano, guris terríveis, sempre se provocavam, a classe ficava uma loucura - mas ela sempre encontrava um caminho seguro para reconduzir a turma ao ponto de aprendizado. Me senti frustrado ou traído, sei lá, quando ela apareceu grávida. Coisas de moleque.

E me lembro de D. Cornélia, professora de português da quinta série: terribilíssimo, boníssimo, agradabilíssimo, fidelíssimo, amabilíssimo... gustáááávo, preste atenção!!!!, ... era a campeã dos superlativos e forçava todas as palavras, tratando-as como filhos no parque, parecendo chama-los no meio da multidão. Impossível esquecer onde ficavam as sílabas tônicas, ou o significado do superlativo absoluto sinteticííííssimo!

Precisamos mais de Almerindas, Raimundinhas, Márcias, Cornélias, mestres das letras e dos exemplos, artífices do conhecimento que nos remetem ao aprendizado, à disciplina, ao prazer de estudar e aprender. Pessoas de caráter, educadoras natas. Verdadeiras referências, promotoras da liberdade e do senso de limites.

Mesmo sem elas jamais virem a saber (onde andarão, estão ainda vivas?), registro meu reconhecimento, tributo e admiração. Para elas, para todas, fico de pé na platéia, aplaudindo. Obrigado, queridas professoras!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Reino de Deus está em Vós [Tolstoi]


O discípulo de Cristo, cuja doutrina consiste na penetração progressiva do pensamento evangélico, em sua observância, cada vez maior, no caminho para a perfeição, não pode afirmar, por conta própria ou por conta de outrem, exatamente por ser discípulo de Cristo, conhecer por inteiro Sua doutrina e observá-la. Menos ainda pode afirmá-lo em nome de toda uma assembléia.

Qualquer que seja o grau de compreensão e perfeição que tenha atingido, o discípulo de Cristo sente sempre a insuficiência de seu entendimento e de sua observância, e sempre se inclina para uma penetração e uma obediência cada vez maiores. Eis por que a afirmação — em seu nome, ou em nome de uma sociedade — que nos encontramos de posse do total entendimento e da perfeita observância da doutrina de Cristo seria uma renúncia ao espírito da própria doutrina.

Por mais estranho que possa parecer, cada igreja, como Igreja, sempre foi e não pode deixar de ser uma instituição, não só alheia, mas até diretamente oposta à doutrina de Cristo. Não foi sem motivo que Voltaire a chamou de infame. Não é sem motivo que todas, ou quase todas as pretensas seitas cristãs, reconheceram e reconhecem a igreja na grande pecadora profetizada no Apocalipse. Não é sem motivo que a história da igreja é a história das maiores crueldades e dos piores erros.

As igrejas, como igrejas, não são instituições que têm por base um princípio cristão, ainda que um tanto desviado do caminho certo, como pensa um grande número de pessoas. As igrejas, como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs. Não só nada existe em comum entre as igrejas e o cristianismo, exceto o nome, como seus princípios são absolutamente opostos e hostis. As primeiras representam o orgulho, a violência, a sanção arbitrária, a imobilidade e a morte; o outro representa a humildade, a penitência, a submissão, o movimento e a vida.

Não se pode servir ao mesmo tempo a estes dois senhores: é preciso escolher um ou outro.
Em: O Reino de Deus está em Vós [p. 43]– Leon Tolstoi, 1893.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Aquela rádio e duas igrejas

Uma rádio cristã, em Curitiba, resolveu cortar a programação de duas grandes igrejas da capital paranaense. Talvez existam até outras dentro do ‘pacote de exclusão’, mas não saberia dizer. Motivo: as músicas tocadas por estas igrejas, em seus cultos, eram “contemporâneas”. Em outras palavras, estavam fora da ortodoxia defendida pela emissora. Esta emissora agiu sem buscar o diálogo para apresentar suas intenções ou motivações. Apenas informou através de uma carta às igrejas sua decisão, assumindo que a forma é mais importante que o conteúdo.

Além de comunicar a decisão, a emissora trouxe uma palavra de julgamento no melhor estilo ‘vocês-estão-em-pecado’. Citaram textos da Bíblia que apontam para a idolatria. Pior: ainda se orgulharam de seu feito, com exortações que lembram o obscurantismo. Alegaram estar defendendo seus ouvintes, transferindo a sua responsabilidade. É covarde quem decide unilateralmente, usando de sua posição, sem antes dar chance ao outro de ser ouvido, nem que seja por consideração. Ou por amor cristão.

Infelizmente, é comum em instituições religiosas esta forma de ação, sejam elas rádios, denominações ou outras associações. Conquistam mansamente sua audiência, angariam fiéis e parceiros, e depois começam a mostrar seus dentes. Interesses e projetos pessoais são sua agenda oculta. Discordantes ou pensadores são excluídos das mais diversas maneiras, geralmente com um discurso indignado de ‘pureza’, ‘sã doutrina’ ou ‘visão’!

Esta arrogância é uma das maiores tragédias em nossa sociedade chamada cristã. O sectarismo, a discriminação, o juízo superficial, as vaidades e ciúmes apontam para uma realidade há muito tempo profetizada: a apostasia.

Dicionário: Apostasia (do grego apostasia) — Substantivo feminino. 1. Separação ou deserção do corpo constituído (de uma instituição, de um partido, de uma corporação) ao qual se pertencia. 2. Abandono da fé de uma igreja, especialmente a cristã. 3. Abandono do estado religioso ou sacerdotal. Tá lá no Aurélio.

Em um primeiro momento, o sinal da apostasia são templos vazios, abandono da fé ou da ortodoxia da classe dominante, a solidão institucional ou pessoal. Relaciona-se a pessoas que saem, que abandonam a comunhão, renunciando sua fé ou visão institucional. Mas, contextualizando duas Epístolas de Paulo (1 e 2 Tessalonicenses, capítulos 2 em especial), percebemos outro sinal da apostasia: templos cheios de gente errada ou enganada, grande audiência em rádios ou TV, posse de emissoras ou estações de rádio, espaço nas mídias dando a impressão de sucesso. De uma forma ou de outra, o Apóstolo alerta que muitos destes ambiciosamente buscam ocupar o trono de Deus! A sua postura de "juiz" os desmascara.

Entendemos e identificamos bem o sinal da primeira apostasia (abandono, deserção), mas somos tentados a não refletir que muitas vezes o 'sucesso' também pode ocultar erros e falta de integridade. A injustiça e a omissão são evidências maiores da apostasia.

Engano, impureza, dolo, bajulação, ganância e manipulação combinados com sinais e prodígios também enchem igrejas, alimentam mentes enfraquecidas, promovem mídias, entusiasmam líderes com egos inflados, alienam, aumentam vendas.

Pelo bem da verdade, a atitude da emissora é uma exortação para todos avaliarem o seu “sucesso”! A história mostra que o cristianismo nunca foi uma religião que agrada as massas. Se agradar, tem alguma coisa errada. Uma exortação, mesmo vindo de quem não tem autoridade, pode ser uma chamada ao primeiro amor, a uma reflexão.

Por outro lado, a vaidade e a arrogância de atitudes inquisitórias, surtos de autoritarismo, a permissividade com injustiças, também demonstram que o ministério da iniqüidade, segundo a eficácia de Satanás, está presente onde menos se espera.

Que Deus tenha misericórdia de seu povo!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

reBlog from kevinwmccarthy.com: Kevin W. McCarthy

I found this fascinating quote today:



OP_leader_logos_blueOne of the most tragic aspects of my work in mentoring is to see people with leadership blinders.   There are many ways of getting these blinders where we really can't see our leadership potential.  I've been gifted with eyes to see into the hearts of people and to have an inherent sense of their leadership potential.  Frankly, this gift has a heartbreaking downside as I see people who cower from knowing who they really are and settle for less in this one lifetime. kevinwmccarthy.com, Kevin W. McCarthy, Jun 2010



You should read the whole article.

http://www.kevinwmccarthy.com/

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A copa de 50, Ghiggia, Adolpho e Edna


Fui visitar meus pais domingo à tarde. Casa de mãe tá sempre aberta para os filhos, mesmo que estes nem sempre compareçam: café, pão muxibento com a manteiga preferida, aquele biscoito especial da lata em cima da geladeira, o gato debaixo da mesa, conversa de tempos idos, promessas de um futuro melhor, ‘quais as novidades?’ Na cozinha da mãe, sorrisos lambuzados lembram que, para eles, cinqüenta anos depois ainda somos as crianças.

Cariocas exilados em Curitiba há mais de 30 anos, converteram-se à cidade que os acolheu. Moradores de longa data no Butiatuvinha, fizeram da “colônia” a sua vizinhança, que vai até o centro de Santa Felicidade. Seu Adolpho conhece pelo nome os taxistas do terminal e os motoristas e trocadores da linha de ônibus que serve sua rua. Por pura gentileza, dessas que fazem Curitiba ainda parecer cidade pequena, existe um ponto invisível em frente à sua casa: vantagens da terceira idade.

Seu Adolpho só não se converteu para os times locais. Flamenguista, sempre lê o jornal Lance!, reservado “pelo meu amigo jornaleiro” na banca. E a conversa foi fácil pra copa do mundo. Puxando o passado, lembra que “eu estava lá”, na final de 1950 no Maracanã. Milico da Aeronáutica servindo em Caravelas (BA), quase pega cadeia por ter inventado uma história para assistir a final do mundial “tive que esticar minha licença no Rio, mamãe estava doente”, diz com um sorriso maroto no canto dos lábios. Entusiasmado, ele havia também levado seu pai para assistir sua primeira partida de futebol em um estádio – e logo a final da Copa! Mas, foi também a última, tamanha frustração: vovô Juca nunca falou de futebol com os netos.

De memória, aponta a linha da seleção do treinador Flavio Costa: Jair, Chico, Ademir, Zizinho e Friaça. Lembra do Danilo (meia) e do desolado Barbosa, o goleiro “soube que ele está nas últimas”, lamenta. Da zaga, poucas lembranças. Pudera. E quem fez o gol da vitória do Uruguai, pergunto – Ghiggia, responde, com o olhar de quem relembra um antigo desafeto. Desconfiado, seu Adolpho culpa a mudança de última hora da seleção para a concentração do Vasco pela derrota do scratch nacional. Após o jogo, ele se refugiou na casa de uma tia, para chorar sua tristeza. Mas nem tudo estava perdido!

A tia Wanda era conselheira do grupo de adolescentes da igreja Metodista de Vila Izabel. Ela estava recebendo alguns jovens em casa naquele dia. Dentre eles estava a Edna, cabelos negros e grandes olhos, que não gostou nem um pouco daquele marmanjo chorão, onde já se viu? Mas quem é que entende as coisas do coração? Sete anos depois, seu Adolpho e D. Edna se casavam.

Após 53 anos de casamento, seis filhos, oito netos e netas, receberam com empolgação a Seleção em sua cidade. Sim, “sua” cidade, pois hoje se identificam muito com esta terra que os acolheu e onde são queridos. Sessenta anos depois, Ghiggia, algoz do Brasil, ainda é lembrado como o cupido de Adolpho e Edna!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Teu é o Reino, o Poder e a Glória!



Nos evangelhos, a oração do Pai Nosso termina com uma tripla afirmação:
“...pois teu é o reino, o poder e a glória!” É o final de uma oração essencialmente comunitária que desafia a uma vida em comunhão solidária.

Jesus Cristo define claramente onde, como e o porquê de todas as coisas. A utopia do reino por vir é de Deus, de ninguém mais. O seu exercício aqui será legitimado pelo amor. O objetivo final é a glorificação de Deus.

Porém, um profeta moderno coloca as coisas da seguinte forma: “la escuela parece estar eminentemente dotada para ser la Iglesia Universal de nuestra cultura en decadência (...) La escuela es un rito iniciatorio que introduce al neófito a la carrera sagrada del consumo progresivo” (Illich, 1971).

A igreja institucionalizada caiu em algumas armadilhas, pois suas escolas teológicas copiaram a mesma lógica das escolas seculares, formando lideranças que deformam o povo. Sua doutrinação é a perpetuação da religião de consumo e do poder temporal.

O Reino de Deus é o tema central da Bíblia. Em seu entorno circulam as idéias de salvação, ressurreição e de nova vida que é possível a partir da mudança de atitude. O Poder de Deus manifesta-se na vitória da vida sobre a morte. A honra devida a ele é por esta demonstração de domínio sobre todas as coisas.

Muitas instituições que nasceram legítimas sabotaram este princípio e caíram em muitas ciladas criando reinos particulares onde circulam papas, bispos, neoapóstolos, pastores e outros adjetivos eclesiásticos. Criaram estados para si, com suas regras, normas, liturgias e fronteiras bem delineadas, guerreando uns com os outros.

Católicos ou Protestantes, dentre outras religiões, desenvolvem sua interpretação particular das Escrituras. O poder em suas mãos é o resultado dos reinos conquistados e legitimados pelo rito da escolarização teológica de consumo de subsistência. Cada um deseja, desde a sua igreja local ou paróquia, ser o rei, o monarca absoluto. Questioná-los é questionar o divino. A presunção do poder legitima ações e conchavos para a perpetuação do feudo, em “nome de Deus”!

Como conseqüência natural desta cultura em decadência, a honra é desviada para as lideranças locais. Verdadeiros papagaios de piratas do poder alheio, líderes que dão festas apenas para quem também pode convidá-los para suas mesas. O púlpito torna-se o trono. A estrutura e o organograma refletem a ilusão do poder. A glória transitória de líderes sem liderança remete à história do gigante de metal mas de pés-de-barro.

Todavia, uma resistência tem sido despertada. Pessoas têm se lembrado que, assim como na visão do profeta Daniel, a Rocha descerá e derrubará tudo e todos: ao pó retornarão! O reino, o poder e a glória dos homens desaparecerão. Precisamos resgatar a oração-ação comunitária.

Gustavo A. L. Brandão

sábado, 17 de abril de 2010

Parada para um cafezinho

Queridos amigos,
Após excelente passagem pelo Programa de Aprendizagem do Betesda e sua migração para a ABC, agora estou no caminho novamente! On the road again...
Usarei este espaço para umas 'reflexões de padaria': pensando alto enquanto tomo um cafezinho com vocês!

Deixo meu ditado preferido, em duas versões:
1. Cada um tem o que tolera;
2. Você não pode reclamar do que permite em sua vida.

Até!